Início » “O governo chinês não está interessado em acabar com a comunidade católica clandestina”

“O governo chinês não está interessado em acabar com a comunidade católica clandestina”

O sinólogo italiano Francesco Sisci tem confiança no acordo provisório firmado entre o Vaticano e a República Popular da China. Sisci desvaloriza as fortes críticas dos que se opõe ao entendimento, embora reconheça incertezas face ao futuro. Os próximos passos deverão incluir nomeação de bispos e formação de padres, aponta Sisci, académico e comentador residente em Pequim há três décadas.

Plataforma – Nos últimos anos, o Professor Francesco Sisci tem acompanhado todo o processo deste acordo que é histórico. A seu ver, porque é que isto aconteceu agora?
Francesco Sisci: A razão fundamental é por ter havido uma aceleração nos últimos anos. Esta aceleração deve-se ao facto dos chineses perceberem pela primeira vez que o Vaticano não é um pequeno estado no mundo. Assim sendo, se a China se quer fortalecer, investir no “soft power”, não o poderá fazer sem o Vaticano. Esta é a razão do acordo se realizar agora e não há cinco ou vinte anos atrás.
– O papel do papa Francisco é crucial neste processo. Desde o início do seu papado, em 2013 que o Sumo Pontífice disse que a aproximação à China era uma prioridade. Além disso o facto de ser Jesuíta também foi um factor chave, certo?
FS – Sim, claro. Ele estava determinado em ganhar confiança dos chineses. Nas suas últimas declarações ele citou por várias vezes a obra “De Amicitia” de Matteo Ricci (missionário jesuíta na China no século XVI).
O papa Francisco compreendeu que a confiança e a amizade eram importantes. mais do que os anteriores Papas.
– Como sabemos, há um número de pessoas na Igreja que levanta sérias dúvidas acerca deste acordo, mostrando-se bastante cético. Como encara estas críticas?
F.S. – O papa teve na semana passada uma resposta muito apropriada. Ele (papa) disse que quando Deus pediu a Abraão para seguir o seu caminho, este (Abraão) não perguntou pelo estado do tempo. A principal razão é a confiança. Por muitos anos, muitas pessoas foram contra este acordo. Mas por muitos anos estas pessoas não apresentaram alternativas. A realidade é que este acordo poderia ter sido assinado há dez anos, vinte anos. Mas não foi. Este acordo pode ser um erro, poderá haver problemas. Mas apenas tentando é que saberemos ao certo. Definitivamente nada de mal irá acontecer.
– Os críticos apontam para os crescentes sinais de intolerância religiosa, com relatos de igrejas demolidas e cruzes derrubadas. O que pensa disto?
F.S. – Claro que esta situação não é a ideal. Por outro lado, ouvimos de igrejas a ser mandadas a baixo na Arabia Saudita? Não. Porque não há igrejas lá. Aqui ouvimos histórias de dezenas de igrejas a serem demolidas, mas isto esconde o facto de centenas de igrejas terem sido construídas nos últimos anos na China. Neste sentido, há uma renovação religiosa um interesse no Cristianismo na China.
-Os termos do acordo não foram revelados ao público. O que podemos esperar como passo seguinte?
F.S. – Eu penso que há muita coisa a fazer, muitos bispos a serem escolhidos, muitos padres a serem formados. E os dois lados comprometeram-se a trabalhar em conjunto. Eu penso que estes serão os próximos passos.
-O que irá acontecer à chamada igreja “clandestina”?
F.S. – Ainda há uns dias um dos principais bispos da igreja clandestina na China deu uma entrevista a manifestar apoio ao acordo. As duas comunidades, a comunidade católica patriótica e a comunidade católica clandestina, apoiam o acordo. Isto demonstra dois pontos a) não há nenhuma oposição da China em relação ao acordo e b) o Governo chinês não está interessado em acabar com a comunidade católica clandestina.
– Como é que será gerida a questão de Taiwan? Quando e como irá o Vaticano trocar Taipé por Pequim nas relações diplomáticas?
F.S – Penso que não há problema com Taiwan nesta situação. Foram precisos seis anos para que os Estados Unidos normalizassem as relações diplomáticas com Pequim após os primeiros encontros. Não tenho a certeza de quantos anos serão precisos no caso do Vaticano. Eu penso, que ambos não quererão fazer algo para intimidar Taiwan. O que acontecerá no futuro, não sei.

José Carlos Matias 05.10.2018

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website