Eric Ka Chon Leong ficou cego aos cinco anos devido ao glaucoma. Apesar de ter sido operado em Hong Kong, a cirurgia não lhe devolveu a visão e regressou a Macau, incapaz de frequentar a escola normalmente como outras crianças da sua idade. Na década de 1990, a informação em Macau era limitada e a família acreditava instintivamente que deveria frequentar uma escola para cegos, mas tal instituição não existia na cidade. Depois de grandes dificuldades, a família conseguiu contatar outros pais de crianças com deficiência visual. Perante um futuro incerto, procuraram juntos o apoio de Paul Pun, então diretor-geral da Caritas Macau.
“Nessa altura, o senhor Pun disponibilizou uma sala na sede da Caritas para servir de sala de aula e contratou professores para nos ensinar. Chamem-lhe formação de vida ou atividades diversas – no fundo, organizavam várias atividades para nos dar oportunidade de nos adaptarmos à vida em grupo”, explica Eric ao PLATAFORMA.
As aulas da manhã deste grupo seguiam o currículo do primeiro ano da Escola São João de Brito, enquanto as tardes eram dedicadas ao ‘braille’. O conteúdo era por vezes ajustado e as vivências sociais eram também parte fundamental do programa.
“Por exemplo, se um colega faltasse por estar doente e o professor considerasse que conseguíamos gerir, levava-nos a uma papelaria para comprar material, para aprendermos a pagar e a distinguir notas pelo toque; também nos levava à rua para ouvir o trânsito, perceber direções e avaliar a distância dos veículos”.
De acordo com informações disponíveis no website da Direcção dos Serviços de Educação e de Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ), todas as escolas oficiais – à exceção da Escola Concórdia para o Ensino Especial, que lecciona em exclusivo o ensino especial – e 40 escolas particulares, participam no plano de educação inclusiva, que reúne alunos com incapacidade funcional, incluindo deficiências auditivas, visuais, linguísticas e outras. O Centro de Reabilitação de Cegos, subordinado á Santa Casa da Misericórdia de Macau, presta apoio a pessoas invisuais, com idade igual ou superior a 16 anos.
Desafios na integração escolar

O grupo, com apenas três alunos, durou dois anos. Paul Pun acreditava que, mesmo que os alunos permanecessem ali dez ou vinte anos, nunca obteriam qualificações reconhecidas socialmente, pelo que persuadiu os pais a transferirem as crianças para a Escola São João de Brito.
Inicialmente, os pais eram muito protetores. “Achavam que seríamos vítimas de ‘bullying’ e temiam que a sociedade não nos aceitasse”. Para além do receio de discriminação por parte de colegas, preocupavam-se com a falta de apoio adequado à aprendizagem e acompanhamento docente.
Após negociações com a Caritas, decidiram experimentar durante um mês. Para Eric, passar de uma “turma de alfabetização” com três alunos para uma escola formal não despertou grandes expectativas. “Depois da transferência, percebi de repente como o ambiente era vasto – deixou de ser aquele cantinho pequeno com uma casa de banho ao lado da sala”, diz Eric. Apesar da grande mudança, afirma ter conseguido adaptar-se.
O maior desafio na escola era a ausência de manuais em ‘braille’. “É o que considero mais injusto para um aluno integrado”, lamenta. “Porque é que os outros podem simplesmente abrir um livro e ler, enquanto nós temos de transcrever palavra por palavra para ‘braille’ antes sequer de podermos estudar?”
Para acompanhar o programa, a mãe de Eric por vezes pedia emprestados os manuais durante as férias de verão, usando esse tempo para os transcrever. “Enquanto os outros descansavam nas férias ou após os trabalhos de casa, para nós parecia um processo interminável”, explica Eric.
“Aprender a conviver com muitos colegas normovisuais e com diferentes perfis ajudou-me a perceber o meu papel e a encontrar o meu lugar entre as pessoas. Aprendi a entender dinâmicas sociais e a reconhecer emoções num ambiente inclusivo. Se não tivesse crescido assim, talvez não tivesse desenvolvido esta sensibilidade”, diz.
Quebrar estereótipos
Ao descrever uma infância diferente da dos outros, Eric fala de um “conflito entre razão e emoção, e de uma luta entre pessimismo e otimismo, que acabou por me treinar para ser um otimista com os pés assentes na terra”.
Estas experiências fortaleceram a sua determinação em dedicar-se ao aconselhamento psicológico e aos serviços sociais. “A psicologia é uma área extraordinária: permite-me usar conhecimentos e competências e, ao mesmo tempo, encontrar formas de ajudar os outros”. A família, porém, tinha outra visão: acreditava que estudar não lhe garantiria futuro e que aprender uma profissão como massagista seria mais seguro.
O que o motivou a continuar foi um livro que leu no ensino primário, “Não vejo, mas…”, de Chong Chan-Yau, presidente da União de Cegos de Hong Kong, também ele invisual. Passadas duas décadas, a mensagem permanece clara para Eric: “O espírito do livro é este: porque é que as pessoas com deficiência visual têm de se limitar à massagem? Porquê só estudar música? Porque não podemos aprender conforme os nossos interesses? Porque não podemos exercer profissões de conhecimento?”
As conquistas de Chong Chan-Yau na defesa da igualdade inspiraram profundamente Eric. Com perseverança, licenciou-se em Psicologia na Universidade de São José em 2012 e concluiu um mestrado em Aconselhamento e Psicoterapia. Trabalha há treze anos como psicólogo no Centro de Reabilitação Visual da Santa Casa da Misericórdia.
Desafios profissionais
Eric acredita que a sociedade continua a compreender pouco as pessoas com deficiência visual e que o mercado de trabalho pouco evoluiu. Muitos empregadores receiam contratar invisuais, temendo limitações no ambiente de trabalho ou falta de capacidade de apoio.
“Hoje em dia, quem emprega alguém espera que essa pessoa desempenhe várias funções. Se contratar um assistente social, esperam que também organize atividades, ajude antes e depois dos eventos… e pensam ‘se o contratar, ainda tenho de tomar conta de si?’” Para Eric, esta mentalidade é compreensível, mas difícil de aceitar para muitos invisuais.
Como solução, propõe que o Governo subsidie empresas que contratem pessoas com deficiência física, permitindo contratar um assistente de apoio. A subvenção poderia cobrir metade do salário ou ter um valor fixo. Dá como exemplo, um assistente social com dificuldades de mobilidade: o subsídio permitiria contratar alguém que o acompanhasse em visitas domiciliárias ou outras tarefas externas.
Para Eric, o desafio principal exige, a longo prazo, “sensibilização”, um trabalho educativo contínuo, e com o seu trabalho, pretende desenvolver ações com jovens e crianças, promovendo educação cívica e ensinando desde cedo como interagir e apoiar pessoas com deficiência visual.