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Cidade internacional cancelada

Fernando M. Ferreira*

Macau assumiu, nos últimos anos, a ambição clara de se afirmar como uma cidade internacional de grandes eventos; capaz de ir além do Jogo e captar novos públicos, em particular os mais jovens. Concertos, festivais e espetáculos internacionais tornaram-se peças centrais dessa estratégia, funcionando como montras globais da cidade e motores de diversificação. É precisamente por isso que a recente vaga de cancelamentos de concertos, sobretudo envolvendo artistas japoneses, não pode ser encarada com ligeireza.

A questão ultrapassa o impacto imediato que pode ter este espetáculo – ou aquele. O ponto é a atitude de cancelar. Está em causa a credibilidade de Macau enquanto destino fiável para organizadores, artistas e público internacional. Como alerta Glenn McCartney, nas páginas 6 e 7 desta edição, criar o impulso inicial é apenas o primeiro passo; mantê-lo exige consistência, previsibilidade e clareza.

Uma cidade que se quer afirmar como centro internacional de turismo e lazer precisa de transmitir segurança ao exterior. Isso implica comunicação coerente, processos claros e capacidade de antecipar riscos; sejam eles logísticos, administrativos ou políticos

É verdade que um cancelamento isolado, bem gerido, dificilmente compromete uma estratégia de longo prazo. O problema surge quando os episódios se acumulam e parecem obedecer a uma lógica opaca, difícil de compreender vistas do exterior. Quem observa de fora tem uma opinião negativa; ou, no mínimo, dúvidas por resolver: Macau é um mercado previsível? Existem regras claras? Vale a pena investir tempo, recursos e imagem num destino onde a programação pode ser cancelada à última hora? E porque motivo?

As declarações das autoridades, classificando os cancelamentos como “decisões comerciais”, tentam minimizar o seu impacto; contudo, não chegam para dissipar essas dúvidas. Uma cidade que se quer afirmar como centro internacional de turismo e lazer precisa de transmitir segurança ao exterior. Isso implica comunicação coerente, processos claros e capacidade de antecipar riscos; sejam eles logísticos, administrativos ou políticos.

Num contexto regional marcado por tensões geopolíticas e sensibilidades culturais, Macau tem a fama de ser um espaço singular, mais aberto que o Continente, onde artistas internacionais têm uma latitude maior para atuar, e onde públicos diversos se encontram. O que se está a ver é que essa vantagem competitiva não é garantida – nem permanente. Perde-se facilmente se a perceção externa for a de um destino instável ou imprevisível.

A construção de uma marca internacional exige tempo, investimento e, acima de tudo, consistência. Macau não pode permitir que a ambição de ser uma cidade internacional seja fragilizada por sinais contraditórios. Se quer atrair talento, público e investimento, tem de mostrar que sabe gerir não apenas o sucesso dos grandes espetáculos, mas sobretudo crises e tensões. Porque, no fim, a imagem de um destino constrói-se tanto pelo que acontece no palco como pela forma como se reage quando as luzes se apagam.

*Editor-chefe do PLATAFORMA

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