A arquitetura é a área que mais leva portugueses à China, atraídos pelos salários, o ritmo “alucinante” da construção ou grandes projetos. Mas há já quem esteja a sentir a desaceleração da segunda economia mundial.
O arquiteto Tiago Tavares, nascido e criado em Lisboa, trabalha há cerca de dois anos e meio em Pequim, num atelier dirigido por chineses e alemães, mas, no seu ofício, nunca deixou de colaborar com portugueses.
“Quando cheguei, éramos quatro portugueses no atelier onde trabalho, entre um total de 20 estrangeiros”, recorda Tavares, cuja mulher deixou também Portugal para se tornar sua colega de trabalho.
Fruto da carência de profissionais experientes formados no país, a arquitetura é a área que traz mais quadros portugueses à China.
Tiago Tavares estima que, atualmente, haja “pelo menos dez arquitetos portugueses” a trabalhar na capital chinesa, entre um universo total de 130 cidadãos de Portugal radicados em Pequim.
Em Xangai, a mais cosmopolita metrópole do país, “haverá ainda mais”.
“A China falha muito em termos de ‘design’. Os chineses não são conhecidos pela capacidade criativa e os estrangeiros preenchem essa lacuna”, explica.
Por outro lado, Tiago Tavares enaltece a capacidade dos colegas chineses em “executar”.
“É algo em que dou valor à China. Não haverá na História um país que se tenha urbanizado ao mesmo ritmo, que tenha tido uma capacidade de resposta tão rápida para o fluxo migratório que houve”, realça.
Ritmo de urbanização ímpar
País mais populoso do planeta, com cerca de 1.375 milhões de habitantes, a China experimentou nas últimas décadas um ritmo de urbanização ímpar na história da humanidade.
No espaço de uma geração, milhões de torres de escritórios e blocos de apartamentos ergueram-se nas áreas rurais limítrofes às cidades do litoral.
A percentagem da população urbana subiu de 10,6%, em 1949 – ano de fundação da República Popular – para mais de 51% no ano passado.
Pelas previsões oficiais, cerca de 250 milhões de chineses deverão radicar-se nas cidades até ao final da próxima década.
Para Tiago Tavares, isto traduz-se em ‘deadlines’ umas atrás das outras”, o que torna “difícil a adaptação ao ritmo de trabalho”.
A velocidade “alucinante” deste processo é, porém, cumprida em detrimento da qualidade: “Aqui, vemos edifícios construídos há cinco ou seis anos que já estão num estado deplorável”, observa.
Um outro ponto, que seria “impensável na Europa”, diz respeito ao desprezo, quase total, pela proteção do património.
Em Pequim, por exemplo, pouco resta do traço urbanístico original, que obedecia a conceitos tradicionais chinesas de geomancia, com as construções ordenadas num rígido eixo norte-sul.
A cidade refletia então a composição de um corpo sagrado: os templos e monumentos correspondiam à cabeça, mãos, pés e outros membros do deus Nezha.
Após a revolução comunista, o Presidente Mao Zedong ambicionou tornar Pequim num centro industrial e as antigas muralhas e portas da cidade, vistas como obstáculos ao progresso, foram demolidas.
Durante a Revolução Cultural (1966-1976), uma radical campanha política de massas lançada com o pretexto de transformar a fisionomia moral da sociedade chinesa, os templos foram destruídos ou convertidos para outros usos.
Em 1979, a adoção da política de reforma e abertura, que abriu a China à economia de mercado, serviu de machadada final.
Os ‘hutongs’, os típicos becos de Pequim, deram lugar a blocos de apartamentos, e onde se erguiam ‘siheyuan’, as residências construídas em torno de pátios espaçosos – algumas com séculos de existência – surgiram bancos e espaços comerciais.
Hoje, Pequim tem um “caráter estéril”, resume o arquiteto português Helder Santos.
