Início Opinião Do regresso de Confúcio ao leninismo confucionista (II)

Do regresso de Confúcio ao leninismo confucionista (II)

Com a política de liberalização e abertura económica iniciada por Deng, convolou-se o capitalismo de Estado num sistema misto, com um setor privado cada ano mais pujante

Jorge Oliveira, Consultor financeiro e business developer

A opção por um rumo singular na vertente económica – que funcionou bem – e a contestação em Tiananmen em 1989 reforçaram a necessidade de uma legitimação política inquestionável do partido. A opção foi por uma forte base nacionalista e estribada numa inquestionável “sinicidade”.

O confucionismo moldou profundamente a herança cultural e as normas sociais da China durante séculos. Ao promover o ressurgimento do confucionismo, o PCC procura restabelecer a ligação com esta identidade cultural, reforçar o orgulho nacional e fazer a colagem do PCC aos valores tradicionais da China e às suas raízes históricas.

Além disso, os ensinamentos confucionistas colocam ênfase na harmonia social, no comportamento ético e na ordem hierárquica, valores conducentes à manutenção da estabilidade social, especialmente num contexto de rápida modernização e mudanças sociais.

Ao promover o confucionismo, o PCC reforça a coesão social e alivia potenciais conflitos decorrentes de rápidas transformações sociais.

A promoção pelo confucionismo de virtudes pessoais como integridade, piedade filial e respeito pelas autoridades oferece um quadro moral e ético que está alinhado com o discurso do PCC de incutir um comportamento ético entre os cidadãos, como contributo para uma sociedade mais harmoniosa e uma cidadania responsável.

Por fim, que não de menor importância, ao apoiar o confucionismo, o PCC também aumenta a sua legitimação política, apresentando-se como guardião e intérprete dos valores tradicionais chineses, procurando alinhá-los com os seus objetivos políticos.

E a ideia confucionista de uma autoridade centralizada e o respeito pelos líderes políticos serve os interesses do PCC na governação. Por muita retórica que o PCC expenda sobre a sua devoção ao marxismo-leninismo, as lideranças chinesas perceberam há muito que a “construção de um Estado socialista de economia planificada a caminho do comunismo” provavelmente levaria à repetição do que sucedeu na defunta União Soviética.

Não é, pois, de estranhar que na década de 1990, a elite tenha começado a falar calorosamente de Confúcio e tenha ocorrido, sob o patrocínio do Estado, um fervilhar de investigação e conferências em torno dos seus ensinamentos. Aqui e além, apareceram expressões como “sociedade socialista harmoniosa”, “harmonia apesar dos diferentes pontos de vista”, ou “pessoas como base do Estado”, fortemente ligadas às doutrinas confucionistas clássicas.

Em 2004 é criado o “Instituto Confúcio“, que tem uma rápida expansão internacional, numa das primeiras manifestações de projeção externa da China e aumento do seu soft power. A tendência acentuou-se com a utilização de conceitos confucionistas por dirigentes do PCC; em 2005, Hu Jintao apresentou o ideal da “sociedade harmoniosa” para a China, reiterando que “a cultura é o sangue vital da nação” e apelando à promoção da cultura “tradicional” chinesa e fazendo referências ao “grande renascimento da nação chinesa”.

Vários dirigentes chineses participaram em múltiplas cerimónias e conferências sobre Confúcio e os seus ensinamentos. E a fusão do confucionismo com o marxismo-leninismo parecia ir decorrer de forma incondicional. Sob a liderança de Xi Jinping, o PCC altera essa fusão.

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