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Ver para crer no valor da biblioteca

Governo lançou uma campanha de esclarecimento para que a população perceba a ambição arquitectónica e o valor cultural que formata o projeto da nova Biblioteca Central, cuja obra está estimada em 900 milhões de patacas. A convicção do Instituto Cultural e do Departamento de Gestão de Bibliotecas Públicas é as vozes críticas que se levantaram acabarão por perceber a ”grande escala” do projeto, bem como a sua ambição, não só como obra de referência mas também no que respeita à sua capacidade de servir os utentes em múltiplas valências.

“O Governo pode ser convidado à Assembleia para explicar pormenores” em relação ao projeto da biblioteca”, avisou o presidente da Assembleia, a meio deste mês de Setembro, durante o balanço anual dos trabalhos do hemiciclo. Ho Iat Seng admitiu na circunstância ter dúvidas em torno do custo da obra: “Podemos discutir se o orçamento é muito avultado ou não”.

O presidente do Instituto Cultural, Guilherme Ung Vai Meng, reagiu de imediato, voltando a explicar que o valor foi calculado pelas Obras Públicas com base nos custos de materiais previstos até 2019 e o valor do preço do metro quadrado. Contudo, já em agosto havia admitido que o montante pode até baixar para 700 milhões de patacas se o valor da inflação durante os anos da construção for mais baixo do que o previsto em 2015, altura em que foram feitos os cálculos.

Na apresentação à imprensa, em finais de agosto, Ung Vai Meng anunciou que o concurso deveria atrair “talentos locais” e que não deveria ser aberto a ‘designers’ internacionais, esclarecendo ainda que, para além das fachadas, serão mantidos alguns elementos nos respetivos interiores. Entre estes elementos de arquitetura portuguesa estão as escadas em madeira e mármore nas entradas dos dois edifícios e painéis de azulejos nas antigas instalações da PJ. Durante a referida apresentação, residentes, incluindo arquitetos e estudantes, colocaram dúvidas sobre o orçamento e a localização da nova biblioteca.

Num trabalho do PONTO FINAL junto de arquitetos locais, Mário Duque mostrou desconfiança em relação à capacidade do Executivo em organizar concursos públicos de forma idónea, mas Adalberto Tenreiro saudou a iniciativa, que diz melhorar a qualidade dos sectores económicos e sociais. Por seu turno, Rui Leão considera “salutar” a opção por um concurso local, pois defende que o Governo tem que assumir o seu papel enquanto agente para a qualificação do sector de prestação de serviços de arquitetura.

A nova biblioteca vai ocupar dois edifícios antes ocupados pelo antigo tribunal e Polícia Judiciária (PJ), no centro da cidade, contempla 11 pisos e uma área de 33.000 metros quadrados. Sobre a localização  a chefe do Departamento de Gestão de Bilbiotecas Públicas, Tang Mei Lin afirmou que enquanto noutras partes do mundo há uma tendência para as novas bibliotecas serem afastadas do centro da cidade, na Ásia é normalmente privilegiado o coração urbano (ver entrevista nas páginas IV a VII).

O projeto da biblioteca já havia sido sujeito a concurso público em 2008, e posteriormente suspenso, depois de uma investigação do Comissariado Contra a Corrupção. Nenhuma das propostas apresentadas foi aproveitada, tendo agora o Governo optado pela abertura de um novo concurso. 

1. Apresentação geral da Biblioteca Pública de Macau 

A rede da Biblioteca Pública de Macau do Instituto Cultural possui actualmente 16 bibliotecas subordinadas ao Departamento de Gestão de Bibliotecas Públicas do Instituto Cultural

2. Bibliotecas comunitárias e Biblioteca Central

Constituem parte indispensável da rede da Biblioteca Pública de Macau e ambas trabalham em cooperação com a Biblioteca Pública de Macau e as Bibliotecas comunitárias.

