Depois de, no ano passado, ter lançado “Passear pela Estética Arquitetónica de Macau”, André Lui colabora novamente este ano com a ‘Joint Publishing’ (Hong Kong) para publicar “A Passear pela Arquitetura das Ruas de Macau”. O livro apresenta 9 percursos, destacando perto de 70 edifícios, com mapas e inúmeras fotografias novas e antigas. Estes edifícios, situados na Península de Macau, incluem templos chineses e arquitetura vernacular chinesa (Tang Lou), igrejas e hotéis ocidentais, bem como casas comerciais sino-portuguesas, residências neo-mouriscas e até passagens pedonais modernas. Para além das suas características estéticas, a obra oferece ainda uma breve introdução ao contexto de desenvolvimento urbano por detrás da arquitetura.
Segundo o arquiteto, a ideia foi sair do enquadramento do desenvolvimento dos estilos arquitetónicos. “Porque, se não seguimos estilos, temos muito mais liberdade na seleção dos edifícios, o que permite mostrar melhor a diversidade da cultura arquitetónica de Macau”. Em comparação com os 33 edifícios do livro anterior, Lui admite ter sido um pouco “ambicioso” nesta publicação: “Não é comum ter oportunidade de publicar um livro em Hong Kong. Não sei quando surgirá a próxima oportunidade e há tanto conteúdo sobre o qual escrever”.
Muitos dos edifícios apresentados não são classificados como património imóvel e, por isso, são menos valorizados. Por exemplo, enquanto Hong Kong tem livros dedicados à sua arquitetura vernacular chinesa de primeira geração, construída do final da Dinastia Qing ao início da República, em Macau os edifícios equivalentes, ainda existentes em zonas antigas como a Rua de Cinco de Outubro, recebem pouca atenção. “Sinto que o modelo habitacional Tang Lou está intimamente ligado à vida e à comunidade chinesa no final da Dinastia Qing e início da República. Muitas vezes, estes edifícios são pouco valorizados e acabam demolidos”.
Um bairro pode ter já os seus próprios recursos culturais ou históricos; não é sempre necessário copiar práticas de outros lugares. Acredito que Macau tem uma profunda base histórica e cultural, à espera de ser desvendada e apresentada
Outra característica urbana pouco valorizada é a passagem pedonal. Embora o design destas estruturas seja frequentemente ignorado, teve grande importância na história do desenvolvimento arquitetónico de Macau: “Uma vez, estava a conversar com amigos de Hong Kong e perguntávamo-nos porque é que tais projetos surgiam naquela altura e depois se tornaram cada vez mais raros”.
Características “intagramáveis”
Sobre a tendência atual de comunidades que recorrem a cores chamativas para atrair turistas, o arquiteto considera que tal se deve ao facto de muitos não compreenderem as características da sua própria cidade e já se terem habituado ao que os rodeia, deixando de lhes dar importância. Embora os “spots instagramáveis” de muitas cidades se assemelhem entre si, a base histórica e cultural de um lugar é insubstituível. Para o arquiteto, residentes, comerciantes e turistas devem perceber que os edifícios antigos locais possuem um encanto único. “Um bairro pode ter já os seus próprios recursos culturais ou históricos; não é sempre necessário copiar práticas de outros lugares. Acredito que Macau tem uma profunda base histórica e cultural, à espera de ser desvendada e apresentada”.
Para Lui, o conceito de design dos percursos foi precisamente ligar as características locais em torno das atrações mais conhecidas, permitindo que os turistas, após visitarem os marcos emblemáticos, se aventurem pela comunidade e descubram a singularidade de Macau. O novo livro utiliza a atual tendência do ‘city strolling’, ou ‘city walk’, como ponto de partida. A popularidade desta prática resulta do facto de os turistas já não se contentarem apenas em visitar atrações famosas. André Lui não acredita que todos os edifícios devam tornar-se “locais virais para fotografias”: “Isso transformaria os edifícios antigos em mero consumo superficial, reduzindo-os a cenários de fundo”, afirma. Na sua opinião, embora a arquitetura possa ser um interesse de nicho, é fundamental para a cidade, e a exploração aprofundada da história e cultura comunitárias é benéfica para o desenvolvimento do turismo cultural e até para o comércio.
Além de Hong Kong e Macau, o novo livro será também lançado na China Continental e em Taiwan, tanto em livrarias físicas como online. Quanto ao próximo projeto, André Lui admite não ter planos, acrescentando que, por falta de espaço, muitos edifícios não foram incluídos desta vez. O arquiteto mostrou-se preocupado com o risco de demolição de construções ainda não classificadas e defendeu que a característica arquitetónica de fusão entre culturas chinesa e ocidental é precisamente o que pode fazer Macau destacar-se. “Estes edifícios já têm o seu valor cultural. Muitos precisam que a sua presença seja reforçada ou a sua promoção melhorada, para que as pessoas os conheçam e valorizem”.




