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Cultura itinerante no feminino

A exposição de fotografia “Outros Portos - Outros Olhares”, com a curadoria de Clara Brito, de Macau, e Gu Zhenqing, de Pequim, reúne uma seleção de obras de cinco artistas femininas da China, Portugal e Macau. Explorando o tema da “identidade, resistência e transformação” a partir de múltiplas perspetivas — desde a representação da mulher através da tecnologia de IA até à construção da identidade sob as políticas de adoção da China – a curadora Clara Brito espera que a exposição – que terá paragens em Zhuhai, Shenzhen e Macau – sirva como plataforma para promover o diálogo e a compreensão entre a China e os Países de Língua Portuguesa

Carol Law

Ting Song, “Tao In One II”, 2023

Depois de ter recebido críticas muito positivas na sua estreia em Portugal, “Outros Portos – Outros Olhares” é agora apresentada pela primeira vez na China, iniciando uma digressão pela Grande Baía. A primeira paragem é no ‘The Moment Art Space’, em Zhuhai, seguindo-se Shenzhen no próximo mês; a digressão deverá terminar em Macau, em 2027.

Coorganizada pela Associação Cultural +853 e Tomorrow’s Heritage, com as curadoras Clara Brito (Macau) e Gu Zhenqing (Pequim), a exposição apresenta mais de vinte obras que exploram o papel da mulher na sociedade e na cultura, respondendo ao pensamento feminista contemporâneo através da lente da identidade e da transformação cultural.

A exposição reúne cinco artistas femininas de Macau, Portugal e da China continental: Mina Ao, Margarida Gouveia, Ting Song, Xing Danwen e O Zhang. Entre elas, Ting Song é uma pioneira da arte digital, combinando IA, ‘blockchain’ e estética tradicional para explorar a intersecção entre tecnologia digital e identidade feminina.

Clara Brito explica que a obra digital de Ting Song foi escolhida, em parte, para estimular a discussão sobre estereótipos contemporâneos da mulher.

Se quisermos questionar as visões fixas que temos atualmente, a internet desempenha um papel importante nisso — no sentido de quem alimenta os dados na internet? Quem são — culturalmente, em termos de classes, localização geográfica ou género — os que mais fazem o upload de dados para a IA? E se considerarmos que existe uma desigualdade de género, provavelmente os resultados dessas obras também a irão refletir. Essa foi essencialmente a razão pela qual estas obras foram selecionadas”, explica ao PLATAFORMA.

Mina Ao, Margarida Gouveia e Xing Danwen abordam formas de violência simbólica e material, oferecendo reflexões profundamente pessoais sobre autonomia e identidade; O Zhang documenta o legado das políticas de adoção na China, levantando questões sobre pertença, troca cultural e identidade feminina.

Clara Brito enfatiza que o objetivo da exposição não é provocar confronto entre géneros, mas aumentar a consciência. Refere que as mulheres enfrentam frequentemente salários mais baixos e maior violência — não apenas no mundo da arte, mas em muitos outros setores.

Falemos sobre isso em conjunto, porque penso que este é também um papel não só das mulheres, mas também dos homens — o de perceber como podemos adaptar-nos e construir um mundo mais equilibrado”.

Intercâmbio cultural

O Zhang, Daddy&I, 2006;Xing Danwen, I am a Woman,1994-1996;Mina Ao,”Right To Exist,Duckbill, steel” 2014;Margarida Gouveia, It Doesn’t Move (Da esquerda para a direita)

Como é que a mesma obra inspira conversas diferentes em países ou cidades distintas? Clara diz não ter expectativas fixas — quer apenas incentivar o debate e promover a compreensão.

Por exemplo, quando estou em Portugal ou em alguns Países de Língua Portuguesa, não existe tanto conhecimento — o que é natural — sobre a cultura chinesa e macaense, e acho isso bastante interessante”, observa. “Algumas das obras das artistas de Macau e da China foram recebidas com grande curiosidade, precisamente porque não são muito comuns”.

Clara Brito acrescenta que esta exposição itinerante não se limita a manter relações com parceiros de longa data, mas pretende alcançar novos públicos. Tendo vivido em Zhuhai nos últimos anos, espera que a arte possa aprofundar o intercâmbio cultural entre a China e os Países de Língua Portuguesa.

Sempre percebemos essa ligação entre Macau, a China continental e os Países de Língua Portuguesa. Sendo eu portuguesa, embora também cidadã de Macau, porque vivo nesta região há mais de 20 anos, acho que este é o nosso papel,” afirma ao PLATAFORMA.

Desde 2011, tem levado obras para cidades do continente como Zhuhai, Shenzhen, Xangai e Pequim. “Para nós, tem sido habitual não só apresentar o nosso trabalho ou o de outros artistas na China, mas também trazer artistas chineses contemporâneos para Macau e para os Países de Língua Portuguesa. Esse tem sido o nosso foco e o nosso trabalho, diria, nos últimos 10 a 15 anos”.

Outros Portos – Outros Olhares” será exibida em Shenzhen no final de novembro. Clara Brito nota que Zhuhai e Shenzhen têm atmosferas e públicos distintos, e observa que a Grande Baía mudou muito nos últimos anos, com trocas e colaborações cada vez mais frequentes: “As pessoas cruzam fronteiras com mais facilidade e estão mais ligadas à GBA [Grande Baía]”.

Sente-se ligada a Macau, mas, dado o seu pequeno tamanho, acredita ser essencial sair da zona de conforto e levar as criações locais a um público mais vasto.

Somos uma organização mista entre portugueses, chineses e macaenses. Para nós, é importante sermos uma espécie de embaixadores da cultura de Macau e desta relação entre Macau, a China e os Países de Língua Portuguesa”.

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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