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À procura da cultura desconhecida perto de nós

O recente surto da silenciosa Covid-19, que colocou a indústria do turismo mundial em pausa, serve também como um teste para o governo mais rico de toda a Ásia. Durante o pico da pandemia, todos os países fecharam as portas aos visitantes. Os governos de regiões vizinhas como Hong Kong e Taiwan, onde a situação já acalmou, estão agora a promover o turismo local para tentar reduzir os prejuízos. Este mês a Direção dos Serviços de Turismo de Macau lançou o programa “Vamos! Macau!”, tentando pelo menos recuperar alguma da procura turística local. Os 15 roteiros disponíveis estão divididos em comunitários e de lazer. Os roteiros comunitários abrangem locais paisagísticos e naturais, tal como o centro histórico de Macau. Os roteiros de lazer incluem apresentações como equipamentos de aviação e produção de energia. 

Consegue o panorama cultural e turístico de Macau, assim como a respetiva herança, corresponder às necessidades e expectativas do mercado turístico local?

“Em termos turísticos, no que diz respeito ao património cultural, foi seguido o roteiro tradicional. Penso que o Governo nunca foi muito inovador neste aspeto”, diz Clarie, responsável pelo pequeno grupo turístico “Little Nomad”. Criado há mais de um ano, este grupo especializou-se em roteiros alternativos, incluindo viagens a destinos menos populares como Irão, Cáucaso e Ásia Central. No mesmo dia em que a Direção de Turismo anunciou os roteiros locais, este grupo lançou no Facebook uma campanha de criação de roteiros turísticos, pedindo ao público que sugerisse um tema para um 16º roteiro que apele à população de Macau. 

“Se estamos a falar de turismo local, não podemos ignorar a opinião pública. Para mim, o maior desafio é redefinir Macau como um destino turístico para os locais. Espero que esta iniciativa sirva de oportunidade para uma reflexão geral e para a avaliação dos nossos recursos.” Durante o evento, várias pessoas fizeram sugestões não relacionadas com os roteiros já definidos, incluindo visitas a edifícios modernos e em ruínas. Clarie acredita que estes são também recursos turísticos importantes que têm sido ao longo do tempo ignorados pela indústria local. A própria definição da herança cultural de Macau é também uma forma de emancipação da comunidade local. 

Além de um planeamento turístico com base em estudos, a experiência de vida local faz também parte do património cultural imaterial de Macau. Nesta rota são ainda incluídos workshops de culinária de pastéis de nata e peixe salgado. Monica, guia há cerca de 5 anos, acredita que as autoridades responsáveis deveriam aumentar a profundidade e os objetivos destes roteiros.

“Detalhes como o planeamento destes workshops, indicam que direção procura melhorar a experiência turística dos participantes. Devido ao tempo limitado, existe alguma pressão sobre os guias turísticos, porém acredito que com o tempo estes ficarão naturalmente cada vez mais familiarizados com a história e cultura dos roteiros. Além da escolha dos mesmos, não nos podemos esquecer da experiência dos guias turísticos. Afinal de contas, esse aprofundamento dos roteiros não está necessariamente relacionado com os tradicionais conteúdos turísticos do passado”, afirma. 

Para Monica, estes 15 roteiros não são muito congruentes e não refletem corretamente a herança cultural da cidade. No entanto, compreende que esta é apenas uma medida do Governo de Macau para apoiar a indústria turística da região administrativa especial. “O mais importante destes planos é a vontade da população em participar e redescobrir a comunidade onde vive e está integrada. Esse é que é o principal ponto positivo” da iniciativa, acentua.

Lei Chinpang, comentador cultural e amante de viagens, afirma que estes 15 roteiros poderiam ter sido mais específicos, não tendo um posicionamento de mercado muito claro. Especialmente tendo em conta que este ano se assinala o 15º aniversário da entrada do Centro Histórico de Macau para a lista de Património Cultural da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) alguns elementos da cultura da cidade poderiam ter sido adicionados. 

“Vale a pena promover também passeios por zonas militares já reaproveitadas por instituições privadas, cemitérios, zonas de valor cultural, tal como toda a linha costeira, oferecendo algum conhecimento sobre o desenvolvimento urbano da cidade”, sugere.

Embora Lei Chinpang acredite que estes roteiros possam ser um pouco desinteressantes e pouco adequados para o público e famílias, podem ser do interesse de estudantes, amantes de arte e da classe média em geral. Os roteiros turísticos tradicionais podem assim ser explorados de uma forma mais inovadora. Mesmo sendo tours com as quais as agências de viagens não estão acostumadas a lidar, o comentador sugere que seja estabelecida uma cooperação com instituições privadas, pois estas são as que possuem mais experiência na área de roteiros turísticos temáticos. 

Quer seja devido à possibilidade de explorar novas rotas, os problemas de implementação das rotas existentes ou à experiência das organizações locais na promoção de alternativas turísticas, existe atualmente uma oportunidade de reexplorar os valores culturais de Macau. Viajar não é apenas uma experiência visual, é também uma exploração da imaginação cultural. Como encontrar um novo horizonte no caminho de sempre, este deve ser o objetivo cultural da população de Macau.

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