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Especialistas alertam que Macau continua a desempenhar papel-chave no branqueamento de capitais

Apesar do desmantelamento do antigo sistema de jogo VIP, Macau mantém-se como um ponto estratégico para operações de lavagem de dinheiro associadas ao crime organizado asiático. O alerta é deixado por especialistas ouvidos pela Lusa, que sublinham a capacidade de adaptação das redes criminosas após a repressão imposta por Pequim ao setor dos casinos.

Segundo Martin Pubrick, antigo membro da Polícia Real de Hong Kong e especialista em corrupção e crime organizado, o fim dos chamados junkets — intermediários que angariavam grandes apostadores na China continental — não eliminou o papel de Macau nestes circuitos financeiros ilícitos. Embora muitos grandes grupos tenham deslocado parte das suas operações para outros países do Sudeste Asiático, o território continua a funcionar como ponto de encontro e de passagem para estas redes.

O sistema de junkets permitiu durante anos a circulação de enormes volumes de capitais, frequentemente associados às tríades chinesas. Esse modelo entrou em colapso ainda antes da pandemia de covid-19, na sequência do reforço da campanha anticorrupção chinesa, do controlo apertado de capitais e de processos judiciais exemplares contra figuras centrais do setor.

Entre os casos mais mediáticos está o de Alvin Chau Cheok Wa, antigo líder do Suncity Group, condenado a 18 anos de prisão por associação criminosa e jogo ilegal. Também Levo Chan, responsável do Tak Chun Group, foi condenado a uma longa pena de prisão.

A mesma leitura é feita por John Wojcik, investigador sénior e antigo analista do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, que considera que, apesar do fim das práticas tradicionais, Macau mantém relevância estratégica no ecossistema do branqueamento de capitais.

De acordo com Pubrick, a atividade criminosa migrou entretanto para apostas ilegais online, esquemas de fraude digital e transações em criptomoedas. Casas de câmbio, lojas de penhores e o uso intensivo de cartões de crédito passaram a desempenhar um papel central, tornando os fluxos financeiros menos visíveis e mais fragmentados.

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As redes adaptaram-se ainda através da deslocação de operações para países com regulamentação mais permissiva, como o Camboja, Filipinas ou zonas fronteiriças de Myanmar, criando um modelo de negócio distribuído e transnacional, cujas vítimas já se estendem à Europa e às Américas.

Casos recentes reforçam esta avaliação. Em março, as autoridades de Taiwan desmantelaram um esquema de lavagem de dinheiro avaliado em cerca de 890 milhões de euros, no qual vários suspeitos recorreram a casinos de Macau para branquear receitas provenientes de jogo ilegal online.

Num outro episódio, um fugitivo taiwanês ligado a grandes esquemas de jogo ilegal e branqueamento de capitais foi morto no Camboja, num contexto associado à expansão regional destas redes criminosas.

Para os analistas, Macau já não é o epicentro absoluto destas operações, mas continua a ser uma “porta regulada” explorada por organizações criminosas da China continental, Hong Kong e Taiwan, mantendo um papel relevante num fenómeno cada vez mais sofisticado e global.

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