"Biden identifica Rússia e China como adversários que têm de ser combatidos ao mesmo tempo" - Plataforma Media

“Biden identifica Rússia e China como adversários que têm de ser combatidos ao mesmo tempo”

No dia em que Joe Biden faz um discurso diante das duas câmaras do Congresso, o DN falou com Tiago Moreira de Sá, professor da Universidade Nova e investigador do IPRI sobre os 100 dias de mandato do presidente democrata.

Passados 100 dias de Administração Biden, podemos dizer que depois de Donald Trump a presidência dos EUA voltou ao normal?
Em certo sentido, sim. Eu e a Diana Soller escrevemos o livro Donald Trump – o Método no Caos, agora um bom título para este período de Joe Biden é Do Caos à Ordem. A estratégia de Trump tinha um preço elevado, desde logo do ponto de vista interno. Era dividir para reinar, polarizar para reinar. E isso levou ao agravar de um problema que desde os anos 60 se foi sempre agravando e que nos 90 ainda se agudizou mais com a revolução de Newt Gingrich. O que Trump fez foi, em vez de resolver o problema de fundo da polarização da sociedade norte-americana, polarizar ainda mais para tentar beneficiar com isso na sua estratégia de poder. Biden – e essa é a marca fundamental até agora – está a fazer exatamente o contrário. Quando ele fala em unir, o que está a tentar é despolarizar um bocadinho a sociedade e a política norte-americanas, para deixar que o governo funcione. Essa é a condição de fundo do sistema político norte-americano como foi feito desde os Pais Fundadores: ou há consenso e ele pode funcionar, ou há polarização e ele bloqueia. Há um livro de Francis Fukuyama – Ordem Política e Decadência Política – em que ele fala nessa decadência que decorre do bloqueio do Estado e do governo. O sistema norte-americano, com a separação de poderes, com os checks and balances, está feito para funcionar à base de consensos. Se estes consensos bipartidários, entre democratas e republicanos, não existirem, pura e simplesmente deixa de funcionar. Ora em momentos de grande polarização, não há consensos, porque não há o centro moderado para negociar. Esta é a razão principal, na minha opinião, do declínio relativo dos EUA mesmo do ponto de vista internacional. Biden percebeu isso. E o que está a tentar é unir o país, tanto quanto possível despolarizar. Neste momento o problema de fundo que os EUA têm não é nem a ameaça da China, nem a ameaça da Rússia – é a incapacidade de o governo funcionar, a tal decadência política de que fala Fukuyama.

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