Um futuro sem esferovite

Um futuro sem esferovite

Na semana passada, o Governo da Região Administrativa Especial de Macau publicou em Boletim Oficial uma medida que visa proibir a importação e trânsito de utensílios de mesa descartáveis de esferovite, para se tornar efetiva a partir de 1 de janeiro de 2021. O PLATAFORMA foi perceber de que forma esta medida impacta a restauração e o ambiente, já que as caixas de esferovite são compostas por um plástico à base de petróleo que pode levar cerca de 500 anos a decompor.

Apesar do Governo não incluir as caixas de plástico, Larry Drinkwater, ativista ambiental e dono do café Larry’s Place, no Beco do Gonçalo, considera a proibição uma vitória enorme para o ambiente. “Podem achar que é um passo pequeno, mas quem já realizou limpezas às praias entende a seriedade da ameaça que as caixas de esferovite representam, até mais do que as caixas de plástico”, salientou. 

A opinião é partilhada por Gilberto Camacho, ambientalista e membro do grupo Econscious, sediado em Macau, que alertou o PLATAFORMA para os problemas inerentes ao material. “A esferovite e o plástico são dois materiais que demoram várias dezenas ou até mesmo centenas de anos a desintegrar-se no meio ambiente. Ambos são tóxicos e entram na cadeia alimentar. No entanto, a esferovite acaba por ser um material mais chato porque desfaz-se em migalhas e a sua recolha nos mares é mais morosa e complexa”, explicou. 

De acordo com a Direção dos Serviços de Proteção Ambiental de Macau (DSPA), o material nem é reciclado no território. “Por agora não reciclamos o material, mas não excluímos essa possibilidade”, explicou ao  Chan Kwok Ho, chefe do Centro de Gestão de Infraestruturas Ambientais. O director da DSPA, Raymond Tam, em declarações à edição chinesa da Rádio Macau, apontou que a taxa de utilização da esferovite não suscita grandes preocupações. “O uso deste utensílio ocupa uma percentagem reduzida”, revelou.

Dos vários restaurantes que entrevistámos, o Blissfull Carrot destaca-se como o estabelecimento mais “verde”, utilizando apenas utensílios de mesa biodegradáveis. O PLATAFORMA conversou com gerente Emily Smith, que felicita o “grande passo” dado pelo Governo. “Durante algum tempo fomos o único restaurante a adotar esta posição”, afirmou.

A restauração tem adotado, cada vez mais, utensílios que não sejam (tão) danosos para o ambiente, de forma a servir melhor o planeta. Emily tem testemunhado essa evolução ao longo do tempo. “Vejo cada vez mais restaurantes a adotar medidas sustentáveis. Alguns estabelecimentos utilizam palhinhas de papel ou biodegradáveis, outros perguntam às pessoas se têm as suas próprias caixas para levar a comida, entre outros exemplos”.

Porém não escondeu a preocupação de que os restaurantes optem por soluções igualmente nefastas para o ambiente. “A maioria dos restaurantes vai enveredar por uma alternativa que tenha custo semelhante e uma dessas alternativas é o plástico. Não concordo, mas compreendo do ponto de vista financeiro. É um material muito barato comparando com as soluções que adotamos aqui no Blissfull Carrot. As pessoas estão educadas para pensar no lucro e não no ambiente”, lamenta. 

No restaurante de Hou Kee, é isso mesmo que vai acontecer. O estabelecimento situado na Travessa dos Anjos apoia a decisão governamental e considera que, apesar das caixas de plásticos serem um pouco mais caras, o preço continua a ser aceitável. “Para nós não há problema em trocar de produto”, disse Hou Kee.

No entanto, “não se pode pensar apenas nos números”, como desabafa o chef do restaurante O António, David Abreu. “Temos de olhar para o futuro”, acrescentou. O restaurante utiliza caixas de cartão para take-away e tem evitado o uso de plástico ao máximo, tal como o Larry´s Place. David considera que faz parte do rumo à sustentabilidade optar por soluções mais viáveis para o ambiente e que os estabelecimentos têm de se habituar a isso e “seguir em frente”. 

Gilberto Camacho explicou como cada um de nós, vendedor e consumidor, pode fazer a diferença, sem intervenção do Governo. O primeiro apelo passa pela reutilização “tanto quanto possível” das caixas de take-away. Do lado do consumidor, “levar de casa um recipiente é a solução ideal”. Do lado do vendedor, “se optar por uma política semelhante à dos sacos de plástico em que se cobra um valor ao consumidor, é uma solução que deve ser aplicada”, aconselhou.

A DSPA estuda agora a possibilidade de banir a importação de palhinhas. David Abreu acredita que nem sempre é necessário recorrer a imposições, realçando o importante papel do Governo em sensibilizar a população para as questões ambientais, “promovendo a sustentabilidade através de vários meios, como a televisão”.

Porém, Gilberto Camacho indica que o fator tempo será muito importante. “O tempo urge. Temos de ser mais rápidos a agir nesse sentido. Todos e não apenas o Governo. A destruição do planeta continua a acelerar e não a abrandar”, alertou.

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