Suu Kyi é formalmente acusada e aumentam apelos à desobediência civil em Mianmar

Suu Kyi é formalmente acusada e aumentam apelos à desobediência civil em Mianmar

A dirigente birmanesa Aung San Suu Kyi foi acusada formalmente nesta quarta-feira (3), dois dias depois de ser deposta por um golpe de Estado militar, enquanto os apelos à desobediência civil se multiplicam no país.

Na segunda-feira, o exército encerrou a frágil transição democrática do país, impôs o estado de emergência por um ano e prendeu Suu Kyi, a chefe de fato do governo civil, além de outros líderes de seu partido, a Liga Nacional para a Democracia (LND).

Dois dias após o golpe, condenado por muitos países, surgiram os primeiros sinais de resistência. 

Médicos e profissionais da saúde, que usavam fitas vermelhas em sinal de protesto, anunciaram que se recusariam a trabalhar, exceto em caso de emergência médica. 

“Obedeceremos apenas ao governo democraticamente eleito”, disse à AFP Aung San Min, diretor de um hospital com 100 leitos na região de Magway (centro). 

Funcionários do hospital geral de Yangon se reuniram diante do edifício e fizeram a saudação com três dedos, um gesto de resistência adotado pelos ativistas pró-democracia de Hong Kong e Tailândia. 

Também foi criado um grupo chamado Movimento de Desobediência Civil no Facebook, que já tinha 150.000 inscritos. “O Exército deveria ter vergonha” e “Os militares são ladrões”, afirma página. 

A rede social anunciou que na quinta-feira (noite de quarta no Brasil) o acesso estava “interrompido para algumas pessoas” e exortou as autoridades a restabelecerem a conexão.

Na terça-feira, no distrito comercial de Yangon, capital econômica do país, moradores protestaram com panelaços e buzinaços. Muitos gritaram “Viva a Mãe Suu”. 

Ao perceber o que poderia acontecer, Suu Kyi pediu à população que não aceite o golpe de Estado em uma carta escrita antes de sua detenção.

Nesta quarta-feira, autoridades a acusaram oficialmente de ter violado uma lei comercial e “ordenaram sua prisão provisória” até 15 de fevereiro, informou um porta-voz de seu partido.

O ex-presidente Win Myint foi acusado de ter violado a lei sobre a gestão de desastres naturais, segundo o próprio ex-líder.

Medo de represálias

O medo de represálias é palpável neste país que viveu, desde sua independência em 1948, sob o jugo da ditadura militar durante quase 50 anos. 

“A população sabe muito bem até que ponto o Exército pode ser violento e o pouco que se importa com sua reputação internacional, o que poderia frear a vontade de mobilização”, disse Francis Wade, autor de vários livros sobre o país.

As novas autoridades, que se comprometeram a organizar eleições dentro de um ano, já publicaram uma advertência contra qualquer discurso ou mensagem que possa “estimular distúrbios ou uma situação instável”. 

O golpe de Estado, “inevitável” segundo o general Min Aung Hlaing, que agora concentra a maior parte dos poderes à frente de um gabinete integrado por generais, provocou uma chuva de condenações internacionais.

Depois de ameaçar com adoção de novas sanções, o governo dos Estados Unidos elevou o tom na terça-feira contra Mianmar, que virou o primeiro grande teste internacional para o novo presidente Joe Biden.

De acordo com uma fonte da administração americana, Aung San Suu Kyi e Win Myint “foram depostos em um golpe militar”, uma declaração oficial que bloqueia a ajuda direta ao Estado birmanês por parte de Washington, que se declarou “inquieto” nesta quarta-feira com a acusação de Suu Kyi. 

“Instamos o exército a libertá-los imediatamente”, disse o porta-voz do Departamento de Estado, Ned Price, referindo-se a Suu Kyi e outros líderes presos.

A França defendeu que a União Europeia (UE) adote sanções, caso o estado de emergência não seja finalizado.

Mas este seria um ato simbólico. O Exército birmanês já está sob sanções desde as atrocidades cometidas pelos militares em 2017 contra a minoria muçulmana rohingya e que levou Mianmar a ser acusada de genocídio por investigadores da ONU.

“Inaceitável”

O secretário-geral da ONU, António Guterres, disse nesta quarta-feira que faria tudo ao seu alcance para que a comunidade internacional “exerça suficiente pressão” sobre Mianmar para garantir um “fracasso” do golpe de Estado.

Em entrevista ao jornal The Washington Post, Guterres considerou como “absolutamente inaceitável mudar os resultados das eleições e a vontade do povo”.

Guterres lamentou, ainda, que o Conselho de Segurança não tivesse conseguido acordar na terça um texto sobre Mianmar.

O Conselho de Segurança não conseguiu fechar um acordo. As negociações continuam, informou um diplomata que pediu anonimato.

Para ser aprovado, precisa do apoio da China, que tem direito de veto. Mas Pequim continua sendo o principal respaldo de Mianmar na ONU. Durante a crise dos rohingyas, os chineses obstruíram todas as iniciativas nesta instituição por considerar o conflito um assunto interno birmanês.

Nesta quarta-feira, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês pediu à comunidade internacional para “criar um ambiente estrangeiro saudável para que Mianmar possa resolver adequadamente suas diferenças”, considerando que qualquer intervenção do Conselho de Segurança deve “evitar o agravamento das tensões e complicar ainda mais a situação”, informou a agência de notícias Xinhua.

Os chanceleres do G7 se declararam “muito preocupados” com os acontecimentos, assim como o Fundo Monetário Internacional, que advertiu para o impacto na economia do país, já muito afetada pelo coronavírus (mais de 140.000 casos e 3.100 mortes). 

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