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Violência doméstica: porque demoram os homens a pedir ajuda?

Vergonha, medo de não serem acreditados e estereótipos sobre masculinidade estão entre os fatores que ajudam a explicar a demora. Em quase 30% dos casos acompanhados pela APAV entre 2022 e 2024, o primeiro pedido de ajuda aconteceu dois a seis anos depois do início da violência.

Plataforma - Portugal

A violência doméstica contra homens continua a ser uma realidade pouco visível em Portugal. Entre 2022 e 2024, a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) apoiou 10.261 homens vítimas de crime e violência, um aumento de 23,3% no período. No caso específico da violência doméstica, os dados mostram que a procura de ajuda pode acontecer vários anos depois do início da vitimação.

A vergonha e o medo de ser julgado

Para a APAV, uma das principais explicações está nos estereótipos associados à condição de vítima. A ideia de que um homem deve ser forte, capaz de se defender e não demonstrar vulnerabilidade pode dificultar o reconhecimento da própria situação.

Daniel Cotrim, responsável da APAV, explicou à Lusa que existe uma conceção social profundamente estereotipada segundo a qual as vítimas de violência são sobretudo mulheres. Essa perceção associa ainda a palavra “vítima” a fragilidade e vulnerabilidade, características que continuam a ser vistas como incompatíveis com determinados modelos tradicionais de masculinidade.

A vergonha e o receio do julgamento de familiares, amigos ou outras pessoas também podem impedir o primeiro pedido de ajuda. A APAV já tinha identificado, nos dados relativos a 2021-2023, o medo e a vergonha como as principais barreiras à procura de apoio por parte dos homens.

Quando a própria vítima demora a reconhecer a violência

O problema pode começar antes da denúncia. Alguns homens têm dificuldade em identificar determinados comportamentos como violência ou tendem a minimizar a gravidade do que estão a viver.

Um estudo realizado com homens portugueses vítimas de violência entre parceiros íntimos identificou precisamente essa dificuldade. Os participantes referiram falta de informação sobre o que constitui violência, dependência emocional do agressor e a sensação de que deveriam conseguir resolver a situação por si próprios.

A violência psicológica e o controlo podem ser particularmente difíceis de reconhecer. No período de 2021 a 2023, a ameaça e a coação foram os crimes mais registados pela APAV nos casos de violência doméstica contra homens adultos, representando 32,3% dos crimes identificados.

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Dois a seis anos até pedir ajuda

Os números da APAV ajudam a medir esta demora. Entre 2022 e 2024, 29,8% dos homens apoiados pela associação fizeram o primeiro pedido de ajuda entre dois e seis anos depois do início da vitimação. Outros 10,9% demoraram pelo menos 12 anos.

No levantamento específico sobre homens adultos vítimas de violência doméstica entre 2021 e 2024, mais de 54% dos casos correspondiam a violência continuada. Nesse período, 29,9% das vítimas esperaram entre dois e seis anos antes de pedir ajuda pela primeira vez.

A APAV alerta, por isso, que os números relativos aos homens que procuram apoio não permitem medir toda a dimensão do fenómeno. Daniel Cotrim afirmou que, segundo estudos de incidência e prevalência citados pela associação, por cada homem apoiado existem pelo menos outros dois que não denunciam a situação.

O receio de não ser acreditado

Há ainda uma barreira institucional. Alguns homens receiam que a sua denúncia não seja levada a sério ou que sejam eles próprios vistos como os agressores.

O estudo realizado em Portugal encontrou relatos de homens que temiam ser ridicularizados, desacreditados ou considerados responsáveis pela violência. Entre os participantes que contactaram a polícia, alguns tiveram experiências negativas, incluindo situações em que sentiram que o seu relato foi desvalorizado.

Esta perceção pode contribuir para que alguns homens procurem primeiro apoio junto de amigos ou familiares, em vez de recorrerem imediatamente à polícia ou aos serviços especializados. No mesmo estudo, a maioria dos participantes recorreu a amigos e, em menor número, à família, enquanto os mecanismos formais de apoio foram utilizados com menor frequência.

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