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Proteção ambiental em Macau para a próxima década

Carol Law

O mundo inteiro está a viver condições meteorológicas extremas e Macau não está imune a fenómenos como o aquecimento global.

Segundo as “Estatísticas do Ambiente”, da Direção dos Serviços de Estatística e Censos, a temperatura média de Macau em 2019 foi de 23,6 graus Celsius, valor que representa um crescimento anual de 0,8 por cento, sendo esse o ano mais quente de que há registo desde 1952.

A temperatura mais alta registada no ano passado foi de 35,7 °C nos meses de julho e agosto, 0,1 graus abaixo do registado em 2018. A temperatura mais baixa foi de 8,4 graus no mês de janeiro, mais 3,8 graus comparativamente a igual período de 2018. O número de dias de inverno ficou-se em 12, o valor mais baixo de que há registos.

O número de dias com má qualidade de ar registados em 2019 foi também superior a 2018. As estações de Ká Hó e Taipa foram as que registaram os valores mais altos, ambas com um total de 41 dias, ou seja, sofrendo um aumento anual de 29 e 12 dias, respetivamente.

A Organização Meteorológica Mundial afirmou que os anos entre 2010 e 2019 constituíram a década mais quente de que há registo, com este último ano a ser o segundo ano mais quente. Esta subida de temperatura a nível mundial já está a deixar o respetivo impacto, com os glaciares a derreterem, elevação do nível das águas do mar e condições meteorológicas extremas. Procurando enfrentar este problema, vários países têm desenvolvido planos de revitalização ambiental. A Coreia do Sul, por exemplo, propôs um novo “Acordo Verde” para eliminar todas as emissões de carbono do país até 2050. E Macau, o que vai fazer?

A proteção ambiental em Macau tem sido um tópico de crescente interesse nos últimos anos. O Governo tem desenvolvido algumas políticas de proteção ambiental, incluindo o “Planeamento da Proteção Ambiental de Macau (2010-2020)” lançado há vários anos, a regulamentação de emissões de automóveis e o imposto cobrado sobre o uso de sacos plásticos, aplicado desde o ano passado. O “Regime de gestão de resíduos de materiais de construção”, que esteve em consulta pública em 2015, viu este ano finalmente concluída a discussão no Conselho Executivo. Dentro do setor privado têm também surgido várias lojas “sem desperdício” e atividades voluntárias de reciclagem. Porém, estas medidas têm tido resultados diversos. De acordo com o “Relatório do Estado do Ambiente de Macau 2019”, a cidade produz mais resíduos per capita do que Pequim, Hong Kong ou Xangai. Durante a avaliação intercalar do “Planeamento da Proteção Ambiental de Macau (2010-2020)”, em 2016, foi reconhecido que as circunstâncias climáticas e sociais têm sofrido várias alterações desde a formulação do plano inicial. Embora sejam considerados vários cenários de desenvolvimento durante a criação deste tipo de planeamentos, continuam a existir grandes diferenças entre as mudanças esperadas e a situação corrente, especialmente a nível populacional e económico, que resultam numa procura por recursos e emissão poluente significativamente superior ao inicialmente previsto. 

Na opinião de Ron Lam U Tou, diretor da Associação da Sinergia de Macau, o “Planeamento da Proteção Ambiental de Macau (2010-2020)” ainda não é totalmente exequível, sendo que o principal problema é a proteção ambiental geral delegada pelo Governo. O mesmo cita a reciclagem de resíduos como exemplo, afirmando que o Governo ainda não criou uma medida que garanta uma operação sustentável da indústria de reciclagem, resultando numa recuperação de resíduos de 19,7 por cento em 2015, abaixo do objetivo inicial de 30 por cento. Este resultado juntamente com as restrições da cidade sobre importação de resíduos, levaram a números muito longe do esperado. “Este não é um problema com o qual o governo da RAEM consiga lidar”, apontou.

O responsável salientou também que o adiamento da execução do plano urbanístico e de indicadores é não só uma responsabilidade da Direção dos Serviços de Proteção Ambiental, como também do Governo e da respetiva decisão em lançar a proteção ambiental como uma estratégia urbana e de oferecer prioridade a vários indicadores ecológicos numa série de medidas políticas.

“Se tal não mudar, o planeamento inicial não irá conseguir atingir os objetivos”, sustentou. Acrescentou também que Macau tem feito um bom trabalho na transformação sustentável, porém, considerou que a mesma não é ainda suficiente, não tendo sido por isso possível compensar os danos causados pelo tufão Hato.

“É importante desenvolver mais as zonas costeiras, para que a população consiga ter mais contacto com o mar e experienciar os respetivos recursos naturais. Essa mudança pode também ajudar a melhorar todo o ambiente da cidade. No passado estas áreas não foram devidamente desenvolvidas, por isso espero que o Governo possa agora dar-lhes mais atenção”, defendeu.

Rix Un, presidente do grupo ambiental “Green Future”, disse sentir também que, com a construção dos novos aterros urbanos, a área disponível “é bastante grande”.

“É importante considerar a possibilidade de adicionar alguns locais de valor ecológico nesta região. Todavia parece não haver grande informação pública sobre esta matéria”, adiantou. Para este responsável, a cidade está dividida em “dois extremos”. Ao longo dos últimos anos parte da população tem desenvolvido uma mente ecológica, todavia, muitos continuam a não se importar com o problema, salientou.

Admitiu que não será fácil tornar os residentes de Macau numa população mais amiga do ambiente, contudo, disse acreditar que o papel que representa nesta luta está a crescer, tal como as atividades relacionadas com a proteção do ambiente. “No passado muitas atividades tradicionais não continham qualquer fator ecológico, porém, agora cada vez vemos mais atividades a adicionarem elementos de proteção ambiental aos respetivos planos”.

Rix referiu que a “Green Future” trabalhou com a Direção dos Serviços de Proteção Ambiental durante o festival gastronómico de Macau do ano passado, considerando que, todavia, ainda existem poucos vínculos entre o Governo e a comunidade, e é necessária uma maior cooperação, incluindo entre o Executivo e grupos ambientais locais. “Espero poder assumir este papel. Acreditamos que quanto mais ideias, melhor”, concluiu.

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