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Guiné-Bissau entrou num novo ciclo de tensão pós-eleitoral – analista

Agência Lusa

O analista político guineense Rui Jorge Semedo afirmou hoje que o país entrou num novo ciclo de tensão pós-eleitoral e que já há sinais inconsistência na aliança que apoiou a eleição do Presidente da Guiné-Bissau, Umaro Sissoco Embaló.

“O país entrou num novo ciclo, que já é tradicional, de tensão pós-eleitoral e esta situação agravou-se mais do que as situações anteriores”, disse à Lusa Rui Jorge Semedo.

Segundo o analista político, os fatores que contribuíram para aquele agravamento foram a situação ocorrida após a divulgação dos resultados eleitorais, com a “interferência” da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) e da União Africana, que “legitimaram os resultados” e sobrepuseram-se à decisão do Supremo Tribunal de Justiça.

“Esta situação conduziu a uma outra situação mais complicada, que foi a rejeição dos resultados das eleições legislativas de 10 de março, porque quem ganhou as legislativas não foi na verdade o grupo que está a governar. Forjou-se uma maioria inexistente do ponto de vista do regimento do parlamento e isso transformou-se num ambiente inapropriado para o relacionamento institucional”, disse Rui Jorge Semedo.

Na sequência da sua tomada de posse, o Presidente guineense demitiu o Governo, que tinha sido formado na sequência dos resultados das legislativas, ganhas pelo Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), e nomeou um outro, formado por uma aliança de partidos e movimentos que apoiaram a sua eleição.

O analista político salientou que, por outro lado, a aliança que conduziu Umaro Sissoco Embaló ao cargo de Presidente da República “não é uma aliança consistente a começar pela luta pelo poder dentro do partido que o apoiou nas eleições presidenciais”, referindo-se ao Movimento para a Alternância Democrática (Madem-G15).

“O que se visualiza neste momento é uma disputa, o mesmo que aconteceu nas últimas duas legislaturas. O PAIGC apoiou José Mário Vaz para assumir o cargo de Presidente e depois o conflito eclodiu justamente entre o PAIGC e o candidato que tinha apoiado. É esta linha que também estamos a observar. Neste momento, há muitos indícios que não há um relacionamento saudável entre o Madem-G15 e o Presidente da República”, afirmou.

Para Rui Jorge Semedo, aquele não é um bom sinal, destacando que o líder do Madem-G15, Braima Camará, goza de “muita influência dentro da base que apoiou o Presidente da República”.

“Outro aspeto a tomar em consideração é que todas as formações políticas com assento parlamentar criticaram e muito este comportamento que nos últimos tempos tem ocorrido de sequestros e espancamentos de cidadãos. Diariamente está a ser mais visível o crescimento de comportamentos que possam conduzir à obstaculização, novamente, desta legislatura”, afirmou.

Questionado sobre se o novo ciclo de tensão política está a ter impacto na sociedade guineense, Rui Jorge Semedo disse que “aparentemente” a sociedade está mais calma, em comparação com o período da campanha eleitoral.

Mas, acrescentou, a “sociedade guineense continua dividida, basta acompanhar os programas matinais nas diferentes rádios com dimensão nacional para analisar os discursos que cada parte faz e os posicionamentos sobre a forma como o país está a ser dirigido”.

Para Rui Semedo, o país não vai sair facilmente daquela divisão, que tem uma componente étnica e religiosa, e que só pode ser atenuada com uma “relativa estabilidade e indícios de boa governação”.

“Enquanto os gestores políticos não conseguirem ter a serenidade necessária, a responsabilidade e estratégia necessárias, para conseguirem dar sinais de que há algo a acontecer, indicando alguma coisa com impacto real na vida das pessoas, acho que a pobreza nos empurra para este confronto e a contribuir para a nossa desintegração enquanto sociedade, a nossa democracia e tudo o que nos possa ajudar a prosseguir com os desafios do desenvolvimento”, afirmou.

Sobre a proposta de revisão da Constituição apresentada por uma comissão técnica, criada pelo Presidente guineense, o analista disse que é uma “proposta inexistente”.

“Não é competência do Presidente da República constituir uma comissão técnica para propor a revisão”, disse.

“Tudo o que estamos a acompanhar é na verdade o despreparo do ponto de vista político e constitucional das autoridades políticas guineenses em assumir com idoneidade as suas responsabilidades”, afirmou, salientando que o chefe de Estado está a patrocinar mais um conflito institucional.

Rui Jorge Semedo disse também que a constituição da comissão técnica mostra a “vulnerabilidade da classe intelectual guineense” que é “ávida na manipulação”.

“Ninguém quer trabalhar honestamente para ganhar algo, também de uma forma honesta, e todos estão a vender-se em troca de benefícios materiais e financeiros. É uma sociedade que caracterizo como já não tendo moral para fazer nada. Tudo vale, é uma relação intensa de ‘dá cá, toma lá’”, disse.

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