Eleições legislativas em Macau: Votar ou não? - Plataforma Media

Eleições legislativas em Macau: Votar ou não?

Ceticismo e desqualificações de deputados marcam campanha para as legislativas.

Pin Ho já sabe em quem votar. Snowie Leong não pensa voltar às urnas. Carson Leong admite que “é possível”. Arrancou o período oficial de campanha para as eleições legislativas de Macau, com a pandemia a condicionar as atividades e a exclusão de três listas a ditar uma corrida sem a ala democrata. Reportagem do PLATAFORMA junto dos eleitores. 

“Talvez vote”. “É possível”. “Não é que a minha escolha vá mudar alguma coisa”. Carson Leong observa o que vem aí com indiferença. As legislativas estão à porta, mas não é isso que o desassossega. Formado em contabilidade no Reino Unido, o jovem de 27 anos trabalha agora como agente imobiliário em Macau. “É uma sociedade pequena, não podes escolher o que queres [fazer]”, desabafa, num fim da tarde de domingo, enquanto distribui panfletos. “Quer comprar casa?”, atira a quem passa na Rua de Seng Tou, na Taipa. 

Macau vive mais um dia de campanha eleitoral. Do fim da rua, a dois quarteirões de distância, na lateral do jardim da Cidade das Flores, chega o som estridente de alguém ao microfone em mais um comício da lista 11, a União para o Desenvolvimento. Ella Lei, que procura com Leong Sun Iok a reeleição a 12 de setembro, volta a ser cabeça de lista deste grupo pró-Pequim, com apoio tradicional da Associação dos Operários, e que foi, há quatro anos, a segunda lista mais votada. Simpatizantes carregam balões em forma de coração. Alguém mede a temperatura a quem entra no recinto. 

A União para o Desenvolvimento (lista 11) em campanha eleitoral, na lateral do jardim da Cidade das Flores.

Está a acompanhar a campanha? “Nem por isso”, responde Carson. “Trata-se mais da seleção de um grupo fechado do que propriamente de uma discussão aberta”, argumenta, referindo-se ao sistema de eleição dos representantes para a Assembleia Legislativa (AL): 14 deputados são eleitos por sufrágio direto, 12 por via indireta, escolhidos por associações que representam setores profissionais, e sete deputados são nomeados pelo Chefe do Executivo. 

Que problemas gostaria de ver resolvidos em Macau? Algumas decisões tomadas pelo governo são “um constrangimento à economia”, considera o agente imobiliário, dando o exemplo das novas regras definidas para os estabelecimentos de take away. A partir de novembro, estes passam a ser obrigados a registarem-se junto das autoridades, não podendo, por exemplo, operar dentro de habitações. 

Quanto à área em que trabalha, Carson defende que o preço da habitação “é acessível”. No entanto, alerta para o facto de Macau estar “a seguir os passos de Hong Kong”: “As casas no mercado são cada vez mais pequenas”.  

“Casa é um aspeto básico à vida. Como é que parte da população não tem acesso? 

A habitação – e a criação de habitação pública – está entre os temas mais presentes na discussão parlamentar em Macau e é também uma das prioridades nas agendas dos candidatos a deputados.  

Na vizinhança do Parque Central da Taipa, num dos painéis reservados à propaganda eleitoral, o cartaz de José Pereira Coutinho, único português a encabeçar uma lista nestas eleições, promete (apenas em chinês) lutar por “uma habitação pública para cada residente”. Não é o único. No portal da Comissão de Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa (CAEAL), onde se encontram os programas políticos detalhados – aqui duas das 14 listas têm informação em português, incluindo a de Pereira Coutinho – a habitação é promessa recorrente. A Plataforma para os Jovens, da estreante Latonya Leong Wai Meng, compromete-se a “exigir ao governo a construção de habitação para os mais jovens”. Já a lista 7, da Força do Diálogo, do funcionário dos serviços sociais Choi Man Cheng, garante que vai “promover a implementação da política de habitação para a classe sanduíche [grupo que não consegue comprar casa nem se qualifica para habitação publica]”. 

Habitação económica em Macau.

Para Snowie Leong, funcionária do salão de massagens HARnatural, também na rua de Seng Tou, este é “um assunto crítico”. Snowie tem 40 anos e partilha casa com amigos. “Ter casa é um aspeto básico à vida. Como é que parte da população não tem acesso a ela? E como é o governo não interfere?”, refere, lamentando os preços “muitíssimo altos” da habitação e defendendo a construção de mais frações públicas em Macau. 

A rececionista aponta ainda para o desinvestimento por parte do executivo nas áreas da saúde e da educação, referindo que, apesar “dos elevados impostos” que o governo vai buscar ao setor do jogo, “não é dada a devida atenção a estes dois problemas”. 

Formada em tradução inglês-chinês pelo Instituto Politécnico de Macau, Snowie engrossou as fileiras dos abstencionistas políticos nas últimas legislativas, em 2017: 43% dos eleitores recenseados não foram às urnas. “Estou desiludida”, afirma esta natural de Macau, recordando que, da última vez que votou, “há cerca de 15 anos”, escolheu o democrata Ng Kuok Cheong, deputado veterano desqualificado pela CAEAL nestas eleições. Snowie diz não tem intenções de voltar a preencher um boletim de voto. 

