Multilateralismo e combate à pandemia entre dois aniversários

Multilateralismo e combate à pandemia entre dois aniversários

A coexistência pacífica e uma abordagem externa mais liberal têm sido cada vez mais utilizados por Pequim como antídotos para uma postura mais agressiva da Administração Trump e um crescente “fogo cerrado inimigo”, desde janeiro, devido à pandemia nascida em Whuan no meio da guerra comercial lançada por Washington. Esta é a opinião de dois analistas ouvidos pelo PLATAFORMA na passagem do 71.º aniversário da República Popular sobre o que mudou nos últimos 12 meses.

Para José Sales Marques, “no essencial, o que aconteceu no último ano foi um somatório de muitas coisas”, que culminou na certeza de que “houve um distanciamento bastante visível nos últimos meses entre a China e os EUA, e também com a UE, em relação a várias questões”.

“Este afastamento tem, como razão próxima a crise causada pela pandemia do novo coronavírus. As partes assumiram leituras diferentes sobre o desenvolvimento da pandemia, assim como as respostas a dar, sobretudo da parte dos EUA. A Administração Trump tratou muito mal esta questão, eventualmente por razões de agenda, ao deitar as culpas à China pelo que aconteceu”, disse.

“Já na questão europeia, adiantou o economista – os problemas essenciais de Bruxelas com Pequim prendem-se com o acesso ao mercado chinês. Começaram também a surgir questões relacionadas com o investimento chinês na UE, designadamente o estabelecimento de restrições à entrada de capitais em empresas europeias”.

O também presidente do Instituto de Estudos Europeus de Macau admitiu, contudo, que “tudo isto acontece, apesar de haver uma perceção errada acerca do peso real do investimento chinês na Europa”. 

“No seu pico, o volume desse investimento rondou os seis, sete por cento, e até tem registado uma quebra significativa de 2017 para cá”, lembrou.

Sales Marques assinalou igualmente alguns dos pontos de vista em que existem diferenças entre a Europa e a China, designadamente “matérias normativas como direitos humanos e o mais recente caso dos acontecimentos em Hong Kong”.

“Todavia, com o andar dos tempos, continuaram a haver áreas de cooperação e de interesses comuns entre as duas partes em matérias como o multilateralismo, a governança mundial e as questões climáticas”, disse.

O analista reconheceu que, “entretanto, começaram a funcionar elementos estranhos às relações bilaterais entre a Europa e a China, nomeadamente a crescente pressão dos EUA sobre os europeus em matérias como a nova geração de comunicações móveis, o 5G, e a presença da tecnologia chinesa”.

“A abertura que havia deixou de ser visível”, disse, considerando, contudo, não haver “uma recusa automática e uma aceitação da vontade norte-americana da parte de todos os países”. 

“Veja-se o caso de Portugal em que está em curso a fixação do caderno de encargos (feito em coordenação com Bruxelas) com garantias de que há abertura para a escolha recair sobre a melhor proposta. Isto quer dizer que a Europa não reage toda da mesma forma perante a tecnologia 5G chinesa. Há países que privilegiam os respetivos interesses nacionais nesta matéria”, exemplificou.

José Sales Marques aproveitou para lembrar, que “o posicionamento anti China em matéria de investimentos já aconteceu no passado com outros países, nomeadamente com o Japão”.

“Isto significa que a globalização só está a acontecer à superfície. Com a Presidência de Trump há uma força anti globalização muito forte”, observou.

Por isso, o economista observou que longo deste último ano “houve um afastamento entre estes países”. 

“A China justifica um certo sucesso no combate ao vírus da Covid-19. Por um lado, devido ao esforço e ao trabalho de muitos, por outro, também devido ao sistema político e à liderança que tem”, adiantou, acentuando que existem “divergências com o Ocidente perante os diferentes sistemas políticos, de quais são os melhores. Do lado ocidental não há dúvidas que, mesmo com muitos defeitos, o melhor é a democracia e o parlamentarismo. Mas continua a haver visões diferentes”.

Por isso – prosseguiu – “o que aconteceu neste ano é que se acentuou a diferença entre essas diferentes visões do mundo. Cada uma delas marcou mais o respetivo espaço”.

No entendimento de Sales Marques. “o caminho seguido justifica ainda mais um diálogo sem preconceitos, uma vez que essas divisões existirão sempre”. A

“A questão que se coloca é: perante essa realidade, como manter e encetar esse diálogo”, interrogou-se. 

O analista recordou em seguida o recente encontro (cimeira) virtual entre a UE e a China, na qual “Pequim acentuou que as relações devem assentar no conceito da coexistência pacífica, da paz e da cooperação”.

Para José Sales Marques “o diálogo tem de assentar em premissas muito claras”.

“Há neste momento uma clarificação nesta matéria. E o que é preocupante é que há um distanciamento e ainda não se encontrou um ponto de equilíbrio para um diálogo positivo para o futuro do mundo, da humanidade e do planeta e isso é fundamental”, concluiu.

Para o académico e comentador Sonny Lo, “a China mantém o multilateralismo e o compromisso com outros países, adotando uma abordagem externa relativamente liberal, enquanto na política interna Pequim tem adotado uma abordagem autoritária, dura, como a política em relação a Hong Kong, Tibete e Xinjiang”. 

“A ideia [da China] – defendeu – é manter a estabilidade política interna, mas um empenho externo e um multilateralismo relativamente liberal”. 

“Este estilo e modelo são totalmente diferentes dos Estados Unidos: internamente é democrático, do tipo ocidental e, externamente, muito auto protetor sob a Administração de Donald Trump”, avaliou.

Para o professor universitário, “a guerra comercial e tecnológica entre a China e os EUA agrava as lutas entre os dois modelos políticos”. 

“No entanto, dado o fracasso dos EUA em lidar com a Covid-19, ao contrário do bloqueio efetivo desencadeado pela China em Whuan após a eclosão do surto do novo coronavírus, o modelo norte-americano está em rápido declínio, enquanto o modelo chinês de desenvolvimento autoritário, com multilateralismo externo, está-se a destacar como principal desafio ao modelo dos EUA”, disse.

Para o académico “a China é autoritária internamente e o regime do presidente Xi Jinping mantém uma abordagem anticorrupção, de centralismo democrático (com o centralismo a ser mais importante do que a democracia e a abordagem de massas da era maoísta), de controlo rígido sobre os protestos (caso de Hong Kong com a aprovação da lei de segurança nacional) e sobre locais com minorias étnicas como Xinjiang e Tibete”. 

“A ideia principal é orientar-se para o sonho chinês e o renascimento”, disse.

Para Sonny Lo, “o renascimento económico está a começar e mais controlo sobre as empresas privadas visa estimular a circulação interna que interage com a circulação externa. O consumo interno é estimulado pelo turismo local e esta estratégia chinesa é muito óbvia, ao mesmo tempo que reduz a taxa de crescimento para valores entre cinco a seis por cento”.

“A China permanecerá politicamente estável, mas a política de sucessão talvez se torne mais violenta à medida que o presidente Xi envelhece e o primeiro-ministro Li Keqiang pode eventualmente deixar o cargo. Quem irá suceder a Li e mais tarde a Xi será o principal desafio da política de sucessão pacífica e tranquila na China nos próximos cinco anos”, previu.

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