Na sequência dos textos e análises sobre o papel de Macau como plataforma e a relevância do Fórum Macau na cooperação China-Países de Língua Portuguesa (PLP), este texto debruça-se sobre o Fundo de Cooperação para o Desenvolvimento (CPDFund). Criado em 2013 com mil milhões de dólares e sediado em Macau, o CPDFund visa catalisar o desenvolvimento através de investimentos estratégicos.
Gerido pelo China Development Bank e pelo Fundo de Desenvolvimento Industrial e de Comercialização de Macau, o CPDFund teria como objetivos centrais apoiar projetos que gerassem empregos, promova transferência de tecnologia e desenvolvimento de infraestruturas em setores como agricultura, indústria e energia, no fundo sectores produtivos. Reforça o papel de Macau como plataforma de serviços e aproximação cultural e económica.
Apesar do seu potencial, a implementação do Fundo revela desafios. Informações apontam para taxa de utilização, de 60% no ano passado, em cerca de 10 a 12 projetos, que representa pouco mais de metade do capital inicial, indicando um ritmo de investimento que poderia ser mais dinâmico. A expansão para Timor-Leste, anunciada recentemente, é um passo positivo, mas a sua concretização relativamente tardia sugere a necessidade de maior dinamismo.
É notória a concentração dos investimentos em economias maiores, como Angola, Brasil e Moçambique. Esta abordagem, embora compreensível, deixa de fora países de menor expressão, como Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, cujos projectos até agora não foram contemplados e poderiam beneficiar imensamente de uma maior atenção e de critérios de elegibilidade mais adaptados às suas realidades específicas.
O Fundo de Desenvolvimento China-África (CADFund), com cerca 100 projetos em quase 40 países, poderia servir “inspiração”. Este exemplo demonstra o potencial transformador de um mecanismo de financiamento focado no desenvolvimento. Os seus modelos de sucesso podem e estão certamente a ser adaptados à realidade dos PLP, potenciando o papel de Macau como plataforma e replicando estratégias de colaboração para mitigar riscos e maximizar o impacto.
O Fórum Macau pode/deve ser crucial para tornar o CPDFund mais ágil, transparente e inclusivo. A inclusão no portal online a lista de projetos financiados e critérios de seleção simplificados. É igualmente importante capacitar os PLP menores, oferecendo assistência e apoio técnico específico e direcionado aos seus empresários. Incentivar joint ventures entre empresas da China, Macau e as PME dos PLP, pode gerar efeitos mais abrangente, mais equilibrado e maior acesso ao mesmo.
Em suma, o CPDFund pode simbolizar a cooperação Sul-Sul. O seu sucesso reside na capacidade de se adaptar e inovar. Maior transparência e um foco na inclusão de todos os PLP, o Fundo pode consolidar o seu papel como catalisador de desenvolvimento sustentável, fortalecendo a relação entre a China e o mundo de língua portuguesa. O “bom ritmo de trabalho” que se pretende manter em 2026 será essencial para concretizar esta visão e para que o Fundo possa de facto ser uma força transformadora na relação entre a China e o mundo de língua portuguesa.