O espetáculo decorre no café BOOKAND e é inspirado nas experiências pessoais da produtora e atriz Suzuki Cheng após o parto, centrando-se na jornada emocional de uma mulher depois de se tornar mãe.
Embora a narrativa seja sobre parentalidade, procura explorar a ideia de que “tornamo-nos mães, mas primeiro temos de ser nós próprias”, em vez da visão de uma “mãe derrotada”, explica o encenador, Deric Gan. A peça conta com quatro personagens femininas principais, cada uma com diferentes dilemas, e o formato imersivo leva o público a escolher ativamente qual a história em que se quer focar. Paralelamente, vozes masculinas são intercaladas, permitindo ao público refletir sob outra perspetiva. “Não ditamos que deva escolher A ou B; isso fica para o público. A arte, basicamente, não dá respostas”, diz Deric Gan.
As personagens femininas têm idades entre os 20 e os 40 anos: Isa, jovem acarinhada desde a infância, deposita a sua ideia de amor num homem e aceita até ter um filho com ele; Dora, ex-executiva de sucesso, oscila entre a sua identidade própria e o papel de mãe; Belle abdica do seu “eu” para viver inteiramente para os filhos, marido e família; e Elle escolhe permanecer solteira. O dramaturgo Goaty Wong explica que pretende mostrar “estados de ser”: “Não há certo ou errado nas escolhas destas mulheres. O estado de uma pessoa não é constante. Cada decisão traz mudança, e estas transformações são todas apresentadas na peça”.
O estado de uma pessoa não é constante. Cada decisão traz mudança, e estas transformações são todas apresentadas na peça
Goaty Wong, dramaturgo
A produção inclui segmentos de música e efeitos sonoros, como batimentos cardíacos, líquido amniótico e o choro de bebés. O designer de som, Pun Kuan Pou, destaca que estes elementos retratam a solidão, a pressão, os fardos, a ligação aos filhos e as emoções complexas de uma mãe, sublinhando também a importância da liberdade. “O guião tem uma atmosfera pesada, carregada de ansiedade, mas também de persistência e luta pela vida”, explica. A música acompanha esse ambiente: por vezes calorosa, por vezes minimalista ou repetitiva. Deric Gan acrescenta que introduziu músicas “inadequadas” em certas cenas para criar conflito, “porque os estados de uma mãe são complexos”.
Aberto a todos
Quanto ao público-alvo, a equipa criativa tem diferentes visões. Suzuki Cheng confessa sentir a pressão que a sociedade exerce sobre as mulheres — cuidar da família e, ao mesmo tempo, alcançar sucesso profissional —, algo difícil de partilhar até com os mais próximos. “Contar ao companheiro pode afetar a relação, contar aos pais pode preocupá-los. Muitas vezes não há válvula de escape”. Assim, espera que o espetáculo permita às mães libertar emoções, mas também observar as reações de diferentes tipos de espectadores.
Contar ao companheiro pode afetar a relação, contar aos pais pode preocupá-los. Muitas vezes não há válvula de escape
Suzuki Cheng, atriz
Já Goaty Wong salienta que, desde sempre, muitas obras exaltam a figura da mãe, conduzindo à sua “santificação”, como se fosse obrigatório sacrificar-se pelos filhos e pela família. Hoje, frisa, a maternidade já não tem de ser definida apenas dessa forma. A mensagem da peça é que as mulheres podem ser felizes sem precisar de ceder. “Só quando escolhemos genuinamente o que pensamos e amamos, seja ter um filho ou tomar qualquer decisão importante, podemos avançar com coragem e consciência tranquila. E quando ainda não temos resposta, devemos aceitar a confusão sem pressa em agarrar qualquer coisa, sem confundir uma cobra venenosa com uma tábua de salvação”.
O guião tem uma atmosfera pesada, carregada de ansiedade, mas também de persistência e luta pela vida
Pun Kuan Pou, designer de som
A obra pretende inspirar todos os que perderam o sentido de si próprios, viram os seus sonhos desfeitos ou tomaram decisões fora da norma, explica Deric Gan. Já Pun Kuan Pou, que se tornou pai no ano passado, reforça que qualquer escolha deve ser respeitada: “Cada experiência é única e cada pensamento é diferente. Quanto mais respeito, empatia e compaixão houver na sociedade, mais fácil será valorizar a vida familiar ou, pelo menos, reduzir o receio dos fardos que ela acarreta”.
