O afundamento de Chico Nelo, a espiral da desgraça compreende-se. Como qualquer prédio sem alicerces, desabou! A perda da mãe tornou-o ainda mais permeável aos maus caminhos. E não há ninguém que possa ousar atirar pedras quando se perde um filho. Nesta conversa, aqui mais corrida, traça-se uma espécie de cronologia. Os acontecimentos foram impiedosos. O FC Porto ainda retardou o peso dos problemas. “Se o Costa Soares foi um pai, o Rodolfo foi o meu padrinho. Mas há o presidente Pinto da Costa, o padrinho de todos. Ele e o Reinaldo [Teles] sempre me acarinharam muito, sempre quiseram ficar comigo, por isso estive tantos anos emprestado. Eram sensíveis aos meus problemas e nunca me abandonaram”, desabafa.
Pergunta-se pelos tormentos, absorvidos por vícios. “Beber nunca bebi enquanto jogava. Quem bebe álcool não pode dar jogador. O que consumia era haxixe, mas nunca passei pelas malhas do doping. Até recusei tomar algumas coisas. Só queria fumar os meus charrinhos e estava bem. E o meu charrinho passava por mais mãos”, junta, com humor, tentando aliviar os sentimentos, esbarrando num dia obscuro e fatal. “O charrinho tinha aquela forma de me relaxar. Era quase uma massagem. Ficava na boa, acalmava o rebelde. O álcool, se escolhesse esse caminho, seria a minha perdição. A jogar à bola não toquei noutras drogas. A morte do meu filho, com apenas um ano, é que me fez cair na cocaína. Perdi vários anos, porque não tinha os pais como referências”, admite Chico Nelo. Ainda descreve a fatalidade súbita e reflete. “Isso marcou-me a vida, felizmente as minhas filhas, muito pequenas, não se aperceberam do meu estado. Andava sempre fora de casa, tomava drogas e ainda era o correio das drogas para a prostituição. Entregava o produto às prostitutas, ou aos gays”, conta, revivendo a desordem que lhe ameaçou a vida. “Tinha consciência, sabia que tinha de ficar em casa, mas aparecia o vício e todos os dias voltava ao mesmo, era sempre mais forte a necessidade. Até que comecei a ter problemas, muitos vómitos, sentia-me mal, com falta de ar. A médica avisou-me que se continuasse a beber ia descambar numa cirrose. Decidi que tinha de sair, caso contrário morria!”, afirma, num shot de força de vontade. “Era o álcool que mais me estragava. Porque acordava e tinha logo de beber, favaios ou sangria ao litro”, recua, viajando por demónios vencidos.
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