“Não gosto muito das cidades chinesas; são todas iguais. Prefiro o campo. Tudo o que é o interior da China, cidades antigas, que ainda não foram tocadas pelo turismo ou a modernização”, diz.
Casado com uma colombiana, Helder Santos, 40 anos, nasceu na Alemanha e viveu em Portugal, entre os cinco e 16 anos, altura em que emigrou com os pais para os EUA.
Em 2010, a crise financeira internacional levou-o a fixar-se em Pequim: “De repente, a construção estagnou nos EUA, enquanto a China atravessa um intenso processo de urbanização”.
Com experiência de vida em três continentes, é na freguesia de Canas de Senhorim, no distrito de Viseu, norte de Portugal, que diz guardar as melhores recordações.
“O cheiro do café pela manhã, as torradas com manteiga, o galão e o orvalho da madrugada”, enumera, sorridente. “Coisas muito pequenas. Talvez até insignificantes, mas que são nossas”.
Quando a filha de quatro anos lhe disse que queria um cão, deu-lhe logo duas opções: “Um rafeiro ou um podengo, porque o da Serra [da Estrela] nos Estados Unidos é difícil de encontrar”.
“Quero uma raça que eu conheça”, explica.
O atelier que dirige na capital chinesa, o OAD (Office for Architecture + Design), destacou-se recentemente pelo desenho de um luxuoso complexo hoteleiro para o conglomerado Wanda Group, cujo fundador, Wang Jianlin, é considerado o homem mais rico da China.
Trata-se de um ‘resort’ de cinco estrelas, integrado numa área montanhosa no sul da província subtropical de Yunnan, no sudoeste da China.
No total, compreende 151 quartos e suites, centro de convenções, Spa e um parque temático, cobrindo uma área de 46.140 metros quadrados e com um custo de construção fixado em 2,5 mil milhões de dólares.
Para Hélder, tratou-se de um projeto “particularmente motivante, com muito mais lógica e raciocínio por parte dos responsáveis”, em contraste com “grande parte” dos trabalhos que desenvolveu na China.
Pausa para café ou o fim do ‘boom’?
O escritório de Hélder em Pequim fica em Dawanglu, bairro que sedia várias multinacionais no país asiático, num cosmopolitismo que se reflete na oferta dos restaurantes locais.
Porém, na secretária do arquiteto, cápsulas de três marcas de café – Nicola, Delta e Torrié – fazem um português sentir-se em casa. “Já sabes, só bebo café de Portugal”, brinca.
A tomar café é, aliás, como vários colegas de Nuno Lobo, o ‘decano’ dos arquitetos portugueses em Pequim, matam agora o tempo, retratando o fim do ‘boom’ da construção na China.
“Como podes ver, não estamos muito ocupados. Estão aqui dois colegas meus a tomar café; e já passaram vários para ir fumar”, descreve Nuno à agência Lusa, a meio da tarde de uma terça-feira.
“É o ritmo que temos agora”, diz.
Formado no Porto, Nuno Lobo chegou há quase dez anos a Pequim, coincidindo com o “período ascendente no mercado de construção chinês”.
Em resposta à crise financeira global de 2008, Pequim investiu biliões de dólares em grandes obras públicas, visando manter postos de trabalho.
Nessa altura, não havia tempo para cafés e cigarros: “A norma era os projetos serem muito rápidos. Em dois anos, construía-se uma torre”, recorda Nuno Lobo. “Agora, não”.
Em 2015, a economia chinesa, a segunda maior do mundo, cresceu 6,9%, o ritmo mais baixo dos últimos 25 anos.
“O imobiliário e a construção são os primeiros a sentir a crise. Quem está ligado a este mercado já está sentir”, aponta Nuno Lobo, garantido que, ainda assim, um arquiteto em início de carreira na China ganha 10.000 yuan (cerca de 1.400 euros).
“Quando saí de Portugal ganhava-se 500 euros, o salário mínimo”, recorda. “E com sorte, às vezes, mais um bocadinho”.
João Pimenta-Exclusivo Lusa/Plataforma