• Bibliotecas comunitárias

• Reduto de serviços à comunidade

• Base de cultivação da leitura das pessoas

• Biblioteca Central (Nova Biblioteca Central)

• Núcleo da rede da Biblioteca Pública de Macau

• Integrando os recursos bibliotecários de Macau e introduzindo várias tecnologias de aplicação e um novo pensamento 

3. Nova Biblioteca Central em planeamento

• Edifício do Antigo Tribunal e edifício da antiga sede da Polícia Judiciária

• Área bruta de construção de 33 mil metros quadrados

• Capacidade para armazenar 1,3milhões volumes (500 mil volumes à abertura da Biblioteca)

• Colecções:

• Livros antigos em língua chinesa e línguas estrangeiras, documentação de Macau, documentação em língua portuguesa, dados de microfilmes

• Livros em língua chinesa e línguas estrangeiras, publicações periódicas, materiais multimédia

• Recursos electrónicos

• Espaços:

• Agência do ISBN, depósito de colecções especiais, biblioteca digital

• Balcão de auto-serviço de devolução de livros (24 horas), sala de exposição, sala de Reunião Polivalente

• Biblioteca da família, biblioteca juvenil

• Área de publicações periódicas, área de serviços para deficientes visuais, área de multimédia, área de livros em língua chinesa e línguas estrangeiras, área de documentação de Macau/ publicações do Governo da RAEM

• Sede do Departamento de Gestão de Bibliotecas Públicas, sala de recuperação de documentação

• Terraço jardim, área de recreio

4. Funções da nova Biblioteca Central

• Recolecção e divulgação da cultura

• Proporcionar um ambiente de aprendizagem ao longo da vida, de pensamento independente e de desenvolvimento cultural da sociedade

• Fornecer oportunidades de acesso a informações internacionais e de ampliação de horizontes

• Fornecer apoio ao público para desenvolvimento de capacidades

5. Equipa de estudo da nova Biblioteca Central

• Arquitectos

• Engenheiros

• Profissionais de livros e colecções antigas

• Restauradores de documentação

• Pessoal de tecnologia informática

• Pessoal de desenvolvimento e planeamento de colecções

• Funcionários da linha de frente de bibliotecas

• Funcionários de bibliotecas em promoção da leitura

6.  Futuro da nova Biblioteca Central

• Desenvolvimento sustentável

• Novo espaço, novas experiências

• Prestação de serviços ao público (incluindo crianças, adolescentes, adultos e idosos, etc.)

7. Criação de uma imagem cultural 

• Localizada na entrada do Centro Histórico de Macau

• Uma incubadora para cultivar a qualidade humana da cidade, constituindo um alicerce de desenvolvimento da sociedade

• Um sítio importante de comunicação multicultural e de comunhão

• Para além de responder às necessidades atuais, um sítio de salvaguarda das memórias e conquistas da cidade, do passado, do presente e do futuro, que será usado de geração em geração.

Fonte: Departamento de Gestão de Bibliotecas do Instituto Cultural de Macau

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“Esta é a biblioteca de todos nós” 

A chefe do Departamento de Gestão de Bibliotecas Públicas, OPhelia Tang, contesta as críticas ao preço previsto para a obra da futura Biblioteca Central: 900 milhões de patacas. Chama a atenção para a “grande escala” do projeto e para a importância de um espaço de referência que, mais do que uma biblioteca clássica, onde as pessoas vão para ler livros, será um espaço “multifuncional” e “multicultural”, capaz de servir “todas as comunidades residentes” e com uma oferta que vai da ambição académica e dos estudos, ao lazer e ao usufruto de espaços culturais, como salas de exposições e, até, um teatro.

1- Como é que surgiu este conceito. Era isso que sentiam por parte dos utentes da rede de bibliotecas e da população em geral? Ou foi antes um conceito que trabalharam internamente, com a intenção de partir para uma ambição diferente da que era habitual?

O.T. – Há cerca de 16 anos, começámos entre os funcionários da rede de bibliotecas a pensar sobre as necessidades da população e sobre aquilo que deveríamos oferecer no futuro. Do ponto de vista das pessoas que trabalhavam nesta área, percebemos que uma biblioteca teria de ser mais do que simplesmente uma espaço onde há livros, multiplicando as ofertas que se podem disponibilizar à comunidade. Começámos então nessa altura a pensar numa Biblioteca Central com outra ambição e, em 2006, o Governo decidiu então avançar para a construção  de uma Biblioteca Geral de grandes dimensões.  Teríamos então que proceder a um reajustamento das políticas de gestão das bibliotecas, procurando enriquecer e diversificar o seu espólio bibliográfico.

2- Como é que foram escolhidos os edifícios ? 

