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Um aliado mais distante do Norte

A tensão política na península coreana está a agravar-se, com novas provocações do regime de Pyongyang e ameaças de novas sanções e mais militares por parte dos Estados Unidos. A China, apoio essencial da Coreia do Norte, tem-se mantido mais em silêncio e há quem leia nessa posição um distanciamento prudente.

“Os princípios da política externa chinesa não se alteraram: a China opõe-se a que qualquer país estrangeiro, incluindo os Estados Unidos, mudem o regime pela força”, diz à Lusa o professor chinês de Relações Internacionais Wang Li. Para além da afinidade ideológica, Pequim e Pyongyang combateram lado a lado na Guerra da Coreia (1950-53).

Nos mapas chineses impressos até há cerca de 20 anos, a península coreana correspondia a apenas um país, a Republica Democrática Popular da Coreia, com a capital em Pyongyang. Seul tinha então o estatuto de cidade de província. O Tratado de Cooperação e Assistência Mútua sino-norte-coreano, assinado em 1961, é tido como uma garantia de que a China intervirá em caso de uma agressão contra o país vizinho.

A retórica na imprensa estatal dos dois lados, contudo, aponta para um deterioramento nas relações, com a agência noticiosa de Pyongyang a acusar a China de “comentários irresponsáveis” sobre o seu programa nuclear, e um jornal oficial do Partido Comunista Chinês a avisar que Pequim poderá cortar o fornecimento de petróleo ao país vizinho, caso este persista com os testes atómicos.

Wang Li, professor da Universidade de Jilin, província chinesa situada junto à fronteira com a Coreia do Norte, reconhece mudanças numa relação até há pouco tempo descrita como sendo “unha com carne”. Desde que, em 2013, ascendeu ao poder, o Presidente da China, Xi Jinping, nunca se encontrou com Kim Jong-un, tendo-se mesmo tornado no primeiro líder chinês a visitar a Coreia do Sul.

Segundo Wang, a postura de Xi deve-se à decisão de Kim Jong-un de executar o seu próprio tio Jang Song-Thaek, considerado a segunda figura do Governo norte-coreano e interlocutor do regime com Pequim. O académico refere que Jang terá aceitado a proposta da China de adotar reformas económicas e abdicar do programa nuclear em troco do apoio de Pequim.

“Quando Kim Jong-un descobriu, mandou executar o tio”, conta. O académico chinês afirma que o líder norte-coreano, que assumiu o poder em 2011, com apenas 27 anos, “não deve ser subestimado”.

“Ele é jovem, mas muito maduro politicamente”, defende. “É cruel e esperto; um tipo perigoso”. Para além de executar o tio e dezenas de outros altos quadros do Governo, Kim Jong-un terá mandado assassinar o seu meio-irmão Kim Jong-nam, que vivia em Macau sob proteção da China, num outro golpe que não caiu bem em Pequim.

“Não há agora ninguém que possa desafiar Kim”, comenta o professor. Wang Li admite que é “muito difícil” para a China lidar com a situação na península coreana. “O Partido [Comunista Chinês] e o exército [da China] não querem perder um aliado no Norte”, afirma. 

Pequim “deseja, no entanto, manter boas relações com os EUA e estabilizar as relações económicas com a Coreia do Sul e Japão, mas a Coreia do Norte age como uma criança e gera problemas para todas as partes”, diz. Em entrevista à agência Lusa, o professor Wang Li compara a atual situação na Coreia do Norte à da China durante a Revolução Cultural, uma radical campanha política de massas lançada pelo fundador da China comunista, Mao Zedong, entre 1966 e 1976, que mergulhou o país no caos e isolamento.

“A comida é racionada. Os vegetais, carne e leite são escassos”, conta. “Eu vivi a Revolução Cultural e senti isso também”. Em Jilin, vivem cerca de dois milhões de chineses de etnia coreana; muitos têm familiares no país vizinho para os quais enviam frequentemente roupa e alimentos. “Exceto pelo ar fresco e ruas limpas, não há muito mais na Coreia do Norte”, diz. “Pode sobreviver-se, mas existe escassez de quase tudo”.

João Pimenta-Exclusivo Lusa/Plataforma

Míssil balístico aumenta preocupações

O lançamento de um míssil balístico, que caiu a 500 quilómetros da fronteira russa na semana passada, agravou as tensões diplomáticas e há quem queira acentuar ainda mais a pressão sobre o regime norte-coreano. O Presidente dos Estados Unidos defendeu o endurecimento de sanções: “Que esta nova provocação seja um apelo a todas as nações para implementar sanções mais fortes contra a Coreia do Norte”, lê-se num comunicado de imprensa divulgado pela Casa Branca, que acrescenta que o míssil caiu “tão perto do solo russo que o Presidente não pode imaginar que a Rússia esteja contente”.

A União Europeia considerou também que o disparo é “uma ameaça à paz e segurança internacional” e representa uma escalada da tensão na região. “Este disparo e o anterior constituem uma ameaça à paz e segurança internacionais e agravam ainda mais as tensões na região, num momento em que é desnecessária uma escalada”, disse um porta-voz.

Também a China e a Rússia já reagiram, mostrando-se “preocupadas com a escalada de tensão” na península coreana. O Presidente russo, Vladimir Putin, e o seu homólogo chinês, Xi Jinping, “discutiram em detalhe a situação na península coreana” durante um encontro, em Pequim, e “as duas partes exprimiram preocupação para com uma escalada de tensão”. 

O míssil disparado é um novo modelo, de “médio e longo alcance”, congratulou-se, por seu turno, o regime de Pyongyang, através da agência de notícias estatal KCNA. De acordo com a KCNA, trata-se de “um novo modelo de míssil balístico estratégico de médio e longo alcance, o Hwasong-12”. A agência de notícias sublinhou que o líder norte-coreano, Kim Jong-Un, “supervisionou pessoalmente o teste”.  

Nuno Vinha-Exclusivo Lusa/Plataforma

 

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