“O Presidente da República [portuguesa] fez-me esse convite, vou ser recebido por ele durante esta visita. Depois vou presidir à comissão mista (Portugal/Macau)”, onde “vamos fazer um balanço e uma perspetiva para o futuro (…) estamos muito confiantes no reforço da cooperação com os países lusófonos”, explica o chefe de Executivo de Macau, Fernando Chui Sai On, a propósito da visita a Portugal, entre 10 a 15 de setembro, onde para além de Marcelo Rebelo de Sousa será também recebido pelo primeiro-ministro António Costa.
A tese que vai ganhando força, pelo menos no discurso político, é a de que as relações económicas, comerciais e políticas de Macau com a antiga potência colonial tendem a aprofundar-se de forma acelerada, no contexto da missão estratégica que Pequim atribui à Região Administrativa Especial de Macau: ser plataforma entre a China e os países de língua portuguesa. Esta estratégia, assumida há quase década e meia, não tido fraca correspondência numa economia que passou os últimos anos completamente focada na liberalização do jogo e na especulação imobiliária. Contudo, a realidade hoje é diferente, quer do ponto de vista económico quer no que toca à pressão de Pequim, que arrasta consigo o interesse que vai sendo assumido pelo tecido empresarial.
“Portugal desempenha um papel importante na Europa; tem um ambiente político favorável e um processo estável de recuperação económica. Por isso garante enormes oportunidades de investimento”, resume Kevin Ho, empresário do setor imobiliário que preside à Associação dos Jovens Empresários de Macau (MYEA, na sigla inglesa). Numa organização conjunta entre a MYEA e a Associação dos Jovens Macaenses (AJM), deslocam-se em meados de setembro cerca de 15 empresários ao Porto, Coimbra e Lisboa, levando consigo um número ainda não confirmado de empresários de Cantão, Shenzhen e Zhuhai.
Kevin Ho aponta o foco a oportunidades nas áreas da “indústria e serviços”, mas vai também imbuído do “papel positivo que Macau tem no sentido de desenvolver uma plataforma económica e comercial entre a China e os países de língua portuguesa”. Portugal “está no centro dessa estratégia”. Macau “desempenhará certamente o seu papel”, vaticina Kevin Ho, embora reconhecendo “limites” próprios de uma economia pouco diversificada, com uma população de 650 mil habitantes. Por isso, conclui, “esse papel será muito maior se servirmos de plataforma para que os fundos de capital chinês entrem não só nos países de língua portuguesa, mas também em outros países europeus”.
Além do tradicional contato político com a Embaixada da China em Lisboa, esta delegação empresarial vai visitar adegas de vinho e startups tecnológicas ou o sector da saúde, procurando ainda contato com o extenso portfólio que a banca portuguesa hoje tem de imobiliário a preços competitivos.
A cooperação entre ambas as associações surge de forma orgânica, uma vez que Jorge Valente e Duarte Alves, jovens empresários e copresidentes da AJM, são também vice-presidentes da MYEA, que lhes entregou a organização da missão aos dois jovens macaenses, com fortes ligações a Portugal.
“As boas oportunidades atraem os empresários”, resume Jorge Valente, para quem “a orientação de investimento nos países de língua portuguesa aumenta muito o interesse dos empresários da China Continental”, atraídos pelo marketing político que se faz em torno dos mercados lusófonos. Já “para as pessoas de Macau que já tinham muitas ligações a Portugal, sejam elas diretas ou indiretas, vão mesmo conduzidas pela oportunidade”.
Valente explica que tentou organizar um programa que oferecesse “um leque variado de indústrias, com o feedback inicial e o conhecimento das coisas boas que o nosso país neste momento oferece”. Sobre as hipóteses de investimento direto, ou intermediário de capital chinês, Jorge Valente reconhece que “o volume de negócio de Macau será sempre reduzido”, defendendo contudo que será “mais qualitativo, visto que existe um elo de ligação” emocional, pelo que “as oportunidades não se traduzem apenas em números”. Sendo neste momento a China “o país no mundo com mais capital para investir, uma décima de um por cento esmaga todo o capital que Macau investiu em Portugal durante cinco séculos. Contudo, são investimentos puramente números e Portugal aí compete com todos os países que querem investimento chinês. Mas com a mesma rapidez com que surge, quando a oportunidade é boa, esse investimento retira assim que não fizer sentido”.
Paulo Rego