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Streaming como ponte comercial

A Direcção dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico (DSEDT) organizou, pela primeira vez, no início de julho, uma delegação de representantes locais de comércio eletrónico transfronteiriço para visitar Portugal e França, resultando em cerca de 6.000 transações no valor de mais de 1.1 milhões de patacas. Para José Chan Rodrigues, director geral da Associação de Transmissão ao Vivo de Macau, Macau pode ser uma porta de entrada para pequenas marcas europeias no mercado do Interior da China, e há interesse na expansão para França, Espanha e outros mercados europeus, ajudando a promover a diversificação económica

Carol Law

Pode apresentar o objetivo e os resultados desta viagem a Portugal e França?

José Chan Rodrigues: A transmissão ao vivo foi organizada pela DSEDT e planeada pela Associação de Transmissão ao Vivo de Macau. Esperávamos apresentar produtos de Portugal e Macau aos consumidores do Interior da China através de ‘live streaming’ – transmissões ao vivo -, realizadas diretamente nos locais de origem dos produtos. Embora o volume de vendas possa não ser tão elevado como nos estúdios de transmissão tradicionais, esta abordagem é fundamental para novas marcas, pois constrói confiança no produto e na marca junto dos consumidores, e o aspeto visual é mais apelativo.

Para aprofundar o conhecimento do público sobre a cultura, características e gastronomia portuguesas, também gravámos muitos vídeos curtos, alguns dos quais já foram divulgados. Os produtos em destaque incluíram vinho português, produtos de saúde e óleos essenciais produzidos em Macau com matérias-primas de países de língua portuguesa. A nossa transmissão ao vivo durou mais de seis horas e alguns dos vinhos mais acessíveis esgotaram quase por completo. Isto demonstra que, com as ideias e estratégias certas, os produtos portugueses podem ter bons resultados nas transmissões ao vivo.

Além disso, o governo da RAEM já tinha visitado França para estabelecer contactos nas áreas da inovação tecnológica e comércio eletrónico transfronteiriço. A França tem muitos produtos de qualidade populares entre os públicos do Interior da China e de Macau, e as marcas locais têm um planeamento e estratégias de marketing muito maduras, o que se complementa com o desenvolvimento do comércio eletrónico em direto. Conseguimos estabelecer bons contactos em França e esse será um dos nossos mercados prioritários no futuro.

Que reações receberam por parte dos comerciantes? A delegação também reuniu com a Associação de Comerciantes e Industriais Luso-Chineses, a Câmara de Comércio e Indústria Luso-Chinesa e representantes de empresas locais. Qual é a sua perspetiva sobre a cooperação no comércio eletrónico ao vivo?

J.C.R: Estavam muito satisfeitos. Preparámos psicologicamente os comerciantes com antecedência, e todos perceberam que, embora as suas marcas sejam bem conhecidas e apreciadas em Portugal, no mundo do comércio eletrónico e na China talvez não sejam ainda reconhecidas. Por isso, sendo esta uma primeira experiência, a estratégia não foi centrada em vendas agressivas. Ainda assim, os resultados foram bastante encorajadores e todos concordaram que a abordagem e a estratégia foram eficazes.

Alguns comerciantes já vendem através de plataformas como eBay, Amazon ou Shopee, mas não tinham ainda experimentado transmissões ao vivo. Mostraram grande interesse em aprender e, ao presenciarem uma sessão ao vivo, compreenderam muito melhor o processo. Fizeram muitas perguntas sobre impostos, comissões das plataformas e custos dos apresentadores, e respondemos a todas. Uma ou duas empresas já manifestaram interesse em vender através de transmissões ao vivo.

Alguns empresários também expressaram interesse em convidar-nos a realizar transmissões ao vivo nos seus espaços ou a filmar vídeos promocionais curtos após as transmissões. Estamos muito satisfeitos com isso e, ao preparar novos conteúdos para a próxima visita a Portugal, estamos igualmente a considerar como otimizar ainda mais a nossa abordagem com base nesta experiência. Esperamos que isto possa facilitar uma cooperação comercial mais ampla entre a China e Portugal.

O governo da RAEM tem também promovido o conceito de “economia da primeira loja”, incentivando empresas de Portugal ou de outros países a escolherem Macau como a sua primeira base fora do país de origem, ou pelo menos na Ásia. Após a nossa apresentação, duas ou três empresas demonstraram interesse.

Também visitaram a ‘Choose Paris Region’. Que ganhos retiraram disso?

J.C.R: Colocaram-nos em contato com várias entidades locais, incluindo os armazéns Printemps e Galeries Lafayette. Reconheceram o nosso trabalho; o Printemps até tem o seu próprio estúdio de transmissão ao vivo. Perceberam também que, devido às diferenças culturais, há uma maior valorização do conteúdo cultural e das introduções contextuais, pelo que ainda estão a explorar formas de equilibrar ambos os aspetos. Quanto às Galeries Lafayette, a sua mais recente filial é em Macau, por isso vamos contactar essa filial local para ver se conseguimos organizar atividades presenciais em França também.