O.T. –  Depois da decisão tomada em 2006 de avançar com uma biblioteca em grande escala começámos a estudar onde poderíamos lançar o projecto. Nessa altura, o governo contratou também uma empresa de consultoria para fazer os primeiros estudos e o planeamento sobre a Biblioteca Central. Na sequência dessa investigação surgiu a ideia de recuperarmos os edifícios do antigo Tribunal e o das instalações da Polícia Judiciária, que fica na Rua Central. 

 

3- Esses dois edifícios vão juntar-se num só?

O.T. –  Sim. Na sequência da decisão de construir uma biblioteca em grande escala percebeu-se que o edifício do antigo Tribunal não seria suficiente para se cumprir um projecto tão ambicioso. Nessa altura, decidiu-se então avançar com um projecto em duas fases: primeiro no edifício do antigo tribunal, que já estava livre, e só depois se avançaria para o da Polícia Judiciária.

4- Qual é a evolução prevista para o projecto?

O.T. – Ainda em 2008 lançou-se também um concurso de conceito arquitectónico para a construção da nova Biblioteca Central. Mas como na altura houve muita polémica, o processo foi interrompido e o concurso cancelado em 2010, altura em que o Instituto Cultural reiniciou os estudos para avançar com a primeira fase do projecto. Em 2012, concluiu esses estudos prévios e, nesse mesmo ano, o IC foi informado de que a Polícia Judiciária começaria em 2013 a abandonar as instalações. Não de uma só vez, mas de forma gradual. Nessa altura começou então a pensar-se que seria melhor para todos pensar num projecto completo e integrado, que juntasse a primeira fase (antigo tribunal) e a segunda fase (PJ).

5-Como é que esse novo projecto vai ser executado?

O.T. –  Entre 2013 e 2016 avançámos com o estudo prévio de um projecto totalmente novo. Muita gente pensa que o projecto que entretanto lançámos ainda é o mesmo que foi pensado em 2006, mas não é. É certo que, nessa altura houve muito trabalho feito e já com a perspectiva da sua realização no futuro. Por isso recuperámos algumas das ideias que constavam nesse primeiro relatório. Mas não parámos entretanto de evoluir, com novos estudos e investigações conduzidas por uma vasta equipa de profissionais que se envolveram desde essa altura na realização deste projecto. Entre outros, fazem parte dessa equipa arquitectos, engenheiros, especialistas em restauração, técnicos de informática, arquivistas, técnicos bibliotecários, promotores de leitura, etc.

6- Considera esse novo projeto completo e acabado?

O.T. –  Na verdade está sempre em evolução. Para além dos desenhos conceptuais e do projecto de arquitectura, tivemos que nos preocupar com a configuração estética e funcional dos espaços interiores, com as colecções da Biblioteca, com os equipamentos, com as estruturas de apoio logístico, a prestação e uma biblioteca digital.  

7- Sei que fizeram também inquéritos à população. Quais foram as principais conclusões que daí extraíram?

O.T. –  No ano passado foi encomendado um inquérito à Universidade de Macau sobre os serviços da rede de bibliotecas públicas, que foi organizado em duas partes distintas: primeiro, sob a forma de “Um questionário sobre os hábitos de leitura dos residentes de Macau”; e numa segunda parte “Um questionário sobre os hábitos dos utentes das bibliotecas e os seus índices de satisfação”. Nesse processo foram inquiridas mais de 2.000 pessoas.

8- Qual será a capacidade da nova Biblioteca Central, em termos do número de pessoas que podem estar nesses vários espaços, em simultâneo?

O.T. –  Normalmente a biblioteca irá receber em tempos diferentes utentes com características diferentes. De acordo com dados estatísticos os números de utentes das bibliotecas de Macau estão a crescer sucessiva e consistentemente.  Posso dizer-lhe, por exemplo, que entre setembro e dezembro de 2015, houve mais 30.000 visitantes na rede de bibliotecas do que no ano anterior.

9- Quantos visitantes no total?

O.T.  – Durante os dias de semana e nos fins de semana o número de utentes é muito diferente. Mas posso dizer-lhe, por exemplo, que só no último mês de Julho tivemos mais de 240.000 visitantes. O que importa perceber neste caso é que a Biblioteca Central funciona em rede com as outras bibliotecas e, naturalmente, suplanta todas as outras em questões de frequência. A actual Biblioteca Central está neste momento a receber cerca de 1.400 pessoas por dia. Pode-se eventualmente pensar que é um espaço muito pequeno para tanta gente, mas a verdade é que as pessoas entram e saem durante todo o dia, às mais diversas horas e durante os períodos de tempo mais variados. No futuro, a Biblioteca Central terá uma capacidade muito maior para receber pessoas, até porque vai ter espaços tão variados como salas de exposições e um teatro.

