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Inimigo público número um?

A nova Administração Trump nos Estados Unidos põe em desconcerto as velhas alianças do Pacífico ao mesmo tempo que aumenta a retórica de agressividade em relação à China. Os especialistas de defesa e relações internacionais portugueses veem as probabilidades de conflito aumentadas. 

Em Novembro de 2011, Barack Obama, ex-Presidente dos Estados Unidos, falava perante o parlamento de Camberra com a promessa de um novo investimento regional na Ásia-Pacífico – militar, comercial e estratégico – decorrente de uma planeada retirada do Iraque e Afeganistão e que respondia às expectativas de reforço dos laços com as nações do sudeste e nordeste asiático perante a ascensão da China, com a qual Washington se comprometia também a melhorar a relação. Mais de cinco anos após a promessa deste novo pivô norte-americano para a Ásia – não realizado – uma nova Administração liderada por Donald Trump descontinua o compromisso. A nova ordem na política externa dos Estados Unidos oferece perspectivas de protecionismo, isolamento, redução do investimento nos tratados de segurança com o Pacífico e um discurso de crescente hostilidade face a Pequim, com um antecipado maior envolvimento de Taiwan em diálogo, entendido como uma temerária provocação. 

“Se a China vir as suas mãos atadas podemos ter uma situação complexa”, adverte Francisco Seixas da Costa. O embaixador jubilado português analisa, por um lado, a retórica de maior hostilidade em relação à China – também animada pela promessa de aumento de tarifas aduaneiras às importações do país -, e por outro o desinvestimento no Pacífico, com a ameaça de diminuição da presença militar na Coreia do Sul e no Japão e com a retirada norte-americana da Parceria Transpacífico (TPP), assinada por Donald Trump.

“O Tratado Transpacífico era a criação de um eixo sólido que permitisse ancorar o desenvolvimento, embora diferenciado, daqueles países e, ao mesmo tempo, garantir aos Estados Unidos uma colocação num terreno donde durante algumas décadas foi deslocado em função do terreno transatlântico”, afirma o diplomata. O TPP, implicando a redução de barreiras alfandegárias e outras, poderá ainda ser perseguido pelas 11 nações restantes do acordo, mas abre caminho para um novo acordo regional aduaneiro dirigido pela China.

Para Seixas da Costa, a nova liderança de Washington usará o seu peso para impor relações bilaterais privilegiadas, que penalizarão os pequenos países. “Trump induz um factor novo ao desprezar um pouco os elementos de federação multilateral e ao sublinhar mais o papel do relacionamento bilateral. Naturalmente, leva as relações internacionais dos Estados Unidos para um privilégio – seja como amigos, seja como inimigos – das grandes potências. Os Estados Unidos vão seguramente fazer uma espécie de bilateralismo de interesses, pondo de parte o multilateralismo que podia ter efeitos a prazo”, defende.

No plano de segurança, a perspectiva de os Estados Unidos poderem impor algum tipo de constrangimento a Pequim no Mar do Sul da China, é a mais preocupante. “Se a China perceber que a sua livre circulação nos mares pode ser ameaçada, percebe também que é a sua própria estabilidade económica que pode ruir. Aí temos um ‘casus belli’ e temos a possibilidade de a China invocar uma situação deste género. Preocupa muito ter uma Administração Trump do outro lado”, diz Seixas da Costa.

“A China não é tradicionalmente um país agressivo no plano internacional. Mas nós não podemos encurralar um gigante porque a probabilidade de ele partir as paredes é muito grande”, entende o diplomata.

Ana Santos Pinto, investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI), equilibra o tabuleiro da análise. No limite, defende, a direção das relações China-EUA será determinada pela interdependência económica e pelo interesse próprio dos países.  

“Acho que o conflito é essencialmente comercial, económico, de tarifas aduaneiras, de investimento. O facto de a China possuir uma percentagem muito significativa da dívida externa americana é também um elemento desse conflito. Agora, não transitaria isto para a esfera de segurança no sentido mais estrito, porque mesmo com uma ponderação de consequências muito relativa nem a Administração Trump arriscaria uma dimensão dessa natureza, principalmente atendendo à importância do Mar do Sul da China”, defende a especialista de relações internacionais.

“Existirão alterações, por exemplo, do ponto de vista diplomático, com uma relação cada vez menos informal com Taiwan. Do ponto de vista político, fazer esta provocação à China é algo que o Presidente Trump faria. Será mais difícil que isto passe para a dimensão prática da segurança. A China é um mercado enorme e a classe média está a consumir produtos que não são produzidos na China, alguns deles são importados a partir dos Estados Unidos. Colocando tudo isto nos pratos da balança, isto não é soma zero – é um win-win. Haverá cedências”, defende.

Nuno Severiano Teixeira, antigo ministro da Defesa de Portugal e diretor do Instituto Português de Relações Internacionais, traça três cenários possíveis para o novo relacionamento Washington-Pequim: uma guerra comercial decorrente da subida de barreiras à importação nos Estados Unidos, o confronto político na aproximação a Taiwan, e o aumento da rivalidade no Pacífico com a invectiva de Trump a que Japão e Coreia do Sul invistam mais na própria defesa. 

“A acreditar naquelas que têm sido as declarações reiteradas, primeiro enquanto candidato presidencial, depois enquanto Presidente eleito, sobre a relação dos Estados Unidos com a China, isso vai significar que na política externa de Donald Trump a China poderá vir a ser o inimigo número um. Temos alguns indícios nesse sentido”, afirma o ex-governante.

Do ponto de vista português, qualquer novo cenário internacional continua a ser visto sob o prisma da União Europeia e da NATO, com Bruxelas e Lisboa a reafirmarem a sua aliança tradicional. A situação da Base das Lajes, nos Açores, onde os Estados Unidos regulam a presença militar no Atlântico, não será posta em causa pelo crescente interesse chinês nesta posição, defende Severiano Teixeira. Mas o futuro é ainda incerto: “Até agora, Portugal não jogou com isso, e acho que fez bem. Portugal é um país aliado dos Estados Unidos, Portugal é um membro da NATO, e nesse quadro esse é o seu aliado. Não sabemos o que será o futuro nem da NATO, nem da relação transatlântica. Ainda é cedo para dizer o que quer que seja”, diz o antigo ministro. 

Maria Caetano

 

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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