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“Duas Sessões” pressionam Macau para o fim do “status quo”

Macau sai das "Duas Sessões" com uma mensagem dupla: a manutenção do “status quo” deixa de ser opção, diz Lou Shenghua, professor de Ciências Sociais da Universidade Politécnica, para quem a cidade “deve avançar para uma transformação estrutural do seu modelo económico”; já o analista político Sonny Lo, destaca a “maximização do papel de Hong Kong e Macau como plataformas e janelas cruciais para a internacionalização do renminbi”

Fernando M. Ferreira

Nas “Duas Sessões”, o principal fórum político anual da China, que reúne em Pequim a Assembleia Popular Nacional e a Conferência Consultiva Política do Povo Chinês para definir as prioridades do país, Pequim voltou a defender uma maior integração de Macau no desenvolvimento nacional. Ao mesmo tempo, fixou para 2026 uma meta de crescimento entre 4.5% e 5% e reforçou a aposta no consumo, nas infraestruturas e na inovação tecnológica.

Para Macau, a leitura que emerge das “Duas Sessões” é a de uma cidade chamada a alinhar-se mais estreitamente com as prioridades nacionais, mas também a encontrar novas funções económicas num contexto de diversificação forçada.

“A mensagem transmitida pelas Duas Sessões não é a de que Macau deva manter o status quo, mas sim a de que deve avançar para uma transformação estrutural do seu modelo económico, orientada pela ‘integração na estratégia nacional’”, diz Lou Shenghua ao PLATAFORMA.

Para o académico, a linha política de Pequim combina apoio e disciplina estratégica: “Do ponto de vista político, a ênfase do Governo Central na ‘maior integração de Macau no desenvolvimento nacional’ constitui simultaneamente uma expressão clara de apoio a Macau e uma exigência de maior alinhamento com as prioridades definidas por Pequim; as duas dimensões são indissociáveis.”

[Macau] deve avançar para uma transformação estrutural do seu modelo económico, orientada pela ‘integração na estratégia nacional’ – Lou Shenghua, professor da UPM

Integração, prosperidade e estabilidade

Na leitura de Lou Shenghua, a integração é simultaneamente um mecanismo de sustentação e de reconfiguração. “O ‘apoio’ que o Governo Central dá a Macau é impulso para o desenvolvimento; o ‘alinhamento’ de Macau é o pressuposto político e a lógica de ação necessários para aproveitar bem esse apoio e alcançar a sua própria prosperidade”.

“O objetivo último é assegurar a prosperidade e estabilidade de Macau a longo prazo no quadro de ‘um país, dois sistemas’, permitindo-lhe desenvolver-se em conjunto com o país e contribuir para a revitalização nacional”, explica.

A pressão estratégica de Pequim vai muito além do plano político, já que as prioridades definidas pelo “Governo central em matéria de segurança, autonomia tecnológica e competição estratégica com os Estados Unidos” redefinem o papel de Macau em “cinco dimensões”: “garantia de segurança”, “transformação tecnológica”, “cooperação regional”, “projeção externa” e “espaço de desenvolvimento económico”.

É neste ponto que Sonny Lo vê Macau como uma das plataformas externas da China em áreas estratégicas específicas, entre elas o renminbi. “Os sinais são os de que a China continua a liberalizar a economia; a assumir, em termos de política externa, uma posição multilateral e antihegemónica; a valorizar, no plano social, a harmonia e o progresso interno nas áreas da educação, do combate à pobreza e da proteção social; a reforçar-se militarmente e a modernizar-se sob a liderança do Partido Comunista Chinês”.

A integração de Macau no Interior da China, em especial na Grande Baía, não é uma mera retórica, mas antes uma estratégia planeada que oferece mais espaço físico em Hengqin para a diversificação económica e o reposicionamento de Macau – Sonny Lo, analista político

E no plano externo, “a intensificar a projeção através da maximização do papel de Hong Kong e Macau como plataformas e janelas cruciais para a internacionalização do renminbi e para a expansão e consolidação da iniciativa Faixa e Rota da China”, diz ao PLATAFORMA.

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Sonny Lo insiste também que a aproximação a Hengqin e à Grande Baía não é mera retórica política: “A integração de Macau no Interior da China, em especial na Grande Baía, não é uma mera retórica, mas antes uma estratégia planeada que oferece mais espaço físico em Hengqin para a diversificação económica e o reposicionamento de Macau”.

“Nesse sentido, Macau tem de aproveitar esta oportunidade para diversificar a sua economia e redefinir o seu posicionamento, afastando-se da anterior dependência excessiva do chamado ‘capitalismo dos casinos’. Os métodos de integração funcional já foram claramente referidos no 15.º Plano Quinquenal, tanto para Macau como para Hong Kong”.

Meta de crescimento não é “baixa”

Para o economista Henry Lei, “uma meta de crescimento do PIB de 4.5% para 2026 não é ‘baixa’; eu interpretá-la-ia antes como um desempenho ‘estável’, que poderá exigir ao Governo Central a introdução de medidas de estímulo, tanto do lado orçamental como monetário, para impulsionar o consumo privado, o investimento e as exportações, de forma a atingir esse objetivo”.

Assumo uma posição de optimismo cauteloso em relação às condições macroeconómicas de Macau em 2026 – Henry Ley, economista

Henry Lei admite riscos para Macau, sobretudo se a confiança dos consumidores chineses enfraquecer. “Tendo em conta a guerra na região do Golfo, a inflação elevada, o adiamento esperado dos cortes nas taxas de juro e a volatilidade dos mercados financeiros, isso poderá traduzir-se num enfraquecimento da confiança no consumo por razões de precaução, o que poderá afetar negativamente, até certo ponto, a despesa turística em Macau”.

Ainda assim, mantém uma nota de prudência positiva: “No conjunto, assumo uma posição de optimismo cauteloso em relação às condições macroeconómicas de Macau em 2026.”

Sobre os sectores que podem beneficiar desta linha de integração e diversificação defendida por Pequim, Henry Lei aponta para a diversificação em linha com a estratégia nacional. “Tanto o Governo Central como o Governo da RAEM têm vindo a sublinhar a importância da diversificação económica, sendo que o aprofundamento da integração com Hengqin e com a Grande Baía constitui um dos caminhos para avançar nesse processo.”

E acrescenta: “Entre essas áreas, os serviços financeiros modernos serão talvez os que poderão registar um desenvolvimento mais rápido”, embora também espere potencial em “projetos ligados ao turismo não associado ao Jogo, à tecnologia, e aqueles que contribuam para reforçar a integração de Macau com o país”.

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