Como tratar os traumas de Cabo Delgado sem psicólogos - Plataforma Media

Como tratar os traumas de Cabo Delgado sem psicólogos

As memórias de gente decapitada, os dias passados em esconderijos no mato, com crianças, algumas bebés, o desespero de tudo perder. Há oceanos de dor por desabafar, mas falta quem possa ajudar a ultrapassar tanto trauma. Organizações tentam formar quem possa fazer a ponte.

A memória de corpos decapitados nas ruas e no mato em redor de Mocímboa da Praia, norte de Moçambique, não largam Belinha Raimundo, 30 anos. “Vai ser difícil esquecer. São memórias que cada um pode levar para toda a vida”, descreve, acerca do momento mais negro da sua vida, em março. Um dos grupos armados que aterroriza Cabo Delgado desde 2017 invadiu a vila e ocupou-a durante um dia, levando a população a largar tudo e a fugir. “Dormi no mato com as crianças”, cinco filhos, um dos quais bebé. Os invasores “eram bastante violentos. Tiravam o pescoço [a quem atacavam]. Nem posso lembrar tudo porque era um momento de terror”. “Vi algumas pessoas decapitadas, nas ruas, no mato, onde nos tentávamos esconder”, refere com a voz trémula. 

Hoje vive em casa dos pais, em Pemba, capital provincial na faixa sul de Cabo Delgado que tem escapado à vaga de violência. Belinha viu tudo o que tinha ser desfeito em cinzas e tem dificuldade em alimentar os filhos, mas sente que pode dormir em segurança. Ainda assim, confessa que não tem por hábito desabafar sobre aquilo que viu. “São poucas as vezes, porque traz memórias tão fortes que não dá para lembrar”.

A história de Belinha repete-se com maior ou menor impacto entre os 250.000 deslocados da violência armada em Cabo Delgado. Um número que cresce e que representa mais do que a estatística, alerta o bispo da igreja católica em Pemba, Luiz Fernando Lisboa. “Atrás de cada pessoa está uma história, um trauma vivido nessa guerra porque perdeu casa, porque viu ser morto um familiar ou porque não sabe onde está um parente”.

Os sinais de que o trauma psicológico é enorme levaram a diocese a iniciar formação e treino para 40 a 50 pessoas “que vão fazer trabalho psicossocial”. Ou seja, tudo indica que sejam necessários “muitos psicólogos” em Cabo Delgado para tratar milhares de consciências como as de Belinha. No entanto, como não existem, os poucos que há nas entidades religiosas e organizações humanitárias vão preparar um grupo que “vai ter essa capacidade de trabalhar com grupos de 10 a 12 pessoas para permitir que cada uma deite cá para fora traumas e dores”. Vai ser uma “forma de acolher a história de cada um e ajudar as pessoas a processar esta situação que estamos a vivenciar. Não nos podemos contentar em dar comida. É muito pouco. A alimentação é importante, mantém a pessoa de pé e alimenta o corpo, mas há pessoas que estão quebradas, traumatizadas”.

Que apoio podem dar aos deslocados de Cabo Delgado estas 40 a 50 pessoas treinadas por psicólogos? “É estar com as pessoas. Dialogar com elas. Por exemplo, consideremos grupos de mulheres. Imagine-se 10 grupos de 10 mulheres cada e ali estão dois” elementos formados pelos psicólogos “que vão ouvir e fazer o trabalho de grupo com essas mulheres”. Vai ser este o momento crucial em que o apoio psicológico de concretiza. “Vão poder ouvir traumas. Não gostaria de citar quais os problemas”, refere – deixando a ideia de que conhece situações duras -, “mas vão aparecer muitos”. Cada um dos grupos vai poder dar respostas ou sinalizar casos com vista a soluções, sejam simples casos de falta de documentação que atormentam deslocados ou traumas mais profundos que vão precisar de ajuda mais específica. 

O pessoal vai ser treinado para estar com as comunidades e, por detrás dessa equipa, vão estar psicólogos. A diocese conta com duas religiosas psicólogas e há outros em organizações humanitárias em Cabo Delgado, tais como Médicos Sem Fronteias (MSF) ou Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). “Estamos a tentar fazer um trabalho conjunto”, acrescenta. 

Não há pré-requisitos de educação formal para pertencer a este grupo. Do que se precisa é de “pessoas com um mínimo de condições para dialogar” com os deslocados, nota Luiz Fernando Lisboa. A experiência em ações nas comunidades é bem-vinda, apontando, no caso da igreja, os exemplos de catequistas e agentes pastorais. “Não é condição estar ligado à igreja”, realça. A prioridade será comunicar com as comunidades dos cinco acampamentos de deslocados em Metuge, seguindo-se depois Pemba e outros distritos. Estima-se que naquela povoação da baía de Pemba, do lado oposto à capital provincial, haja 10 a 12 mil pessoas em tendas, com muitas a dormir ao relento por falta de lugar.

A diocese arrancou com a ideia, envolveu outras pessoas e agora “todos trabalham juntos, sem protagonismos”. 

O resultado deste conflito é uma província de 2,3 milhões de pessoas onde cerca de 10 por cento está em fuga. Além dos 250.000 deslocados, estima-se que já tenha havido, pelo menos, 1.000 mortos, num conflito que se tem intensificado este ano.

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