Religiões africanas perseguidas num Brasil cada vez mais evangélico - Plataforma Media

Religiões africanas perseguidas num Brasil cada vez mais evangélico

A onda conservadora que varreu o Brasil e decidiu as últimas eleições presidenciais tem provocado um aumento de conflitos ligados à fé, com ataques realizados, maioritariamente contra templos e fiéis de religiões de matriz africana do país.

Exemplo disso foi o que se passou no Instituto Céu Estrela Guia, na cidade de São Paulo, um espaço de prática de umbanda, uma religião brasileira que surgiu da mistura de crenças africanas relacionadas com os orixás, da espiritualidade de povos indígenas e do cristianismo.

“Chegámos no Instituto, no dia 28 de janeiro, abrimos o portão e vimos o quadro de luz aberto. Um dos cabos de energia foi cortado e colocado numa árvore, o que poderia ter causado uma descarga elétrica mortal”, contou o pai de santo Deanisson de Angelis, um dos sacerdotes umbandistas do instituto.

“Chamámos a polícia, fizemos um boletim de ocorrência, e vieram aqui alguns peritos”, que “nos disseram que [a sabotagem] tinha a intenção de matar”, acrescentou a mãe de santo Kelly de Angiles.

Dois dias depois deste incidente, o instituto foi de novo invadido por desconhecidos. “Temos de dizer que quem nos ataca está errado e que a Umbanda é uma manifestação da espiritualidade, uma religião, e o que foi feito na nossa casa foi um absurdo”, frisou Kelly de Angiles.

A chegada dos conservadores ao poder no Brasil trouxe novos receios às comunidades religiosas de matriz africana porque no Brasil existem poucos mecanismos para proteger os templos de ataques.

Ataques estendem-se a vários locais

Outro pai de santo, Matheus Francisco Pereira, que atua na Associação Espírita União da Umbanda, na cidade de Botucatu, no interior do estado brasileiro de São Paulo, também se queixa de episódios de vandalismo e intimidação aos praticantes umbandistas. Durante cerimónias religiosas têm aumentado as entradas de grupos organizados que tentam insultar os praticantes, explicou.

Os atacantes “costumam dizer que não praticam religião alguma, mas após investigação descobrimos que são evangélicos”, contou o pai de santo, que se diz vítima de preconceito no Brasil por ser sacerdote de Umbanda, com acusações de “macumbeiro”.

Embora o Brasil se autodenomine como um Estado laico, o Presidente da República, Jair Bolsonaro, tem adotado uma forte defesa do que classifica como “valores conservadores da tradição judaico-cristã”, apoiando reivindicações das igrejas evangélicas, cruciais para a eleição.

Damares Alves, pastora evangélica, lidera o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, pasta responsável por criar políticas públicas para evitar ataques religiosos.

A maioria da população brasileira apresenta-se como católica (50 por cento), seguida pelos evangélicos (31 por cento), revelou uma sondagem do Instituto Datafolha, de dezembro de 2019.

A pesquisa apontou que as religiões afro-brasileiras são praticadas por cerca de dois por cento da população, número contestado pelas religiões afro-brasileiras que dizem que muitos fiéis têm medo de sofrer preconceito religioso e apresentam-se como cristãos.

O advogado e ex-secretário da Justiça e Cidadania do Estado de São Paulo Hédio Silva Júnior admitiu que o medo leva as pessoas a não revelarem a fé em religiões afro-brasileiras.

“Um exemplo é o Rio Grande do Sul, onde há cerca de 60 mil terreiros de batuque” (denominação dos espaços para a prática de religiões afro-brasileiras). “Se pensarmos que cada um tem sessões com 50 participantes, estamos a falar de três milhões de pessoas só neste estado. No país todo falamos de milhões de brasileiros”, explicou.

O advogado atribuiu o aumento da intolerância ao crescimento do número de programas de cunho religioso nas televisões. Citando dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine), apontou que quase 25 por cento do conteúdo transmitido nas redes de televisão abertas do país é de natureza religiosa.

“Basicamente estes conteúdos seguem uma narrativa na qual todos os problemas da humanidade são criados pelas religiões africanas: desemprego, falta de habitação, questões de saúde”, entre outros.

Hédio Silva Júnior ganhou ao fim de 10 anos uma ação na justiça brasileira a exigir direito de resposta a programas da rede de televisão Record, controlada pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), que associavam religiões africanas ao demónio, transmitindo conteúdo pejorativo como as ‘sessões de descarrego’, que simulam exorcismos de maus espíritos.

A Comissão de Combate à Intolerância Religiosa indicou que o Brasil registou em 2019, pelo menos, 200 ataques contra seguidores de religiões de matriz africana, o dobro em relação a 2018, situação que reflete o crescente fanatismo religioso no país.

Um balanço realizado pelo Disque 100, um canal de denúncias do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, no primeiro semestre de 2019 (último dado disponível), houve um aumento de 56 por cento no número de denúncias de intolerância religiosa em

Exclusivo Lusa/Plataforma Macau 06.03.2020

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