A virtual.connect, conferência internacional online da Virtual Educa sobre educação e tecnologia, arranca amanhã e estende-se até 23 de Julho. O seu diretor-executivo, Adelino Sousa, caracteriza o momento atual gerado pela covid-19 como “raro” e diz que agora é possível “tomar medidas mais ousadas para revolucionar o sistema de ensino”
Professores de inúmeras universidades e outras instituições centro e sul-americanas, mas também de Harvard, Estrasburgo, Cantão, Singapura, Barcelona, Porto ou Coimbra participam como oradores na conferência online virtual.connect da Virtual Educa, que arranca amanhã e vai até 23 de Julho. O evento vai ter os ministros da Educação de Portugal e Espanha, Tiago Brandão Rodrigues e Isabel Celaá, na sessão de abertura (amanhã pelas 14h).
Desde Março que o diretor executivo da Virtual Educa, organização dos estados americanos que tem sedes em Washington e em Madrid, é um português: Adelino Sousa (à direita na foto), 46 anos, natural do Porto. Em entrevista ao PLATAFORMA, Sousa diz que “esta geração está preparada para o online, os governos e os professores é que não estão e precisam de ter ajuda e de ser formados”.
Comecemos pelo conceito desta conferência. O que é que podemos esperar destes três dias?
Adelino Sousa (A.S.) – Este será o maior fórum de discussão pós-covid no âmbito da educação e tecnologia, em que mais governos vão estar juntos, mais professores de vários continentes participarão. Vamos ter mais de 100 mil professores a assistir online e fizemos entretanto uma aliança com a rede de televisões educativas da América Latina, onde vamos transmitir também um resumo do evento para quem não tem internet. Acreditamos que vamos chegar a mais de 500 mil professores neste primeiro evento. O que pretendemos é que se fale das melhores práticas mas também das que não têm corrido bem, para que evitemos erros maiores.
Disse numa outra entrevista recente que este é o momento para ousar e para fazer coisas novas. O que é que podemos esperar que apareça de novo nesta conferência?
A.S. – O que vai aparecer são muitas soluções para os governos que têm medo do modo como a educação pode ir completamente para o online. Vão aparecer soluções de empresas que vão dizer assim: “Se quiser suportar todo o seu ensino para que seja online, existem soluções de tecnologia”. Existem soluções para que se possa ter um modelo híbrido e acho que este vai ser um momento em que os governos vão estar mais confortáveis para esses modelos, porque é um meio termo. Era preciso uma revolução para ir completamente para o online, se calhar nenhum país está preparado para o fazer, mas se ficarmos mais próximos desse momento damos um salto grande. Se pensarmos nos jovens que se irão formar nesta geração, o trabalho deles será todo praticamente online, eles estão acostumados. Esta geração está preparada para o online, os governos e os professores é que não estão e precisam de ter ajuda e de ser formados. São raros momentos em que o povo está mais permissivo para que se possa errar. O que é que isto significa na prática? Que se podem tomar medidas mais ousadas para revolucionar o sistema de ensino. Vamos ver se alguns governos vão querer fazê-lo, porque há sempre muito medo.
Vê este momento da pandemia de covid-19 mais como uma crise para educação ou como uma oportunidade?
A.S. – Eu que sou um paranoico positivo, diria que é uma oportunidade, mas tentando ser mais isento digo que é uma oportunidade para os governos fazerem aquilo que não fizeram na educação – porque não conseguiram mobilizar sindicatos, professores, porque não conseguiram mobilizar os próprios pais. Os pais hoje têm umas perspetiva da educação completamente diferente daquela que tinham há uns meses, porque os pais são os segundos professores atualmente. É o momento para revolucionar e são as formas de fazer isso que vamos discutir.
A Virtual Educa é uma instituição com atividade muito focada na América Latina e no Caribe. Como é que esta conferência veio parar a Portugal?
A.S. – Este congresso mundial deveria ter acontecido [fisicamente] em Portugal no início de Julho e foi adiado para o final de Novembro. O objetivo de estar em Portugal tem a ver com a cooperação sul-sul: nós acreditamos que será mais fácil chegar a África e passar boas práticas para África através da América Latina do que a partir do eixo europeu, porque estão em estados de evolução mais próximos, e mais próximos do que aquilo que parece em termos de cultura e de necessidades. O objetivo em colocar aqui o congresso mundial, foi permitir a Portugal assumir um pouco a liderança de trazer uma nova abordagem de partilha de experiências de educação e tecnologia. O conceito inicial é: podemos ajudar África através dos melhores exemplos que a América Latina tem trazido para o mundo, e têm sido muitos na introdução de tecnologias na educação. Inclusive a Europa devia olhar mais para eles. No Uruguai, por exemplo, o programa de educação, que é um programa de igualdade social, entrega tecnologia já há cerca de 15 anos continuamente.
O que destaca destes três dias de programação online com diferentes eventos e conferências?
A.S. – Temos perto de 300 apresentações, desde representantes de universidades, o diretor mundial da OCDE para a área da educação, Andreas Schleicher; temos o professor [Sampaio da] Nóvoa… Um professor que queira perceber o que de bom se faz e os desafios que a educação tem neste contexto de pós-pandemia, este é o evento onde deve estar. Um dos grandes esforços de toda a minha equipa foi fazer com que este evento fosse completamente gratuito para os professores do mundo inteiro – e conseguimos, faz parte do nosso compromisso e missão. Neste caso saímos um pouco daquela que é a nossa região mas o evento, apesar de ser mundial, acaba por ser centrando na relação que temos com os governos do México, Colômbia, Bolívia, Peru e muitos outros.
Há algum contributo asiático para esta programação e discussão?
A.S. – Temos uma participação da China, para haver uma perspetiva pós-covid chinesa. Temos também um key-note de um orador de Singapura, Dickson Tang. Não temos tradição na Ásia Pacífico, mas quis trazer alguém para falar um pouco sobre o que se está a viver lá e para podermos aprender.
Como tem sido esta experiência de estar como diretor executivo da Virtual Educa?
A.S. – Estou com a Virtual Educa há 10 anos. Em Março morreu o fundador da Virtual Educa [José María Antón] em Madrid, vítima de covid-19. Foi aí que me convidaram para assumir a direção executiva e tem sido uma montanha russa. A Virtual Educa tinha um modo de financiamento para suportar tudo o que faz através da organização de eventos físicos e tudo isso acabou. Aqui a perspetiva foi como continuar a ser relevante neste contexto de pandemia. Não demorámos a muito a reagir mas os webinars não são “a minha praia”, porque a Virtual Educa está habituado a fazer coisas grandes e relevantes. Por isso demorámos quatro a meses a montar esta conferência, uma equipa de 20 e tal pessoas. É um meio novo, não sei o que vai dar. Mas a realidade é que, se não ousarmos fazer nada, nada acontece.