O marketing em direto na China Continental já está bastante desenvolvido. Que papel pode Macau desempenhar neste cenário?

J.C.R: Uma das vantagens de Macau no comércio eletrónico ao vivo é o facto de sermos uma região especial da China com o nosso próprio sistema financeiro, porto de comércio livre, isenção de tarifas e taxas fiscais mais baixas. Além disso, Macau mantém relações históricas com países de língua portuguesa e com a Europa, o que faz com que os europeus sintam afinidade com Macau.

Enquanto muitas grandes marcas europeias já têm agentes para entrar no mercado do Interior da China, Macau pode apoiar aquelas pequenas marcas europeias de alta qualidade que talvez não tenham escala nem conhecimento suficientes para entrar diretamente nesse mercado. Macau é um excelente ponto de entrada. A Geração Z e a Geração Alfa gostam de marcas personalizadas, que representem a sua identidade, e por isso vamos apostar também neste segmento.

A nossa transmissão ao vivo durou mais de seis horas e alguns dos vinhos mais acessíveis esgotaram quase por completo. Isto demonstra que, com as ideias e estratégias certas, os produtos portugueses podem ter bons resultados nas transmissões ao vivo

A Associação planeia explorar mais mercados no futuro? O Chefe do Executivo mencionou planos para visitar Espanha.

J.C.R: Sim, o nosso próximo passo será Espanha. Existem vários países na Europa – França, Espanha, Itália e Portugal – com muitos produtos de marca e uma capacidade de produção que corresponde às exigências do comércio eletrónico ao vivo. Além disso, muitos produtos de qualidade desses países já são bem conhecidos pelos mercados de Macau e do Interior da China.

De que forma pode o setor das transmissões ao vivo contribuir para a diversificação económica de Macau?

J.C.R: As transmissões ao vivo envolvem não só os apresentadores, mas também muitos profissionais nos bastidores, como assistentes de realização, filmagens, seleção de produtos e comunicação. O setor em Macau tem vindo a desenvolver-se há cerca de cinco ou seis anos – não é muito tempo – e está a evoluir rapidamente. Queremos encontrar formas de chegar às PME locais. Para além do comércio em direto e dos vídeos curtos, planeamos lançar minisséries até ao final do ano e estamos a estudar a criação de programas de entretenimento derivados do comércio eletrónico em direto.

Durante esta viagem a França, conhecemos o streamer chinês Li Jiaqi, que estava a participar no programa “Paris Partners” da Mango TV. Através de programas como este, conseguimos apresentar mais profundamente uma marca e introduzir muito mais conteúdo.

Uma das vantagens de Macau no comércio eletrónico ao vivo é o facto de sermos uma região especial da China com o nosso próprio sistema financeiro, porto de comércio livre, isenção de tarifas e taxas fiscais mais baixas. Além disso, Macau mantém relações históricas com países de língua portuguesa e com a Europa

O que é que Macau ainda precisa para desenvolver mais este setor?

J.C.R: A infraestrutura online de Macau está a melhorar, incluindo os serviços de comércio eletrónico transfronteiriço de balcão único. As velocidades de internet para transmissões ao vivo já são fiáveis e a sociedade tem hoje maior compreensão e aceitação do comércio eletrónico. O consumo e os hábitos de compra estão a migrar cada vez mais para o online, e vemos progresso constante nestas áreas todos os anos.

Para os mercados estrangeiros, o domínio de línguas é de facto importante – o inglês é a língua internacional, por isso é o primeiro passo. Em regiões onde se falam outras línguas, como francês, alemão, espanhol ou português, seria certamente vantajoso contar com talentos locais dispostos a trabalhar neste setor. Isso tornaria a comunicação mais natural e permitiria lidar com diferentes situações de forma eficaz.

Na minha opinião, olhando para o futuro, quando atingirmos uma certa escala, o governo de Macau poderia considerar criar mais delegações em diferentes regiões. Quando estivemos em Portugal, a Delegação Económica e Comercial de Macau em Lisboa foi uma ajuda enorme – não só eliminou o impacto do fuso horário, como também conhece bem ambas as realidades, tornando o processo muito mais fluido. Isto poderia também criar oportunidades de emprego para os jovens.

Se houver mais delegações deste género a nível global, não será apenas o comércio eletrónico ao vivo a beneficiar. Também se criará uma rede de apoio e um ponto de consulta para as empresas de Macau que operam no comércio internacional. Acredito que seria algo muito positivo – tornaria os nossos esforços mais abrangentes e com maior alcance, potenciando a economia e a influência global de Macau, com o comércio eletrónico ao vivo como ponto de partida.

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