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Fábricas têxteis têm matérias-primas para mais um mês

Para já não faltam materiais para as empresas têxteis e de vestuário trabalharem, mas, se a situação se mantiver além de março, é de esperar que as dificuldades apertem. É que a China “foi transformada na fábrica do mundo” e hoje tudo o que são fibras sintéticas, mas também acessórios, como fechos, fivelas, etiquetas, e alguns tecidos, em cru e tingidos, vêm de lá para abastecer as fábricas europeias. César Araújo, presidente da ANIVEC, diz que já a falta de matérias-primas já se começa a fazer sentir, Mário Jorge Machado, líder da ATP, avisa que os stocks vão acabar durante o mês de março. Num ponto um e outro estão de acordo: a Europa tem de repensar a estratégia industrial.

“Se estivéssemos a falar de comida e a China deixasse de nos abastecer a todos, íamos perceber a dimensão do problema. Na verdade, a política agrícola comum (PAC) foi criada nos anos 80 para garantir a autossuficiência da Europa em termos alimentares. Porque não fazê-lo, também, em termos industriais”, questiona Mário Jorge Machado. E acrescenta: a situação com o COVID-19 (designação oficial da doença causada pelo novo coronavírus) “deve fazer-nos pensar se devemos estar tão dependentes de um só país”.

Se a China abrir os portos e começar a expedir mercadorias nos próximos dias, tudo se normalizará rapidamente. Se não, “a situação vai complicar-se lá para o final do mês de março, quando os stocks atuais terminarem”. Mercados alternativos, são a Turquia, Paquistão, Índia, Bangladesh e a Coreia do Sul, entre outros. E a situação italiana? “O problema parece estar confinado ao sul de Milão, a indústria está situada a norte e não está a ser afetada pelo isolamento, estão a laborar normalmente”, diz. 

César Araújo é bastante mais pessimista na análise da situação. “As empresas têm, habitualmente, stocks para 4 a 6 semanas. Chegou-se ao fim de fevereiro, a partir de agora as coisas vão-se complicar. E não é só nas matérias-primas. As lojas na China estão fechadas, as marcas não vendem, vai haver menos encomendas à indústria. Isto vai ser um pesadelo”, acredita. 

Para já, os industriais dispõem dos “instrumentos adequados” para fazerem frente à situação, seja antecipando férias, seja recorrendo ao regime de adaptabilidade de horário, considera. Foi o que fez na sua empresa, a Calvelex, que fechou duas semanas para férias. Retomou a laboração a 28 de fevereiro. E terá maior flexibilidade ao nível dos recursos humanos logo que tudo regresse à normalidade. 

“A Europa está refém da China por efeito da globalização e isto tem de ser repensado. Não podemos continuar a destruir a indústria europeia”, defende. 

Mas o encerramento das fronteiras chinesas não preocupa, apenas, quem se abastece por lá, mas, também, quem vende para a China. É o caso do grupo Riopele, que vende tecidos para algumas das maiores marcas mundiais, que produzem na China, e que tem o armazém cheio com as encomendas que deveriam ter saído em janeiro e fevereiro. Uma situação que tem efeito em cadeia. Como não expediu não pode faturar o produto, embora já tenha tido os custos todos associados de o produzir. Por outro lado, como ainda não saíram as encomendas que deviam já ter chegado à China, não há novas encomendas a entrar provenientes deste que é o maior produtor mundial de têxteis e de vestuário. 

“A China é o maior mercado de artigos de luxo. Com as lojas fechadas, as grandes marcas internacionais, como a Louis Vuitton, a Prada e outras, estão com vendas 30 por cento abaixo do esperado, pelo menos. “Este dado era do início do mês, quando estive na feira de Paris, a Première Vision”, explica o CEO da Riople. José Alexandre Oliveira acrescenta: “Alguns dos meus clientes já começaram a regressar ao trabalho, nos escritórios, mas as fábricas de confeções continuam paradas”. 

A China vale 3 por cento da faturação anual da Riopele, ou seja, qualquer coisa como 2,4 milhões de euros. 

Lídia Pinto (Dinheiro Vivo) 06.03.2020

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