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“A FR vai trazer muita competitividade”

Isaías do Rosário, de 60 anos, chegou a Macau com apenas dois anos. Vivia ao lado do Circuito da Guia e de onde vários pilotos ficavam alojados. “Ganhei aí o gosto”, diz, guardando “recordações felizes” das suas participações como piloto. Já abandonou a pista, mas mantém-se muito próximo como comentador. Tendo testemunhado a história da prova ao longo dos anos, salienta que “as corridas ganharam qualidade” e que a Fórmula Regional vai tornar o Grande Prémio “mais competitivo”

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– Como surgiu o teu interesse pelo automobilismo?

Isaías do Rosário – Quando era novo, ouvia o roncar dos carros de corrida. Vivia junto à Estrada de São Francisco, parte do Circuito da Guia. Alguns pilotos asiáticos ficavam ali alojados, incluindo alguns japoneses da Yamaha. Naquela zona, havia uma série de pensões e residenciais onde os pilotos ficavam e faziam a preparação e a revisão mecânica. Ganhei aí o gosto pela engenharia mecânica e pelo desporto motorizado.

– Recordas esses tempos com carinho.

I.R. – Sim. Tenho recordações felizes das participações como piloto. Também fui fotógrafo durante oito anos para a Foto Artes, uma loja de fotografia. Antes havia mais provas, mas a internacionalização do Grande Prémio levou ao corte de algumas, o que é compreensível, considerando as obrigações de cumprimento de horários, por causa das transmissões televisivas.

Subitamente, surgiu uma oportunidade de correr, porque uma equipa tinha um carro à venda, depois de arranjarem um carro melhor no Japão.

– É uma das diferenças mais substanciais entre o atual formato e o anterior?

I.R. – Sim, mas as corridas ganharam qualidade. Temos a Taça do Mundo de GT3, o campeonato do mundo de carros de turismo na Corrida da Guia, e as corridas de fórmulas. Uma das recordações mais gratas que tenho é da minha primeira participação.

Subitamente, surgiu uma oportunidade de correr, porque uma equipa tinha um carro à venda, depois de arranjarem um carro melhor no Japão. O preço era bom e eu queria participar. Não me importei se o carro era bom ou mau e comprei-o, com algum apoio.

Como foi tudo à última da hora, não testei o carro e nunca tinha conduzido um carro de competição com pneus ‘slick’. O carro foi preparado por amigos mecânicos. Vinha preparado para competição, mas ainda precisava de afinações. O motor e a caixa de velocidades eram de série, mas a suspensão e pneus eram de competição.

Senti-me calmo quando conduzi o carro pela primeira vez, mas bati ao fim de quatro voltas, porque houve um acidente à minha frente e eu não consegui evitar o embate. Mesmo assim, consegui obter o 11.º lugar entre 36 pilotos inscritos. Em menos de 12 horas, o carro foi reparado e consegui participar na corrida de sábado.

Outra boa recordação foi a minha última participação. O carro só atingia 7.500 rotações, em vez de nove mil rotações. Nos treinos, ainda consegui a 19.ª posição entre 36 carros. Na corrida, alguns pilotos ficaram pelo caminho. Eu preferia um carro mais fiável, mesmo mais lento, mas com garantia de aguentar a corrida toda.

Na terceira volta, estava em sexto, tendo partido da 19.ª posição. Infelizmente, fiquei sem gasolina, devido a uns problemas de abastecimento nas boxes. Acabei por terminar em 12.º lugar.

Para os admiradores locais, a presença de Tiago Rodrigues é um incentivo adicional, porque ele é aguerrido e rápido.

– Este ano estreia-se a Fórmula Regional. Que impacto prevês?

I.R. – A reação inicial à chegada da Fórmula Regional (FR) foi mista, muito pelo apego de décadas à Fórmula 3. A Fórmula 3 chegou em 1983 a Macau, com a vitória de Ayrton Senna, que muitos consideram como o melhor de sempre. Creio que a FR vai trazer muita competitividade ao Grande Prémio de Macau. Poucos países mantêm F3. No Reino Unido, nem se chama F3, mas GB3 (Great Britain 3).

Digamos que a F3 está um pouco em decadência, enquanto a FR deverá tornar o Grande Prémio de Macau mais competitivo. Os carros são idênticos entre si e muito semelhantes aos anteriores F3, com algumas alterações a nível da aerodinâmica, que são mais avançadas. A FR tem um campeonato sul-americano, italiano, francês, no Médio Oriente, no Japão e na Austrália.

Este ano, a Taça do Mundo em Macau ainda não terá o impacto e a dimensão que, creio, atingirá nas próximas edições, porque alguns pilotos não tiveram tempo de preparar a sua participação em Macau, mas isso será corrigido nos anos seguintes. Para os admiradores locais, a presença de Tiago Rodrigues é um incentivo adicional, porque ele é aguerrido e rápido.

Só precisa de ter calma, mas não demasiada, para ir buscar tempos rápidos mais cedo do que em 2023. Este ano, conhecendo melhor o circuito, creio que estará melhor e é um dos pilotos a ter em conta, a par do americano Hugo Chuco. Teremos equipas com experiência na F3 em Macau, como a SJM  Theodore PREMA Racing, a MP Motorsport, a ART Grand Prix e a japonesa Tom´s.

– De piloto passaste a comentador e continuas muito próximo do Grande Prémio de Macau.

I.R. – Comento há quase 30 anos e isso mantém-me próximo do evento. Quando fui convidado, em 1985, estava a ser criado o Automóvel Clube Macau e fui um fundador. Na altura, ganhava 3.600 patacas e entreguei 500 patacas para a fundação do clube. Desde então, a minha paixão pelo Grande Prémio de Macau mantém-se e faço o possível para me manter próximo.

O PLATAFORMA preparou uma reportagem especial sobre o 71º Grande Prémio de Macau. Clique aqui para explorar as histórias.

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