E depois do adeus - Plataforma Media

E depois do adeus

30 de setembro foi o último dia como vice-coordenadora da Frente Cívica de Direitos Humanos. Bonnie Leung despede-se do cargo depois de cumprir os dois mandatos consecutivos (limite estatutário) à frente da associação responsável pelas maiores manifestações pacíficas da história de Hong Kong. Dados da organização, contestados pela polícia, apontam para um milhão no protesto a 9 de junho, dois milhões a 16 e 1,7 milhões a 18 de agosto, esta última proibida. 1 de outubro – quando se assinalaram os 70 anos da República Popular da China – era previsto ser o pior dia desde que a contestação começou há quase quatro meses. E foi. Na véspera, a ativista de 32 anos ainda não sabia o que fazer. Temia ser presa. “Estou disposta a sacrificar-me, mas não agora”, confessava ao PLATAFORMA. Acompanhamos um dos principais rostos do movimento contra o Governo de Hong Kong na primeira vez que saiu à rua sem o peso do cargo, mas com o peso do contexto.

Na véspera, assumia estar nervosa depois de os protestos convocados para terça-feira não terem sido autorizados. “Claro que estou preocupada. O que a Frente Cívica tem feito é criar uma zona de segurança para a população se expressar, que está a ser limitada pela polícia e pelo Governo. A raiva só vai crescer”, receava. Estava dado o primeiro aviso: “Estimamos que a situação amanhã (terça-feira) será muito, muito perigosa”, alertava o principal responsável de polícia, John Tse, em conferência de imprensa. “Os manifestantes radicais estão a aumentar o nível de violência. A gravidade e a amplitude da violência e os seus planos mostram que estão cada vez mais envolvidos em atos de terrorismo”, dizia Tse. A 29 de setembro, o 17º domingo consecutivo de protestos, as autoridades voltavam a disparar balas verdadeiras para o ar. Os polícias diziam ter sido obrigados a fazê-lo porque os tentavam atacar. O mesmo aconteceu a 1 de outubro, desta vez com um manifestante alvejado. Hong Kong enfrenta a mais grave crise política desde a transferência de soberania, em 1997. O turismo caiu a pique numa cidade onde as manifestações se tornaram rotina. “Vamos continuar até que sejam atendidos os cinco pedidos”, vincava Leung. O Governo concedeu um e retirou a proposta de alteração da Lei da Extradição, que esteve na origem dos protestos. Mas não chegou. “O nosso último objetivo é o sufrágio universal”, reiterava. Há poucos dias estava nos Estados Unidos da América (EUA) para apelar a que ajudem a corrente democrática da região. Sobre a idoneidade de Donald Trump para contribuir para a causa, comentava que o movimento irá recorrer a todos os que possam fazer lobbie. “Claro que tenho as minhas opiniões sobre os políticos de lá, mas os EUA são um importante aliado e o que fazem tem um impacto enorme na comunidade internacional”, justificava.

O início

O interesse pela política começou antes, mas ganha contornos mais sérios em 2003, então com 16 anos, na altura dos protestos contra a Lei de Segurança Nacional que o Governo quis aprovar e integrar na Lei Básica, como aconteceu em Macau. Ainda na universidade, enquanto estudava Tradução e Interpretação, candidata-se a um estágio no Civic Party. Trabalha como assistente política de Alan Leung, membro do Conselho Legislativo (LegCo) durante oito anos, que a levaram a concluir que ser deputado é insuficiente. “Só podem servir como guarda-redes. E se precisarmos de marcar?”, lançava. É aí, dizia, que entram em campo os movimentos sociais. O dos Guarda- -Chuvas, em 2014, foi o que a inspirou a inscrever-se na Frente Cívica. É a ovelha negra na família pouco politizada e com quem, confessava, nunca discute política, nem mesmo agora. “Neste tema, foi a sociedade que me educou. Não se opõem. Entendem que a política é muito importante para mim e que proteger direitos é muito importante para a sociedade. Preocupam-se comigo porque sabem que há riscos, mas também sabem que não me podem deter”, afirmava. A preocupação é mútua. Quando lhe pedimos para a seguirmos na marcha de 1 de outubro, a ativista aceitou com condições: não nos encontraríamos em casa nem perto, e nada a respeito da família. Medo?, perguntámos. “Sou uma pessoa muito privada e não quero a minha vida exposta”, desvalorizava, para logo acrescentar: “Se me sinto assustada? Já muita gente foi detida, presa, acusada. Ninguém está a salvo e toda gente está em perigo.” Nunca foi crítica – respeitando a regra de unidade do movimento – mas sempre se manteve afastada das ações mais violentas. “Há alturas, como aconteceu a 12 de junho, que meios mais agressivos são necessários. Sem a coragem dos manifestantes, a proposta de lei teria sido aprovada. Há outras alturas em que os protestos pacíficos são necessários e úteis. Sem a garantia de que os participantes estão legal e fisicamente seguros, não teríamos um milhão de pessoas nas ruas como aconteceu a 9 de junho”, contextualizava. Desde junho que o risco é calculado pelo peso do cargo que ocupou até à passada segunda-feira, mas acredita que não seria diferente se fosse anónima. “Dificilmente me envolveria em cenas mais violentas. Defendo sempre a desobediência pacífica, como aconteceu com o Movimento dos Guarda- -Chuvas”, salientava. No balanço dos dois mandatos como vice-coordenadora da organização, Bonnie Leung orgulha-se de ter ajudado a Frente Cívica a crescer. “Antes era um movimento local. Hoje tem a atenção da comunidade internacional. Ficou bem claro a responsabilidade que isso acarretava. Fiz o meu melhor.”

