TOTAL só regressa com condições de segurança e contrato revisto - Plataforma Media

TOTAL só regressa com condições de segurança e contrato revisto

O Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, descartou a possibilidade de a petrolífera Total abandonar a exploração de gás natural em Cabo Delgado, avançando que a companhia tem pressionado o Governo para criar condições de segurança para o reinício das atividades. É verdade que a multinacional francesa ainda não decidiu abandonar Moçambique, mas exige que sejam cumpridos determinados pressupostos

Um deles, até o mais importante, passa mesmo pela garantia de segurança, face ao clima terrorista em Cabo Delgado, mas não só. A Total está a pensar rever o contrato, no valor de 23 mil milhões de euros, tendo em conta o panorama económico mundial.

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Aliás, este tema está já a ser discutido entre a multinacional e o Governo de Filipe Nyusi, daí que o líder moçambicano tenha a sua fé na continuidade da empresa gaulesa, dadas as conversas existentes. Ainda não há números definitivos sobre o novo contrato, mas é praticamente uma certeza que os meses terão forçosamente de ser renegociados e para baixo.

“Claramente, estamos hoje num mundo diferente de 2018 e 2019. Quando houver um reinício das operações em Moçambique, estas têm de ser (realizadas sob) termos e condições diferentes, porque o que foi acordado no início do projeto já não é claramente sustentável. O reinício total do projeto será definitivamente numa base (contratual) diferente, negociada com o cliente”, referiu o chefe de operações Alessandro Puliti, confirmando também que dificilmente o regresso da Total a Moçambique aconteça no presente ano.

Alessandro Puliti, chefe de operações da Total Energies

NADA ATÉ AO FIM DO ANO

“O projeto ainda está suspenso e não esperamos qualquer reinício das operações em 2022”, concluiu Puliti, um dos que tomou a decisão do fim dos trabalhos em dezembro do ano passado, devido à instabilidade no norte de Moçambique.

Também o presidente-executivo da TotalEnergies, Patrick Pouyanné, revelou que não está definido o regresso da empresa a Moçambique, destacando, isso sim, que pretende viajar até ao local para ver as questões de segurança em Cabo Delgado.

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“Quero ir a Palma, Mocímboa da Praia e Mueda: quando vir que a vida está de volta ao normal, com serviços do Estado e população, aí o projeto pode recomeçar”, salientou.

Independentemente do reinício dos trabalhos em Cabo Delgado, Filipe Nyusi está confiante na continuidade do projeto.

“Nós nunca chegamos a pensar que a Total pode não voltar e da conversa que tenho tido com o presidente da empresa [Patrick Pouyanné] nunca se levantou essa possibilidade”, declarou durante a Reunião de Negócios da Agenda Africana da Comunidade dos Presidentes dos Conselhos de Administração e Diretores Executivos, realizado hoje em Maputo.

PRESSÃO SOB NYUSI

Segundo o chefe de Estado moçambicano, a petrolífera francesa tem estado a pressionar o Governo para que crie condições para o reinício das atividades da empresa, que tem estado, através de projetos comunitários, a apoiar os esforços das autoridades para que o problema da insurgência na região seja resolvido.

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“A Total é que pressiona o Governo para que o Estado faça a sua parte, que é de devolver a tranquilidade e a segurança. A própria empresa tem estado a dar a sua contribuição para que a situação se estabilize, apoiando a juventude”, frisou o chefe de Estado moçambicano.

“O GÁS ESTÁ LÁ”

Embora descarte a possibilidade de a Total abandonar o projeto, Filipe Nyusi lembra que o gás não vai desaparecer no caso de a multinacional francesa decidir suspender em definitivo a operação. “Nós não colocamos a hipótese de a Total não voltar, mas bem, caso isso aconteça, o gás está lá […] há quem pode explorar também. Não é um produto que desaparece. Mas nós não pensamos na negativa”, frisou Filipe Nyusi, acrescentando que, com apoio de forças estrangeiras, a situação do distrito de Palma é estável e o empresariado já pode regressar.

A TotalEnergies, cujo consórcio vai in- vestir mais de 20 mil milhões de dólares na exploração de gás natural no norte de Moçambique, suspendeu o desenvolvimento do projeto na região, devido a um ataque rebelde em 2021, perto das infraestruturas do empreendimento, no distrito de Palma, província de Cabo Delgado.

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Também o ministro dos Recursos Minerais e Energia, Carlos Zacarias, prometeu que até ao final deste ano estarão criadas todas as condições para a retoma do projeto de gás natural da Total.

Palma foi alvo de um dos mais mediáticos ataques protagonizados pelos rebeldes que aterrorizam a província de Cabo Delgado desde 2017, quando em 24 de março de 2021 os insurgentes invadiram a sede daquele distrito, tendo provocado dezenas de mortos e feridos, bem como a fuga de milhares de pessoas.

A província de Cabo Delgado é rica em gás natural, mas aterrorizada desde 2017 por rebeldes armados, sendo alguns ataques reclamados pelo grupo extremista Estado Islâmico.

Há cerca de 800 mil deslocados internos devido ao conflito, de acordo com a Organização Internacional das Migrações (OIM), e cerca de 4.000 mortes, segundo o projeto de registo de conflitos ACLED.

Desde julho de 2021, uma ofensiva das tropas governamentais com o apoio do Ruanda a que se juntou depois a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) permitiu recuperar zonas onde havia presença de rebeldes, mas a fuga destes tem provocado novos ataques noutros distritos usados como passagem ou refúgio.

PROJETO ‘COMEÇOU’ EM 2010

O Projecto Mozambique LNG iniciou com a descoberta de uma vasta quantidade de gás natural na costa norte de Moçambique em 2010, mas só em 2019 houve uma decisão sobre o seu avanço.

Os planos da empresa passam por garantir “aproximadamente 65 trilhões de pés cúbicos de gás natural recuperável” e incluem ainda “um projecto de duas unidades de liquefação com capacidade de expansão para até 43 milhões de toneladas por ano”.

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Com este investimento haverão uma série de benefícios sociais e económicos a Moçambique, nomeadamente “desenvolver forças de trabalho de construção e operação competentes; desenvolver especialistas na área que apoiam esses sectores; e gerar receita que contribuirá para o desenvolvimento socioeconómico do país”.

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