Início » China disponível para perdoar a dívida ABEL

China disponível para perdoar a dívida ABEL

Mais de 17 por cento do total da dívida dos países africanos tem como credor a China. O número é do Banco Mundial para 2019 e reflete a importância da presença financeira chinesa em África. Mas o perdão da dívida numa conjuntura de crise pode não ser a melhor solução nem para a China… nem para África. 

Numa conjuntura de recessão mundial resultante da pandemia do Covid-19, os países africanos têm multiplicado os apelos ao cancelamento do serviço da dívida, à restruturação ou perdão, o que foi aceite na última cimeira do G20 (de que a China faz parte). No entanto, as condições em que a China dispensa apoio financeiro seguem regras próprias e a última palavra reside em Pequim sobre o caminho a seguir.
A China negoceia os empréstimos de forma distinta da seguida pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) ou pelo Banco Mundial (BM); é em Pequim que se determina se os devedores são ou não suscetíveis do perdão da dívida.
Uma análise publicada esta semana no The Diplomat explicava que os critérios para o perdão da dívida são definidos por um órgão conjunto dos Ministérios das Finanças e do Comércio, do Banco de Desenvolvimento da China e da entidade que financia o apoio às importações e exportações, o China Exim Bank. As mesmas entidades que aprovam a concessão de empréstimos.
Da análise daquela entidade quadripartida depende a sorte da dívida africana à China. Com um detalhe importante: muitos dos empréstimos têm associadas cláusulas comerciais e num momento de recessão internacional – e de importante retração do Produto Interno Bruto (PIB) chinês no primeiro trimestre de 2020 – qualquer quebra nas exportações não será visto em Pequim como cenário desejável.
O que levou no início da semana um porta-voz da diplomacia chinesa a deixar uma resposta cuidadosa a uma pergunta da Reuters sob a exequibilidade de um perdão chinês à dívida africana. “A origem da dívida é complexa e muito variado o perfil dos países devedores (…). Estamos disponíveis para estudar essa possibilidade em conjunto com a comunidade internacional”, disse.
As reticências chinesas resultam precisamente da “necessidade de obter algum retorno dos investimentos”, diz um analista do Overseas Development Bank à Reuters para explicar as reticências de Pequim. “Não é de prever um perdão substancial”, admite.
A diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, considerava na passada semana que Pequim estava a ter uma atitude “construtiva”, ao reconhecer que os chineses se tinham mostrado disponíveis para abordar o tema. Mas apenas de alguns países e no quadro de entendimentos bilaterais, clarificaria posteriormente à Reuters um porta-voz de Pequim, e não de uma qualquer solução global entre os membros do G20 e os devedores. 

“COMPROMISSOS”
O realismo chinês não é de agora. Já em 2018, recordava o texto de The Diplomat, um responsável chinês, numa conjuntura não tão complexa como a atual, sublinhava: “mesmo quando os africanos não nos pagam, continuamos a ter compromissos a cumprir”.
As reticências chinesas ao perdão da dívida africana podem repercutir-se no comportamento dos credores ocidentais e japoneses, sublinhava no final da semana passada o The Wall Street Journal. Por que é que estes credores iriam perdoar as dívidas se as verbas assim libertadas poderiam ser canalizadas para os devedores cumprirem o serviço da dívida à China, escreveu o diário americano.
Em regra, Pequim quando perdoa certas dívidas, esse perdão é seletivo. O texto do The Diplomat explica que a generalidade da dívida perdoada a países africanos, até 2018, foi de empréstimos sem juros ou cujo prazo de pagamento expirara. E de montantes pouco elevados: o equivalente a 5 por cento do total dos empréstimos até àquele ano.
Uma análise do Instituto Brookings, publicada no início da semana, sublinhava precisamente esse ponto, recordando que, em 2018, foi o próprio presidente Xi Jinping a anunciar o perdão das dívidas sem juro de empréstimos intergovernamentais. 

RESPONSABILIZAÇÃO
O processo de revisão da dívida aplica-se a cada empréstimo por si e não ao total da dívida de um país. Um processo complexo, pois os empréstimos não têm uma origem única. Além das entidades oficiais, há outro tipo de instituições, como bancos e empresas, a emprestarem verbas aos governos africanos. Com parâmetros próprios para a renegociação dos empréstimos.
Assim, segundo a análise do Instituto Brookings, numa perspetiva concordante com a maioria dos observadores, mais depressa do que um simples perdão da dívida deve assistir-se, por parte da China, à restruturação e ao recurso a outros mecanismos de conversão dos créditos. Até por uma razão muito simples (mas importante) a que outros credores dos países africanos não podem ser indiferentes: a responsabilização dos devedores.
Lê-se no texto do Brookings: “O simples perdão da dívida não iria encorajar, para a China, a contração responsável de empréstimos pelos países africanos” e as perdas chinesas de hoje iriam “transformar-se em mais dívida africana no futuro”. 

ABEL COELHO DE MORAIS 24.04.2020

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website