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SOS para um futuro melhor

Macau tem solução, mas o Jogo não volta a ser o que era. Os desafios são muitos e o curto prazo muito difícil, numa economia em profunda recessão e ainda avessa à diversificação económica. A Grande Baía é “a grande oportunidade”, resume o economista Sales Marques. Mas “é preciso regular e estruturar” essa integração regional, “numa economia dirigida como é sempre a chinesa”, alerta Sam Tou, administrador do BNU. O empresário Angus Cheong confessa: “Agora”, a estratégia é “resistir. Vejo um futuro, mas podemos falar disso mais tarde”. Nesse amanhã melhor, vê três vias abertas ao otimismo: “ modernização tecnológica, integração regional e ligação aos países de língua portuguesa”.

Projetar hoje é difícil, mas há um dado que ganha força: “Não podemos continuar assim mais um ano, a economia não aguenta”, alerta Sam Tou. Elogia as medidas de apoio ao curto prazo, lançadas pelo Governo, mas entende que esse ciclo está esgotado. O futuro, que passa pela “diversificação económica, vai levar tempo”. 

Numa economia tão “específica” como a de Macau, onde 85 por cento do Produto Interno Bruto depende do turismo de Jogo, só agora começa a ser gradualmente aberta a fronteira para a China. Logo, “temos uma recuperação muito lenta, com sinais ainda muito fracos”, comenta Sales Marques, a partir de projeções oficiais que assumem 60 por cento de perda nas receitas, este ano, e o “início da recuperação para o ano”. Sales Marques diz que é pior, “entre 70 a 80 por cento”. A injeção de incentivos de curto prazo, levada a cabo pelo Governo, “é positiva”, mas a recuperação não chega este ano: “O próximo ano será muito melhor”, mas longe de números do passado.

Mercado Interno

Sam Tou reconhece que este período serve também para se medir a “dimensão da economia local”, porque “é a única que hoje existe”. E até vê “setores a crescer”: supermercados, mercearias, entregas em casa, tecnologias, comunicação… Mas a gestão de crise é dura e está nos limites: “O setor privado está sobre grande pressão; não sobrevive assim mais um ano (…) Aliás, se continuarmos assim, mais seis meses, muitos podem não resistir”.

Angus Cheong, empresário que desenvolve soluções tecnológicas integradas, descreve um ambiente de negócios focado na sobrevivência. “Nesta altura, o que importa é aguentar a crise, manter o negócio a funcionar; não é certamente investir em grandes projetos. Vejo um futuro para nós, mas podemos falar disso mais tarde”.

Ninguém garante o patamar de receitas que a indústria do Jogo arrecadará no pós-Covid. A dúvida é a de saber se há setores que possam desenvolver receitas alternativas. Nesse contexto, dois caminhos recolhem consenso entre as elites políticas e económicas em Macau: a integração regional na região económica especial da Grande Baía vista como terra de “oportunidade”; e a ligação aos mercados de língua portuguesa, como fator complementar e diferenciador. 

Sales Marques ainda sugere o foco estratégico no mercado VIP dos casinos, porque “tem outra mobilidade, vem de jato privado”. Mas Sam Tou insiste na nova realidade: “Não podemos esperar que os números voltem a ser o que eram”. Angus Cheong carrega na mudança: “Precisamos de um novo contexto económico”, com uma “aposta forte nas novas tecnologias”, e aproveitando as oportunidades que podemos criar na Grande Baía, bem como na ligação aos países de língua portuguesa”. Aí, “estou otimista”. 

Mais mundo

Sales Marques também vê nesta crise o elemento “acelerador”, que até pode ser decisivo, no sentido em que a reação à mudança é “mais rápida”. Contudo… “vai levar tempo”. Sales Marques acredita no médio e longo prazo, caso se cumpra a diversificação. “Tem de haver um plano para integrar estas oportunidades”. Já para o curto prazo… não há mesmo lugar ao otimismo: “Sou realista, vai ser muito difícil”.

Sam Tou ainda confia no impacto positivo dos estímulos governamentais, mas é firme na sentença: “Não podemos continuar assim”. O regresso gradual do turismo é a única solução de curto prazo que vislumbra, mas a receita, aí, não volta ao passado. Por isso “temos de agarrar já alternativas de médio e longo prazo”. Mas de “forma estruturada”. Para isso, resume Sam Tou, é preciso “clareza nos planos, na regulamentação, na definição de taxas…”, porque o investidor “tem de saber que vantagens tem em colocar o dinheiro em Macau e na Grande Baía – em vez de o fazer no Brasil, Portugal ou em Espanha”. 

Mudança

O fator decisivo é o da “mudança”, remata Angus Cheong. “Não vamos voltar ao passado; Macau tem de mudar… andámos anos a falar da ligação aos países de língua portuguesa, mas era só conversa. Temos de passar a agir. No contexto da integração de Macau na Grande Baía, temos de fazer coisas em concreto, que realmente liguem os países de língua portuguesa à Grande Baía. Temos de abraçar essa oportunidade.” 

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