Macau está “consideravelmente atrás” no desporto para deficientes - Plataforma Media

Macau está “consideravelmente atrás” no desporto para deficientes

Falta de financiamento, de instalações desportivas e de treinadores profissionais. Os paratletas do território deparam-se com um apoio “muito limitado” das autoridades, refere Lao In I, esgrimista e diretora executiva do Comité Paralímpico de Macau, que se encontra em quarentena após os Jogos Nacionais para Deficientes, realizados em Xi’an. Em entrevista ao PLATAFORMA, a desportista salienta ainda a necessidade de investir localmente na acessibilidade e na capacitação profissional dos deficientes. 

– Houve um intervalo de dois anos nos Jogos Nacionais para Deficientes devido à pandemia. Que impacto é que a Covid-19 teve no desporto local? 

Lao In I – A pandemia teve um grande impacto na economia, acabando por causar o encerramento dos espaços desportivos e a suspensão dos nossos treinos. Muitos eventos desportivos também foram cancelados. Já passou mesmo muito tempo desde que participámos em competições. 

– Com os últimos casos no território, Macau chegou mais tarde aos Jogos e não conseguiu competir em esgrima. Ficou um sabor amargo? 

L.I.I. – Entre 25 de setembro e 5 de outubro, houve alguns casos de Covid-19 em Macau, que acabaram por influenciar os nossos planos de viagem. Fiquei muito desiludida por ter de abdicar da competição. Já não via os atletas da equipa nacional chinesa há bastante tempo e eles tiveram resultados extraordinários nos Jogos Paralímpicos de Tóquio. Ansiava encontrá-los em competição, somos bons amigos e rivais. 

Lao In I, esgrimista e diretora executiva do Comité Paralímpico de Macau.

– Aliás, a pandemia também foi a razão pela qual Macau não esteve este ano – pela primeira vez desde Seul, em 1988 – nos Paralímpicos. 

L.I.I. – Este ano, Macau tinha apenas um atleta paralímpico que obteve um “wild card” para os Paralímpicos de Tóquio. Em conjunto com a família, decidiram não participar, depois de consideradas as questões de segurança. Nós [Comité Paralímpico de Macau]  respeitamos a decisão e acreditamos que qualquer atleta gostaria de estar presente em competições de alto nível. Foi uma pena que não tivessem outra opção por causa da pandemia. Além disso, foi difícil alcançar um lugar nos Paralímpicos, porque são necessários excelentes resultados no ranking mundial ou em competições. 

– Macau teve nove medalhas. Como olha para este número? 

L.I.I. – O desporto para portadores de deficiências tem diferentes categorias, dependendo da condição dos atletas. No caso da esgrima em cadeira de rodas, existem as classes A e B. Existem desportos com imensas categorias, como o ténis de mesa que tem 13: as categorias de 1 a 5 são para pessoas em cadeiras de roda; entre as classes 6 e 10 competem pessoas com deficiências físicas nos membros, categoria 11 é para deficientes intelectuais, a 12 para quem tem deficiência visual e a categoria 13 para surdos. Como há várias categorias, a oportunidade de ganhar uma medalha é relativamente elevada, embora estes atletas façam ainda um esforço adicional nos treinos. Por outro lado, gostaria que o público prestasse mais atenção àqueles que não ganharam medalhas. Um total de 21 atletas participou nos Jogos. 

– Jogos, aliás, com menos cobertura noticiosa que os Jogos Nacionais. Acontece o mesmo com os Jogos Olímpicos e os Paralímpicos. Sente isso em Macau? 

L.I.I. – Sim, penso que aqui se passa o mesmo. A vida ou as atividades desportivas que envolvem portadores de deficiência são geralmente esquecidas. 

Lao In I, esgrimista e diretora executiva do Comité Paralímpico de Macau.

– Como contrariar isso? 

L.I.I. – O Governo, as associações de desporto para deficientes e os meios de comunicação social podiam trabalhar mais para promover este desporto entre o público. 

– No plano quinquenal para Macau, em consulta até 13 de novembro, o Governo promete “continuar a promover a formação de atletas” e “otimizar o projeto de apoio financeiro para formação de atletas de elite”. É preciso fazer mais? 

L.I.I. – Os recursos para o desenvolvimento do desporto para deficientes focam-se sobretudo nos atletas de elite, mas os atletas precisam de grandes conquistas para alcançaram esse estatuto. O apoio para a evolução deste desporto é muito limitado. O progresso do nosso Governo no desenvolvimento do desporto para paratletas está consideravelmente atrás das regiões vizinhas. Por exemplo, os organismos desportivos da China e de Hong Kong providenciam alojamento, instalações desportivas e treinadores profissionais a tempo inteiro. Os nossos treinadores trabalham a tempo parcial. 

– Quais são neste momento as maiores limitações? 