10 – Qual é o calendário previsto para a obra completa?

O.T. –  Agora estamos a preparar os documentos para o projecto de pormenor, que queremos lançar até final deste ano. Esperamos que em 2018 esse processo possa estar concluído e tenhamos o desenho final para poder lançar a obra.

11- Quando é que prevê que a nova Biblioteca Central possa estar aberta ao público?

O.T. –  Faremos todos os possíveis para que isso possa acontecer em 2022.

12- Deixe-me só insistir num ponto que há pouco não ficou claro. Os edifícios do antigo Tribunal e da Polícia Judiciária vão passar a estar ligados, num espaço único?

O.T. –  Sim, é isso. Mas para além disso o edifício vai ter 11 andares, incluindo uma cava e preservando as fachadas existentes.

13- Mais ou menos como se fez no caso do edifício do BNU, ali mesmo ao pé, na Almeida Ribeiro?

O.T. – Sim, mas muito mais bonito, embora articulando o antigo com o novo de forma homogénea.  Mas a parte construída no interior não terá a largura da fachada.

14- Esses 11 andares vão do edifício do antigo tribunal ao da Polícia Judiciária?

O.T. –  Sim, é esse o conceito.

15- Qual é a área total disponível? 

O.T. –Cerca de 33.000 metros quadrados.

16 – Há uma polémica recente em torno do preço da obra, considerada excessivo, por exemplo pelo deputado Chan Meng Kam. Pode confirmar o custo anunciado pela tutela? 

O.T. – 900 milhões de patacas, como orçamento de construção.

17- Só na obras? Ou isso inclui também os conteúdos?

O.T. – Esse é o custo previsto para a obra. A decoração interna só pode ser decidida depois de estar aprovado o projecto de pormenor 

Nesta altura, e como a Administração quer ser o mais transparente possível, sentimos a responsabilidade de divulgar o custo previsto para a obra completa. Por um lado, é importante que saibamos exatamente quanto podemos gastar, e assim poder controlar a previsão de custos; por outro, é importante que a população perceba o que está a ser feito e qual é o investimento previsto. Afinal, este é um projeto pensado precisamente para servir a população. É a nossa biblioteca, a biblioteca de todos nós.

18- Como é que encara a polémica em torno do preço. Acha que poderia ser gasto menos dinheiro? Por exemplo adotando um projeto menos ambicioso?

O.T. – Parece-me, de facto, que as pessoas ainda não perceberam bem a obra que está aqui em causa. Aliás, vamos em Outubro avançar com uma exposição para que a população entenda que esta não é uma obra qualquer. Repare que temos obras muito importantes e não temos espaço para expor. Verdadeiras relíquias, por exemplo sobre a história de Macau, que queremos trazer ao conhecimento do público. Por outro lado, queremos dar uma importância especial às obras em língua portuguesa, comunidade que será tratada com especial importância na futura Biblioteca Central. O nosso objetivo é que esta nova biblioteca, para além de um espaço multifuncional, seja também um espaço multicultural, que é a própria génese de Macau. É muito importante que possamos servir as várias comunidades aqui residentes. Há também muitas coleções, não só literárias mas, por exemplo, de arte antiga, que continuam guardadas em armazém e que vão, finalmente, poder ser vistas pela população. 

19- Este conceito multidisciplinar, com valências diferentes, é inspirado em alguma biblioteca em particular? Há algum projeto que vos tenha inspirado particularmente para adotarem este conceito?

O.T. – Durante os estudos que fizemos recolhemos imenso material, de várias origens e estilos. Fazemos aliás várias referências a espaços que consideramos importantes e a exemplos de qualidade que fomos encontrando, quer pelo conceito que encerram, como pela sua modernidade ou outros padrões relevantes de análise. Posso citar-lhe exemplos diferentes que fomos registando, vindos do Japão, de Singapura ou Finlândia, vários além de várias outras bibliotecas centrais que estudamos na Europa, Estados Unidos e Canadá. 

Paulo Rego 

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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