Nota interesse da população pela política em Macau? “Há quem se interesse e, por outro lado, há quem acredite que é apenas teatro. Existem empresários lá dentro que não vão mudar nada, mas que têm dinheiro e poder, como é o caso da dirigente de um casino”, explica Snowie, referindo-se a Angela Leong, que está na liderança da concessionária de jogo SJM e que concorre pela primeira vez por via indireta. 

Sufrágio universal para AL “nunca irá acontecer” 

Recuamos um dia. Já é noite quando a empresária Angela Leong chega à Praça de Amizade, na Península de Macau, para o primeiro ato de campanha eleitoral, que se realiza este ano entre 28 de agosto e 10 de setembro. Não estão mais do que 30 apoiantes no recinto, delimitado pelas autoridades com barreiras metálicas, como medida de prevenção epidémica. Para entrar aqui e nos outros 18 locais designados para a organização de atividades promocionais, foi definido um limite máximo de pessoas e é necessário medir a temperatura, verificar o código de saúde, manter distanciamento social e usar máscara.  

Na Praça da Amizade, Angela Leong chega para o seu primeiro ato eleitoral.

À semelhança dos restantes candidatos do sufrágio indireto, Angela Leong tem a eleição garantida, já que neste círculo o número de concorrentes volta a ser igual ao de assentos. Ainda assim, a mulher do magnata do jogo Stanley Ho (1921-2020) não dispensa campanha. As atuações de palco foram suspensas devido à pandemia, mas a empresária dá uma volta pelos stands vazios e fala aos jornalistas. Lembra que foi bailarina – “sempre apoiei e participei em associações de desporto e de dança” – ao explicar por que decidiu concorrer pelo setor do desporto e da cultura. 

Do outro lado da praça, à frente da Escola Portuguesa, ergue-se mais um painel reservado à propaganda eleitoral. Muitos dos que por aí passam – na maioria são turistas – detêm-se a observar os cartazes. “Não estou a par das eleições”, diz uma das pessoas abordadas pelo PLATAFORMA. 

Miguel de Freitas, a residir em Macau há vários anos, caminha na direção do casino Grand Lisboa. “Eu não voto”, declara o português, que lamenta o atraso da aprovação de uma lei sindical para Macau. Freitas é crítico do sistema eleitoral, por conferir lugar parlamentar a deputados indiretos ou nomeados pelo Chefe do Executivo. “Sendo Macau uma sociedade tão harmoniosa, penso que esses lugares são dispensáveis”, ironiza o funcionário da Teledifusão de Macau, assumindo que “por este caminho” uma AL eleita por sufrágio universal “nunca irá acontecer”. 

Outra residente, que se recusou momentos antes a prestar declarações “por não falar bem inglês”, volta atrás para confidenciar: “Eu gosto de Sulu Sou, é jovem e boa pessoa”. 

“Quero viver numa sociedade com múltiplas vozes” 

O deputado pró-democracia Sulu Sou e outros 20 concorrentes à AL viram em julho as suas candidaturas excluídas pela CAEAL por “não serem fiéis à Região Administrativa Especial de Macau”, numa decisão em muito semelhante à tomada por Hong Kong, em 2020, quando quatro deputados da ala democrata foram destituídos sob pretexto de representarem uma ameaça à segurança nacional. Na apreciação do recurso, o Tribunal de Última Instância manteve a opção da CAEAL, sustentando-a com a participação dos candidatos em atividades incompatíveis com a Lei Básica de Macau, como a vigília pelas vítimas do massacre de Tiananmen.  

O deputado pró-democracia Sulu Sou e outros 20 concorrentes à AL viram em julho as suas candidaturas excluídas pela CAEAL por “não serem fiéis à Região Administrativa Especial de Macau”.

Miguel de Freitas considera a exclusão dos deputados “ridícula e desnecessária”, embora não se mostre surpreendido. “Não eram harmoniosos” e “eram um alvo a abater”, defende o português. 

Também o agente imobiliário Carson Leong classifica a decisão de “injusta”: “Quero viver numa sociedade com múltiplas vozes. Não concordo que se limite a candidatura de alguém sem uma razão convincente e razoável”. 

Já Pin Ho, empregada do Tian Mo Fang, um pequeno negócio de sobremesas, na rua dos Clérigos, na Taipa, admite que “se que o governo concordar com a decisão, também a apoia”. Recorde-se que o Chefe do Executivo, Ho Iat Seng, afirmou que a desqualificação está de acordo com a concretização do princípio “Macau governado por patriotas”. 

Questionada sobre quais são as questões mais urgentes em Macau, a vendedora, que fala ao PLATAFORMA com a ajuda de tradução de uma cliente macaense, destaca como prioridade a “construção rápida” do novo hospital, planeado desde 2008. 

Ho, natural de Macau, revela ainda que vai votar na lista 6, de Ron Lam, presidente da Associação Sinergia Macau que já deixou boa impressão na vizinhança: “No terreno aqui à frente, as plantas começaram a crescer e a atrair mosquitos. Depois apareceu este grupo, fez perguntas e, no dia seguinte, veio o governo, cortou [as plantas] e levou o lixo.” 

Que diferenças observa nesta campanha em relação às anteriores? Ho e a cliente – que não quer ser identificada pelo nome – dão uma gargalhada. Diz a cliente (desta vez fala por si): “Claro que há uma grande diferença, toda a gente sabe que há uma grande diferença”.  

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