L.I.I. – Falta de financiamento, de acesso a instalações desportivas e de treino, de treinadores profissionais, de assistentes e de jovens paratletas. 

Lao In I, esgrimista e diretora executiva do Comité Paralímpico de Macau.

– Como se alcança a profissionalização? 

L.I.I. – Precisaríamos de um ambiente de treino profissional e de uma equipa. 

– A sua carreira podia ser diferente noutro sítio? 

L.I.I. – Sim, se estivesse no continente chinês, poderia focar-me inteiramente no desporto, ou também na Europa, onde existem equipas profissionais para o treino em esgrima. 

– É diretora executiva do Comité Paralímpico de Macau. Que adversidades enfrenta a associação? 

L.I.I. – Temos falta de pessoal. Eu sou a única pessoa que faz trabalho administrativo e temos um assistente social e um voluntário para tratar das finanças. Quando tenho de me preparar ou competir, sinto-me sobrecarregada. 

– No seu caso, participou nos Paralímpicos de Londres e alcançou o 9º lugar. Não se qualificou para o Rio de Janeiro. O que é que aconteceu? 

L.I.I. – Entre 2014-2016, antes dos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro, mantive-me entre o top 10 do mundo. Em junho de 2015, estive a treinar profissionalmente e a tempo inteiro em Nanjing. Infelizmente, num dia chuvoso, desequilibrei-me, caí e fiz uma fratura cominutiva [fratura do osso em mais de dois fragmentos] do pulso esquerdo. Precisei de cirurgia, levei muito tempo a recuperar e, por isso, não consegui participar. 

Comitiva de Macau nos Paralímpicos de Londres.

– Começou a praticar esgrima ainda jovem. Como é que isso aconteceu? 

L.I.I. – Comecei a praticar no ensino básico, com 13 anos, e depois juntei-me à equipa de esgrima de Macau. Em 2006, quando frequentava o ensino superior, apareceu-me um tumor na perna esquerda, tive de me submeter a uma série de cirurgias e fiquei com esta deficiência. Então, em 2011, comecei a fazer esgrima em cadeira de rodas. 

– Como foi a transição?  

L.I.I. – Hong Kong tinha prestígio na esgrima em cadeira de rodas e, por isso, fui para aí aprender. Depois, com o apoio do Instituto do Desporto e do Comité Paralímpico de Macau, fui treinar em Xangai. 

Treino de esgrima em Nanjing, perto de Xangai.

– Falando sobre a condição dos deficientes em Macau e ainda sobre o Plano Quinquenal, o Governo prometeu maior apoio no sentido de “aumentar as oportunidades de emprego”. A integração de deficientes no mundo do trabalho é uma realidade? 

L.I.I. – Nos últimos anos, o Governo criou diferentes políticas para apoiar os deficientes na carreira profissional, mas ainda há falta de acessos e de capacitação profissional para portadores de deficiências. A geração mais nova tende a ter um nível de educação mais avançado. Caso os empregadores estejam dispostos a abrir portas, acredito que estas pessoas possam maximizar as suas vantagens. 

– O que pode ajudar Macau a tornar-se uma cidade sem barreiras? 

L.I.I. – As pessoas de Macau são amistosas, mas há muito espaço para melhorias no que diz respeito à acessibilidade, nos edifícios e transportes. Para os deficientes, ainda é difícil andar de autocarro e existem poucos lugares de estacionamento, além de que são necessários mais acessos para deficientes visuais e pessoas surdas. Já ao nível do emprego, acredito que o Governo pode oferecer isenção de impostos ou ajudar a incentivar os empregadores a contratarem portadores de deficiência. 

– Como está a correr a quarentena. O grupo que participou nos Jogos está a receber o apoio necessário? 

L.I.I. – Estamos a fazer esta entrevista no meu segundo dia e está a correr bem, temos a ajuda do Instituto de Desporto e de outros departamentos do Governo. Atletas com deficiências intelectuais podem partilhar quarto e cuidar uns dos outros. O hotel também disponibilizou quartos sem barreiras para os portadores de deficiências nos membros. 

– Fala português. O que é que a levou a aprender a língua? 

L.I.I. – Interessei-me pelo português porque é uma das línguas oficiais em Macau, mas tenho de confessar que é um desafio. Após concluir os meus estudos universitários, trabalhei como tradutora numa firma de advogados. Depois de deixar esse trabalho, comecei a usar ocasionalmente o português, porque o chinês é mais comum e o inglês é mais utilizado em ambiente profissional. 

– Segue a esgrima portuguesa ou o desporto em Portugal? 

L.I.I. – Portugal não tem esgrimistas em cadeira de rodas na equipa paralímpica e só conheço o Pedro (Arede) que é um esgrimista português que trabalha em Macau. A equipa paralímpica portuguesa de boccia também é muito conhecida. E, claro, não nos podemos esquecer da seleção portuguesa de futebol, que é uma das favoritas das pessoas de Macau. 

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