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Identidade visual entre Europa, China e Macau

O designer alemão Florian Lamm, referência no design editorial contemporâneo, tem aprofundado a ligação à China e a Macau, onde observa uma convivência singular entre tradição, mercado e experimentação visual. A sua abordagem, centrada no processo e na reflexão, contrasta e dialoga com os diferentes contextos culturais onde trabalha - da Europa à Grande Baía. O designer estará presente, no final deste mês, no ‘Barra Slow Festival’ que decorre de 28 a 30 de novembro, nos Estaleiros Navais da Barra

Sara Lo

Crédito: Lamm & Kirch Studio

Nos últimos anos, Florian Lamm tem estado cada vez mais envolvido na cena do design na China continental. Em 2024, foi tutor na Design Summer Academy em Hangzhou, é jurado do Macau Design Award e membro da Shenzhen Graphic Design Association. Ao falar sobre designers e obras chinesas, afirma sentir uma forte coexistência entre memória cultural e espírito de experimentação moderna. “A tradição não foi descartada – está a ser reinterpretada através de novas tecnologias, materiais e estéticas. Aqui, percebe-se que o design não serve apenas a indústria; faz parte de uma transformação cultural”.

Como mentor, percebe claramente a vontade dos designers chineses de dialogar, trocar ideias e ultrapassar as competências técnicas, explorando formas de ligar expressão visual a questões sociais ou filosóficas mais amplas.

Comparada com a China continental, a cena de design em Macau apresenta um cenário distinto. “Aqui, é mais orientada pelo sector comercial, com maior ênfase em aparências deslumbrantes e na criação de espetáculos visuais de luxo”. Para Florian, existe uma certa teatralidade na coexistência, em Macau, entre património cultural e ambientes opulentos. Nesse contexto, o design carrega uma tensão entre “aparência versus realidade” e “características locais versus símbolos internacionais de luxo”. Acredita que manter o equilíbrio é um desafio, mas revela também como as forças económicas moldam a estética.

A maior diferença entre o design asiático e o europeu, na perspectiva de Florian, reside na relação com o mercado. Na Alemanha, o design questiona não só a forma, mas também o seu papel na sociedade e na cultura, mantendo distância do mercado e permitindo espaço para reflexão. Já na China, o design está muitas vezes intimamente ligado às realidades comerciais – soluções visuais precisam de ser fortes, imediatas e claras para sobressair num mercado competitivo. Não vê isto como melhor ou pior, apenas como reflexo de diferentes culturas visuais: “O design é uma negociação entre ‘conteúdo’ e ‘intenção’. Na Europa, o pensamento profundo molda o ritmo e a precisão; na Ásia, a imediatidade e a capacidade de resposta determinam o impacto visual”.

A lógica do processo como essência do design

Crédito: Tamara Eckhardt / Ostkreuz

O design não se resume ao resultado, mas às marcas deixadas pelo processo de pensamento”. É assim que Florian Lamm resume a sua filosofia. Através da sua experiência, lança luz sobre a verdadeira essência do design e recorda-nos as histórias que um livro físico ainda pode conter, mesmo numa era digital que tende a negligenciá-lo.

Florian Lamm é cofundador do estúdio Lamm & Kirch, sediado em Leipzig e Berlim, especializado em identidades visuais, livros e design de exposições para o setor cultural. A filosofia do estúdio assenta na comunicação colaborativa: o design nasce do diálogo entre todos os participantes – autores, curadores, editores, fotógrafos, designers e impressores – num processo que é menos transaccional e mais partilhado.

Especializado em design de livros, o alemão defende que um livro não é apenas um recipiente de conteúdos, mas um espaço de intercâmbio de conhecimento, estruturado pela disposição de imagens e texto, pela tipografia, formato, papel e técnicas de impressão. Cada detalhe é uma decisão conceptual. Para ele, o design não é decoração: um livro é sempre uma criação coletiva.

Reconhecimento internacional

Crédito: Tobias Kruse/ Ostkreuz

Desde 2009, o trabalho do estúdio tem sido amplamente distinguido, com prémios no concurso ‘100 beste Plakate’, no Festival Internacional de Cartaz de Chaumont, nos prémios ‘Schönste Deutsche Bücher’ e no Prémio Alemão de Fotolivro. Em 2018, Florian recebeu o Prémio do Presidente da Câmara de Brno, na Bienal Internacional de Design Gráfico.

Florian acredita que o que diferencia o seu trabalho é o processo: o design não surge da busca de um estilo, mas como resultado natural de reflexão, estrutura e ritmo. “A aparência de um design surge como um produto natural após trabalharmos a estrutura, o ritmo e o significado do livro. O estilo não é o nosso objetivo final – é a marca deixada pela nossa lógica e pensamento”.

No final deste mês, o Barra Slow Festival apresentará uma exposição especial dos livros concebidos por Florian. Ao expor as suas obras ao público de Macau, espera oferecer-lhes algo raro: tempo. “Os livros exigem paciência – convidam os leitores a entrar no seu mundo através da sequência, da textura e do detalhe, revelando-se lentamente”. Num lugar tão veloz e deslumbrante como Macau, Florian espera que os visitantes redescubram essa lentidão e apreciem o cuidado que os designers colocam em cada obra.

O “Barra Slow Festival”, que decorre de 28 a 30 de Novembro, pretende revitalizar a zona da Barra com a presença de cerca de 50 marcas de café do Japão, Macau e Grande Baía, a feira internacional de arte e design “Unfold” e várias iniciativas dedicadas a criadores locais. O evento decorre nos Estaleiros Navais, e inclui também uma mostra histórica sobre a área e combina entrada gratuita com bilhetes pagos para algumas atividades específicas.

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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