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O Presidente que vai dividir

Polarização política, desilusão com a corrupção e o descalabro do Estado. Uma campanha eleitoral recheada de polémicas na qual as notícias falsas foram mais comentadas do que debates e propostas. Estas são as principais marcas da eleição presidencial do Brasil que terá o desfecho final depois de amanhã. 147 milhões de eleitores vão escolher quem será o novo chefe de Estado.

A campanha contrariou grande parte dos analistas, que previam a eleição mais concorrida desde a redemocratização do país, em 1989, dado o envolvimento de políticos em escândalos de corrupção e os efeitos de uma grave crise económica. A bipolarização tornou-se numa das marcas mais fortes da disputa eleitoral brasileira de 2018.

Para Luiz Antonio Dias, historiador e professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a adesão dos eleitores a dois polos opostos – a extrema-direita representada pelo candidato Jair Bolsonaro do Partido Social Liberal (PSL) e a esquerda progressista personificada por Fernando Haddad do Partido dos Trabalhadores (PT) – não foi uma surpresa.

“Nesta eleição existiu um certo sentimento de desesperança. Tem-se a impressão de que tanto do lado do Partido dos Trabalhadores quanto do lado de Jair Bolsonaro, muitos eleitores votaram em quem acreditaram ser um mal menor”, vincou. 

“Quando você aponta o autoritarismo do Bolsonaro, a defesa que faz da tortura e os ataques aos direitos humanos, seus eleitores quase sempre alegam que o PT destruiu o país. Portanto, votar nele seria um mal menor. No lado inverso acontece a mesma coisa. Há eleitores que optaram pelo Fernando Haddad contra o mal maior que seria a candidatura do Jair Bolsonaro.”

Já Edson Nunes, professor e cientista social da PUC-SP, disse acreditar no contrário, e defende que a política passou a fazer parte do dia a dia dos cidadãos e fortaleceu a democracia. “Nunca a adesão à democracia, que é um índice de cultura política universalmente aceite, foi tão alta no Brasil como neste ano”. Para o académico, “a eleição está trazendo como novidade o protagonismo do povo desvinculado de partidos, das associações, ou seja, o protagonismo da massa dos trabalhadores que ficou extremamente indignada com os procedimentos políticos de obtenção do poder e os mecanismos de corrupção”.

“Quem olha o resultado da primeira volta vê que o eleitor quis dois objetivos e conseguiu alcançá-los: quis punir a corrupção e candidatos envolvidos em esquemas de corrupção que não foram eleitos. Houve também um aumento da politização e do sentimento de solidariedade coletiva para uma renovação política que de facto aconteceu”, sublinhou.

Sobre a divisão dos brasileiros em campos distintos, o cientista social da PUC considerou tratr-se de um fenómeno provocado pelos partidos e candidatos.

“Este quadro de polaridade no Brasil foi alimentado pelo PT que precisou dele para justificar a continuidade na cena política. Para o PT foi vital construir uma polarização. Para o Bolsonaro isto também foi vital. Sem a polarização, o eleitor iria buscar uma renovação de centro”, defendeu. 

Quer o PT quer Bolsonaro quiseram a polarização para “excluir uma terceira via”. “Acreditavam que só poderiam viver saudando seu passivo eleitoral, ou seja, ao PT interessava explorar fraqueza do Bolsonaro que é a crueza e sua falta de sofisticação pessoal. Já a Bolsonaro interessava frisar o mau serviço do PT, envolvido com a corrupção”, destacou.

Fake News 

Depois dos Estados Unidos, o Brasil é o novo palco de disseminação em massa de notícias falsas. Bolsonaro – que defendeu na sua campanha temas morais como religião ou sexualidade e a defesa do neoliberalismo – terá sido beneficiado por notícias falsas que acusavam Haddad de incentivar a homossexualidade entre crianças, o desrespeito aos valores cristãos e teorias da conspiração sobre supostos planos para transformar o Brasil numa ditadura comunista.