1/10/2019

Macau. Manhã cedo. Dia limpo. Calor. Faz lembrar o verão, férias, descanso. A cidade estava calma. Uma calma anormal para a hora em dia de semana mostrava que era um dia diferente. 1 de outubro. Dia Nacional. No caminho para o ferry passavam civis com bandeiras chinesas. O Banco da China, na Praça Ferreira do Amaral, e que em tamanho só o supera o vizinho Grand Lisboa, tinha duas enormes faixas penduradas a assinalar a data. Na frente do edifício, outras duas estruturas com as frases “I love Macau” e “I love China”. O bom filho a ser bom filho. Da margem oposta do Delta so Rio das Pérolas, o cenário era outro.

12:00

Em Hong Kong, o dia também estava limpo, o calor era igual, mas não se respirava a mesma paz. Começam a aparecer os primeiros avisos de que não é só mais um dia. A empresa que gere o metro anuncia o encerramento de estações que ao fim da jornada chegariam às 47. As autoridades também suspenderam autocarros e bloquearam estradas por motivos de segurança. Saímos em Tin Hau porque Causeway Bay foi fechada. No percurso a caminho do ponto de encontro com Bonnie Leung o negro monopoliza a palete de cores.

12:50

Bonnie Leung espera-nos em East Point Road. Herdou a pontualidade do país que colonizou a terra que a viu nascer. É também aos britânicos que os manifestantes agora pedem que ajudem Hong Kong a ter o que os antigos colonos nunca lhes deram: poder escolher quem os governa. Faltam dez minutos para começar a marcha indeferida pelas autoridades. 1 de outubro é um dia especial para a China. Será que algum dia vai ser para Hong Kong? “Neste momento, acho muito difícil”, responde Leung, ainda que recorde que a relação nem sempre foi tensa. Foca-se em dois momentos: o terramoto de Sichuan, quando a população de Hong Kong mobilizou fundos e voluntários, e os Jogos Olímpicos, evento que também orgulhou a região. “E isto foi apenas há 11 anos. Veja-se como estamos agora. Se respeitarem o nosso sistema, tentarem reconstruir uma relação de benefício mútuo e recuperarem a confiança das pessoas, quem sabe se não pode voltar a haver espaço para essa relação de afeto. É mais fácil destruir do que reconstruir e eles definitivamente destruíram.”

13:39

Já em andamento, Bonnie Leung mostra-se impressionada com o volume da manifestação. “Quantos mais formos, mais seguros estaremos”, diz. “Aqui está a prova que não nos podem deter. Estão milhares na rua apesar de o protesto não ter sido autorizado. É a prova do risco que estamos dispostos a correr”, comenta. Um risco que também ela pesou. “Não quero dizer que estou num protesto porque se o disser é como se assumisse que toda esta gente está a violar a lei. Descrevam-no como quiserem. Posso estar a fazer compras, a passear. Certo é que estou com as pessoas de Hong Kong”, finta. Termina e junta a voz à da multidão que canta a música que se tornou o hino do movimento,“Glory to Hong Kong”, e grita “Dá-lhe gás”, em chinês, e “Cinco exigências ou nada”, em inglês com a mão ao alto bem aberta. Vários dos participantes param assim que se ouve um helicóptero que sobrevoou a cidade durante a marcha. Encostam-se às bermas e abrem os guarda-chuvas. “Isto é Hong Kong agora. Vemos um helicóptero e ficamos alerta”, lamenta. “Mentiria se dissesse que não estou preocupada. Os confrontos são quase inevitáveis. Espero que a polícia se contenha”, desabafa. Ao longo do percurso veem-se cartazes, autocolantes, slogans que se tornaram símbolos identitários de um movimento que agora tem o Governo central como principal inimigo. A bandeira da China é uma das vítimas das ofensas entre pinturas e frases, como “Chinazi”, que substituem os originais. “Não odiamos tudo o que vem da China”, esclarece a ativista. “Apenas rejeitamos quem não respeita o nosso sistema”, vinca. Entretanto, aparecem mais símbolos que se tornaram parte dos protestos: bandeiras de vários países, como a dos EUA, e a colonial. “Não posso falar por eles. Mas acho que é uma forma de chamar a atenção desses países”, supõe. Confrontada com a contradição de exibir a bandeira colonial e a democracia que pede o movimento, Bonnie Leung afirma: “Pelo menos, na altura da administração britânica, havia Estado de Direito, e um sistema que respeitava direitos humanos e liberdades”. “O Governo sabia governar. Chris Patten [último governador de Hong Kong] foi o político mais popular da historia da região. Prezamos bons líderes que realmente se preocupam com a cidade, independentemente da nacionalidade. O que vemos agora é que a situação só piorou desde a transição”, defende. Os gritos sobem de tom quando os manifestantes avistam alguns dos seis mil polícias espalhados pela cidade. Estes estavam numa das pontes aéreas na zona do metro de Wan Chai. De verde, cara tapada e capacetes metidos, não reagem aos insultos verbais e gestuais. Mais à frente um homem que aponta para a cintura e avisa, segundo Bonnie Leung, que tiremos as t-shirts para fora. Isto porque, explica ao PLATAFORMA, alegadamente os polícias que tinham disparado dias antes estavam à paisana e levavam as armas debaixo do que tinham vestido. Assim, acrescenta, é uma forma de identificar os verdadeiros manifestantes. “Vamo- -nos adaptando e respondendo ao que acontece”, reforça. “Se o objetivo é realmente controlar a multidão para quê usar armas que podem matar? Já têm tantos outros meios, e isso só faz com que se incite ao medo e a mais violência”, condena. Na mesma altura caem notas. O mote para 1 de outubro em Hong Kong foi “Dia de Luto”. “Quando velamos um corpo, atiramos dinheiro”, refere. Mais uma paragem desta vez porque um grupo se aglomera no passeio. Suspeita-se de gás lacrimogéneo, mas Bonnie Leung aproxima-se e percebe que se deve aos graffiters. “São sempre rodeados por outros manifestantes que abrem os guarda-chuvas para que não sejam identificados. “Protegemo- -nos uns aos outros”, sublinha. Estamos a chegar a Central, onde termina a última marcha que ajudou a organizar como vice-coordenadora da Frente Cívica. Além de deixar o cargo, também adianta ao PLATAFORMA que não se vai recandidatar como conselheira de distrito nas eleições de novembro, por motivos de saúde. “Tomei a decisão há um ano portanto não tem nada que ver com isto”, faz questão de frisar. Ainda não sabe o que vai fazer, mas considera trabalhar com Organizações Não Governamentais, de Direitos Humanos ou ambiente, outro tema que lhe interessa.

