Início » O Capitalismo que não houve e o Anticapitalista que não há

O Capitalismo que não houve e o Anticapitalista que não há

João Cotrim de Figueiredo

Em tempos recentes, vários países ocidentais têm assistido à mutação do cenário político tradicional. Movimentos nos extremos do espetro, tanto à esquerda como à direita, ganham aderentes e influência. Ansiedade económica, desigualdade de oportunidades, deficientes serviços públicos e episódios de corrupção resultaram na perda de confiança no status quo. E a incapacidade de vários governos durante a última década de lidarem com estes assuntos de forma satisfatória levou a que a culpa seja atribuída ao mercado e ao comércio livre. Apesar das suas diferenças, os extremos à esquerda e à direita acabam por ter um inimigo em comum: o Liberalismo.

Esses extremistas acreditam que o problema das sociedades ocidentais radica na liberdade – nomeadamente na liberdade económica. Aos olhos deles, os liberais são apoiantes acéfalos das economias ‘selvagens’, nas quais as elites prosperam à custa dos mais pobres.

Na sequência da crise económica em 2008, vários governos, autoproclamados defensores da economia de mercado, aplicaram medidas de austeridade – nomeadamente cortes na despesa e aumentos de impostos – enquanto injetavam dinheiro público em bancos privados ou se viam envolvidos em casos de corrupção. Ao mesmo tempo, eram incapazes de diminuir as desigualdades existentes na sociedade. Isto contribuiu para a ideia de que o ‘capitalismo’ favorece as elites e esquece os mais desfavorecidos, que pretende acabar com o estado social e construir uma economia apenas para os mais ricos.

Aquilo a que muitos chamam o ‘livre mercado capitalista’ é, na verdade, um modelo de capitalismo de compadrio – algo que nenhum liberal defende.

Esta argumentação não faz qualquer sentido, mas tornou-se comum nas críticas ao sistema capitalista e da economia de mercado. Contudo, para entender os motivos pelos quais isto não faz sentido, é primeiro deixar bem claro que há uma enorme diferença entre o capitalismo de mercado livre e o capitalismo de compadrio. Sobretudo, é necessário entender a diferença entre um mercado livre e as sociedades ditas ‘capitalistas’ que temos observado em anos recentes.

‘Compadrio’ é um conceito que não é, infelizmente, estranho a quem esteja familiarizado com a cultura política portuguesa. Como o nome sugere, num sistema de capitalismo de compadrio, existe um conluio sistémico entre a classe política e a classe empresarial ou outras forças sociais e económicas. Isto traduz-se muitas vezes em trocas de favores, impunidade das transgressões, ‘amizades’ com grandes interesses, e favorecimentos em círculo fechado. Traduz-se, também, numa sociedade onde os conhecimentos pessoais têm mais valor do que o mérito de cada um.

Este tipo de sociedade é o oposto daquele que o Liberalismo defende e que o mercado livre produz. Num mercado livre – ou seja, numa sociedade onde as pessoas podem empreender, trabalhar e colaborar em conjunto sem excessiva intervenção do Estado seja pela via fiscal, seja pela via da regulamentação de preços ou dos mercados – a possibilidade de influência política é automaticamente reduzida. A existência de um setor privado independente é a maior garantia contra a impunidade das elites empresariais ou políticas.

Adicionalmente, é essencial sublinhar que na base de uma sociedade liberal e de qualquer mercado livre e justo está a igualdade de oportunidades, um desafio que poucas sociedades se podem gabar de ter vencido. Para os liberais, qualquer modelo que gere uma classe desfavorecida a depender do Estado e outra com recursos suficientes para não depender, não é um modelo aceitável. Isto não é igualdade, nem é justiça – e não existe liberdade na injustiça.

Por isso, aquilo a que muitos chamam o ‘livre mercado capitalista’ é, na verdade, um modelo de capitalismo de compadrio – algo que nenhum liberal defende. Os liberais defendem uma sociedade onde os cidadãos sejam independentes, tenham liberdade de escolha, poder de ter as suas iniciativas, e onde exista uma justiça que funcione de forma transparente, acabando com a impunidade dos poderosos.

A verdade é que a maior parte das pessoas que criticam o Liberalismo dão sucessivos tiros ao lado. Uns porque temem as ideias liberais e lhes dá jeito deturpá-las; outros porque são ignorantes quanto ao que os liberais defendem. Para estes, e para os leitores que tenham genuíno interesse em saber mais, aqui fica o essencial.

O Liberalismo defende uma sociedade de pessoas livres e independentes, responsáveis pelo uso que dão à sua liberdade, seja ela individual, económica, política ou social. Pessoas livres para trabalhar, produzir e criar, e com liberdade para gozar os frutos desse trabalho. Pessoas livres para aceder aos serviços públicos que escolherem, seja a escola dos seus filhos ou o prestador de serviços de saúde.

Em Portugal, um país com uma longa tradição de compadrio e onde o Estado acumula facilmente poder, as ideias liberais vão contra os interesses do sistema. Um sistema que quer manter a sociedade estagnada, o compadrio intocado e o poder longe das pessoas. Se neste cenário ainda há quem queira aumentar a dimensão e o poder do Estado, então há, de facto, quem queira continuar a oprimir as pessoas. Não são é os liberais.

  • Presidente e deputado da Iniciativa Liberal

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website