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“Vamos todos ficar diferentes…”

Arsénio Reis*

Nesta primavera nasceram ansiedades. Nasceram e cresceram com o confinamento obrigatório a que o mundo foi sujeito. Ansiedades pessoais, coletivas, por país, por continente, por todo o mundo.

Não estamos ainda todos na mesma fase da pandemia (não quero dizer paranóia). Há os que já ensaiam o desconfinamento e os que ainda lutam contra o crescimento impetuoso da covid-19.

No discurso político as notas de normalidade, a bem da economia, convivem com a imposição de regras rígidas sentidas por todos os que pretendem e precisam de usar o espaço público. Parece que nada bate certo. Já não podemos ficar “entrincheirados” em casa a combater o vírus à janela, mas também não podemos mostrar a cara na rua, sem as proteções que nos fazem “perder a face”.

Pessoal e profissionalmente, fomos mantendo os custos, mas perdemos a receita que nos orientava a rotina do dia a dia. Somos esmagados pela aparente força dos números. Dez milhões de infetados em todo o mundo, um aparente crescimento preocupante na China, o que leva as autoridades de Pequim a confinar milhão e meio de pessoas, as mortes crescentes no Brasil e o crescimento na região de Lisboa e Vale do Tejo, que suja a fotografia de Portugal como país previdente e organizado. Este último facto permitiu esta semana ao “El País” fazer um título severamente condenado e criticado pelo governo português. Escreveu aquele jornal: “Portugal reconfina la Gran Lisboa”. O que levou o ministro dos negócios estrangeiros, Augusto Santos Silva, a lembrar que isso é “totalmente falso”, pedindo, no seu estilo, ”a correção devida com a urgência e a publicidade que essa falsidade exige”. O que acabou por ser feito pelo “El País”.

Perante isto, há os que como eu procuram o refúgio da ciência. Mesmo aí – nesta primavera – cresceram incertezas. Há especialistas a garantir que a pandemia está a evoluir de forma normal, aquase de braço dados com os que parecem anunciar uma segunda vaga. E há até especialistas, da Organização Mundial de Saúde, a prever o pior para os próximos meses. Foi o que fez Ranieri Guerra, sub director geral da OMS, ao admitir que o covid-19 pode ser como a gripe espanhola que “perdeu força no verão e voltou ferozmente em setembro e outubro, causando 50 milhões de mortes durante a segunda vaga”.

A comunicação social vai dando conta de mudanças sociológicas (ainda não sabemos se duradouras), como o aumento do número de divórcios, da violência doméstica, das necessidades dos mais necessitados, do número de gente sem trabalho e até de um ou outro ato de desespero como o do ator Pedro Lima.

“Penso na morte da raça humana”, disse recentemente Bob Dylan, numa rara entrevista…pensamos todos, julgo eu, que com esta pandemia a raça humana pode pelo menos precisar de muitos cuidados, não necessariamente – nem só – dos serviços mundiais de saúde.

*Diretor do Plataforma

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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