A favor da candidatura de Haddad circulam notícias falsas sobre supostos planos de Bolsonaro para acabar com o apoio social aos mais pobres, declarações não comprovadas sobre a promoção de cortes no sistema de saúde e o confisco das poupanças bancárias de trabalhadores brasileiros.

O professor da Fundação Getúlio Vargas (PGV), Francisco Fonseca, considerou que as notícias falsas tiveram um papel fundamental nas eleições, principalmente no final da primeira volta. “O WhatsApp é um universo sem controlo, que está na mão de uma empresa privada. É um terreno de ninguém em que Bolsonaro e seus amigos empresários usaram caixa 2 [dinheiro não declarado à Justiça] para cometer crime eleitoral”, afirmou.

O académico sublinhou que o WhatsApp teve um papel definidor para a formação de opinião da parcela mais pobre da população, e deu como exemplo as mensagens que circularam com uma montagem de um biberão com o formato do órgão sexual masculino como se o PT fosse distribuir o instrumento pelas crianças. “Este conteúdo falso teve milhares de visualizações criando um temor que não foi barrado pelas instituições [judiciais]. Na minha perceção as eleições brasileiras já foram fraudadas”, acrescentou Francisco Fonseca.

O especialista da FGV mencionou denúncias publicadas pelo jornal brasileiro Folha de S. Paulo sobre um suposto esquema de envio de mensagens falsas em massa contra o PT através do WhatsApp que teria sido encomendado por empresários apoiantes de Bolsonaro.

O caso começou a ser investigado pela polícia brasileira e, se a denúncia for comprovada, configura a prática de um crime de abuso do poder económico na eleição, cuja punição pode gerar a desqualificação da candidatura.

Já Edson Nunes, da PUC-SP, considerou que as notícias falsas não mudam a convicção dos eleitores. “Minha hipótese a respeito da notícia falsa é que elas não interpelam a razão do eleitor. Ela interpela fundamentalmente os valores do eleitor de maneira que toda notícia se equivale enquanto narrativa seja ela falsa ou verdadeira”, defendeu. Na sua opinião, “nas redes sociais é mais importante a perceção da criação de laços, a perceção de que o eu não está mais sozinho no mundo, do que o conteúdo de uma informação trocada”.

A disputa 

Em 2018, os episódios mais marcantes da eleição não aconteceram exatamente dentro das práticas comuns da arena política. O ex-presidente Lula da Silva, preso e acusado de participar de esquemas de corrupção na petrolífera estatal Petrobras, era o pré-candidato do PT e líder das sondagens de intenção de voto antes da primeira volta eleitoral, mas viu o registo da candidatura ser negado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Lula da Silva conseguiu junto ao Comité de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) o deferimento de um pedido liminar a favor do direito de participar na corrida eleitoral porque ainda pode reverter sua condenação, mas a maioria dos juízes do TSE considerou-o inapto porque foi condenado em tribunais de primeira e segunda instâncias, condição que viola a legislação eleitoral vigente. Lula da Silva foi substituído Fernando Haddad, que se tornou no candidato oficial do PT e conquistou uma vaga na segunda volta das presidenciais brasileiras com 29 por cento dos votos válidos. 

Jair Bolsonaro, que tinha uma enorme rejeição por defender publicamente posições consideradas racistas, machistas e homofóbicas e de apologia à violência, também viveu um episódio marcante que influenciou o crescimento junto ao eleitorado. O candidato foi gravemente ferido num atentado cometido durante um comício, que gerou grande exposição e despertou uma onda de simpatia. Num mês, o candidato do PSL esmagou todos os concorrentes com quem disputava a preferência dos eleitores conservadores, conquistando 46 por cento dos votos válidos na primeira volta das presidenciais brasileiras.

Nas últimas sondagens sobre a segunda volta, Bolsonaro aparece com vantagem de mais de 18 pontos percentuais ante Haddad e é o favorito para se tornar o próximo chefe de Estado do Brasil. 

Carolina da Ré 26.10.2018

Exclusivo Lusa/Plataforma Macau

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