15:39

Antes da meta, passamos pelo Banco da China, que no cimo exibe um ecrã com a bandeira da RPC. Se o presidente a ouvisse, dir-lhe-ia que “a população de Hong Kong tem uma natureza pacífica”. “As pessoas estavam habituadas a preocupar-se com a China e acreditávamos no princípio Um País, Dois Sistemas. Chegámos aqui porque a China o desrespeitou”, lamenta. A Xi Jinping, pede respeito e o mesmo amor que a Mãe Pátria pede a Hong Kong. “Costumam dizer que a China é a mãe e Hong Kong o filho. Seja uma boa mãe que nós seremos um bom filho.”

Em legítima defesa

As autoridades voltaram a disparar balas reais e atingiram um jovem no peito, que se encontra em estado estável. “As forças policiais não queriam ver ninguém ferido. Ficamos muito tristes com isso”, lamentaram as autoridades. “Por volta das 16:00, um grande grupo de manifestantes atacou polícias perto da estrada Tai Ho e prosseguiram com o ataque até as autoridades os avisarem para parar. Como um dos polícias sentiu que a vida estava sob séria ameaça, disparou contra o agressor para se proteger a si e aos colegas”, realçou a superintendente Yolanda Yu Hoi-kwan, num post no Facebook. Outros responsáveis da polícia de Hong Kong, citados pelo jornal South China Morning Post, afirmaram que o uso de balas reais foi proporcional ao nível de agressão e aconteceu em autodefesa. Ao longo do dia, os manifestantes bloquearam estradas, incendiaram veículos, vandalizaram lojas, destruíram escritórios governamentais e arremessaram bombas de fogo e pedras contra a polícia. As autoridades acusam os manifestantes de terem usado um líquido corrosivo que queimou a pele de agentes e jornalistas. Os confrontos resultaram em 117 feridos e perto de 270 detidos.

Xi promete respeitar Hong Kong

O presidente promete continuar a respeitar a autonomia de Hong Kong. “Continuaremos a respeitar plena e sinceramente (…) o alto grau de autonomia” do território e “agiremos em estrita conformidade com a Constituição e a Lei Básica”, garantiu Xi Jinping, na véspera do Dia Nacional. Já em Hong Kong, no dia 1, o líder interino da região afirmava, durante as comemorações dos 70 anos da China, que o território estava irreconhecível por causa dos violentos protestos de que a cidade é palco há cerca de quatro meses. Altos funcionários do Governo de Hong Kong e cerca de 12 mil convidados assistiram, a partir do Centro de Convenções e Exposições, à cerimónia do hastear da bandeira do país, que decorreu na praça da Bauhinia Dourada, junto ao Centro. O secretário para a Administração de Hong Kong, Matthew Cheung, que falou em representação da Chefe do Executivo, sublinhou o compromisso do Executivo em apaziguar a crise e prometeu uma nova abordagem para resolver as questões sociais que estão na base da contestação.

Catarina Brites Soares 04.10.2019

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