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“Português como língua de Timor foi consensual”

Ramos-Horta celebrou ontem os 72 anos, o homem que recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1996, junto com o bispo Ximenes Belo, dando assim uma visibilidade global à luta do povo de Timor-Leste, antiga colónia portuguesa ocupada pela Indonésia. 

Começo por perguntar sobre a língua portuguesa. Tem futuro aqui em Timor?

Sem dúvida. Vemos pelos dados estatísticos. Em 1975, o último ano da colonização portuguesa, aqui eram menos de 10% que falavam português. E 10% é um número otimista. Depois veio a ocupação indonésia, de 24 anos, e quando chegámos ao primeiro ano da independência, em 2002, não havia estatísticas, naquela altura, sobre quantos falariam português, mas na minha estimativa não podiam ser mais do que 1%. Hoje, a estatística oficial aponta para cima de 40%. Claro, obviamente, quando se diz falar português não é pessoas que falam bem e falam no dia-a-dia. Mas que entendem, que podem falar, embora muito tímidas, envergonhadas por falarem mal.

Mas à geração de dirigentes históricos – como é o seu caso, e também Xanana Gusmão, Mari Alkatiri ou Taur Matan Ruak – todos nós nos habituámos a ouvi-la falar um português perfeito. É por causa da vossa educação, que tiveram no tempo colonial, mas que era uma exceção?

Uma exceção. Fazemos parte daquela percentagem de 10% que eu mencionei, e essa pequena percentagem que falava português, grande parte agradecia-se à Igreja.

A Igreja Católica em Timor é que fazia a alfabetização em português?

A Igreja tinha a maior parte das escolas de ensino elementar em Timor. Aí em meados dos anos 1960 começaram a surgir mais escolas, mas antes dessa época havia apenas a missão católica em Soibada onde eu fui educado. Toda a minha instrução primária foi feita lá.

“Agora o tétum é falado por 90% da população. O tétum evoluiu, até de uma forma desorganizada, improvisada. O tétum foi pedir emprestado, absorveu, milhares de vocábulos portugueses.”

Em português?

Em português. Era obrigatório. E eu não dizia uma palavra aos 6, 7 anos de idade quando para lá fui. A nossa mãe era timorense e em casa só falava tétum, embora falasse português.

Tétum é a sua língua materna?

Materna era tétum.

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