Homenagem a vítimas de massacre em Timor-Leste em 1975 causa tensão entre famílias

Homenagem a vítimas de massacre em Timor-Leste em 1975 causa tensão entre famílias

A homenagem às 11 vítimas de um massacre de apoiantes da Fretilin a 27 de agosto de 1975 na zona de Alas, Timor-Leste, por apoiantes da UDT, está, 35 anos depois, a causar polémica e tensão entre famílias.

Em causa está, em particular, a questão da identificação das ossadas de uma das vítimas que, para agravar o problema, desapareceram.

A história envolve tensões familiares, questões políticas, o reconhecimento de mártires nacionais, mas também aspetos mais ligados às tradições locais, especialmente os relacionados com a morte.

Em comunicado enviado à Lusa, a família de uma das vítimas – Francisco Borges – explica os contornos do caso, que começa, na verdade, em 1975, durante a guerra civil entre os dois partidos timorenses – a Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente (Fretilin) e a União Democrática Timorense (UDT).

A família explica que quer exercer “o seu direito ao bom nome e à dignidade”, recordando os contornos de um longo processo que, na sua base, tem a ver com a homenagem às 11 vítimas do massacre, numa praia do sul da ilha.

“No dia 27 de agosto de 1975, onze amigos e mártires da pátria, foram vítimas de um bárbaro massacre em Wedauberek. Perderam a vida no início da luta pela independência de Timor-Leste, sendo por isso de valorizar as homenagens devidas aos onze heróis timorenses, pelo seu contributo valioso para o sonho e nascimento de um Timor-Leste independente e soberano”, refere a família em nota enviada à Lusa.

Num país onde durante a breve guerra civil de 1975 e, especialmente, durante os 24 anos seguintes de ocupação indonésia, se multiplicaram os massacres, várias famílias continuam hoje a tentar encerrar capítulos dolorosos, recuperando ossadas e homenageando os seus familiares.

Honrar os mortos assume tanta importância em Timor-Leste que algumas famílias, que não conseguem recuperar os restos mortais de familiares mortos – o que acontece, por exemplo, com o massacre do cemitério de Santa Cruz, em novembro de 1991 -, optam por rituais e cerimónias simbólicas.

Nesses casos as famílias reúnem roupa ou outros bens pessoais da pessoa, pedras do local onde se sabe ter sido morto e realizam um funeral simbólico, fechando assim o ciclo.

Neste caso, a tentativa de homenagear algumas das vítimas começou em 1992 quando Teresa Araújo, mãe de Francisco Borges, acompanhada de polícias e militares recuperou os restos mortais do jovem da sepultura em Wedauberek onde se encontravam.

As ossadas de Borges estavam “envolvidos num lençol e juntos com os restos mortais que foram identificados na altura como pertencentes a Domingos Lobato”, amigo do primeiro e outras das vítimas do massacre.

“Apesar de não existir na altura sequer um Estado independente de Timor-Leste, a família fez o que o bom senso e a dignidade exigiam na altura, entregando os restos mortais à respetiva família Lobato. E, desde esse momento da entrega em 1992, e tendo cumprido o que a ética exigia, nunca mais a Família Borges voltou a ter qualquer posse, contacto com, ou controlo sobre os restos mortais em causa”, explica a família Borges.

“Várias vezes, e publicamente, a família Lobato confirmou ter recebido as ossadas, explicando depois que as mesas foram roubadas”, refere.

O caso complica-se porque outra família argumentou que as ossadas desaparecidas não eram de Lobato, mas sim de outra das vítimas, procurando responsabilizar a família Borges pelo seu desaparecimento.

No caso de Francisco Borges, os restos mortais foram sepultados em Díli, mas, anos depois, a família alega que sentiu que o espírito do jovem queria voltar para o local onde tinha sido morto e onde estavam sepultados os seus amigos.

A 26 e 27 de agosto de 2013, o Estado acabou por organizar cerimónias fúnebres a Francisco Borges, trasladando os restos mortais para o cemitério de Wedauberek, onde foram “inumados com a dignidade que um mártir da pátria merece”, incluindo guarda de honra.

Sete anos depois, em julho último, a Comissão que reúne as famílias das vítimas decidiu que deveriam ser prestadas honras fúnebres aos restantes que ainda não tinham sido dignamente sepultados.

A família Borges explica ter apoiado e saudado a iniciativa, pedindo, porém, que os restos mortais de Francisco – já homenageados – não fossem mexidos, algo aceite pelas restantes famílias e pelas autoridades locais e municipais.

A 27 de junho ocorreu a cerimónia de exumação dos restos mortais, mas a família Borges explica que, ao contrário do que tinha pedido, “o túmulo do Francisco foi arrombado sem a presença da família e os restos mortais no caixão foram pontapeados”, sendo levados para outro local enquanto decorriam obras de melhoria no cemitério.

“A família foi impotente para travar a decisão que o administrador do Posto de Alas e o Diretor Geral da Agência Nacional de Desenvolvimento tomaram, em conjunto com alguns membros familiares”, explica a família.

“Os restos mortais do Francisco foram exumados e trasladados contra a vontade das únicas pessoas que estavam legalmente habilitadas a tomar aquela decisão sobre os restos mortais do Saudoso Francisco: os seus familiares. Não é a família Borges que o diz, é a lei timorense. Foram violados, ainda, os sagrados e ancestrais costumes do nosso povo, e o respeito devido aos falecidos”, explica a família.

O relatório “Chega”, da Comissão de Acolhimento, Verdade e Reconciliação (CAVR), assinala o “massacre de presos” da Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente (Fretilin) pela União Democrática Timorense (UDT) em Wedauberek, suco de Mahaquidin, posto administrativo de Alas, no município de Manufahi, a cerca de 130 quilómetros sul de Díli.

Testemunhas ouvidas pela CAVR explicam que as forças da UDT, o priemrio partido timorense, prenderam a 11 de agosto de 1975 um grupo de 11 apoiantes da Fretilin em Alas, entre os quais membros da organização juvenil Unetim.

“Os presos da Fretilin foram mantidos em Alas entre 11 e 16 de agosto. No dia 17 de agosto, foram transferidos para Same. Ao tomarem conhecimento de que forças da Fretilin, vindas de Aileu, se aproximavam, os apoiantes da UDT levaram os prisioneiros para Sul, rumo à costa, e mataram-nos”.

Ilídio Maria de Jesus, filho de uma das vítimas, disse à comissão que viu os corpos imediatamente após os homicídios, disse ter fugido com a mãe e irmãos para uma colina próxima onde ouviram tiros vindos da praia de Meti Oan.

“Quatro dias mais tarde, a 31 de agosto, tropas das Falintil vindas de Same descobriram os corpos na praia de Meti Oan”, disse.

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