A estabilização da economia - Plataforma Media

A estabilização da economia

As receitas dos casinos do território estão em queda há quase dois anos, mas os analistas preveem que o cenário agora seja de recuperação.

As receitas do jogo de Macau têm vindo a cair, consecutivamente, durante 20 meses, mas agora, em vésperas de abertura de novos hotéis-casinos, começam a vislumbrar-se sinais de recuperação. De qualquer maneira, segundo os analistas contactados pelo PLATAFORMA, a estabilização financeira propriamente dita só deverá acontecer no próximo ano. 

Os casinos de Macau fecharam 2015 com receitas de 28.859 milhões de dólares, o que correspondeu a uma queda anual de 34,3 por cento. Foi o segundo ano consecutivo de quebra das receitas dos casinos depois de, em 2014, terem diminuído 2,6 por cento.

No primeiro trimestre de 2016, os casinos registaram receitas de 7 milhões de dólares, o que corresponde a menos 13,3 por cento do que no período homólogo do ano anterior. Esta queda tem sido associada à desaceleração económica da China e à correspondente campanha de combate à corrupção lançada por Pequim. 

Com a queda das receitas, o PIB diminuiu mais de 20 por cento, em 2015. E, segundo as previsões do Fundo Monetário International (FMI), deverá haver nova queda do PIB este ano, na ordem dos 7,2 por cento. Ainda segundo o FMI, a economia deverá voltar a crescer em 2017.

Para o economista Albano Martins, os números começam a revelar sinais de recuperação. “É perfeitamente possível que, tirando Outubro deste ano, haja um crescimento positivo pequeno na ordem de um dígito”, afirma. Outubro deverá ser a exceção, porque no mesmo mês do ano passado as receitas ascenderam a mais de 2,5 mil milhões de dólares, sendo “difícil” alcançar esse valor. “Penso que, a partir de Junho, teremos dois ou três meses em que o crescimento será, pela primeira vez, positivo. Começa a estabilizar, acabou por bater no fundo”, avança.

Será difícil chegar aos “números antigos” de crescimento, uma vez que a queda foi grande. “Nalguns casos [meses], eram o dobro do que temos agora”, diz. Por exemplo, em 2013, as receitas do jogo situavam-se na ordem dos 4,1 mil milhões de dólares, enquanto agora fala-se em 2,1 mil milhões de dólares. “É quase metade”, realça. Porém, não havendo uma recuperação do setor VIP e mesas suficientes para o jogo de massas, o analista acredita ser “difícil” chegar aos valores anteriores a 2014.

Uma queda contínua

Olhando para os números da Direção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC) referentes a ano, todos os meses tiveram receitas inferiores aos respetivos meses homólogos do ano anterior. “Até Abril, em todos os meses houve decrescimento”, diz. Em Junho, o analista acredita ser possível haver um crescimento. “Até agora, todos os meses têm tido receitas superiores aos valores de Junho do ano passado, por isso, tudo leva a crer que em Junho haverá um valor parecido”, afirma.

Ainda assim, Albano Martins afirma que só no próximo ano deverá haver estabilidade. “Neste ano, haverá uma tentativa de estabilidade. No ano seguinte, já haverá de certeza uma recuperação, até porque há novos casinos”, refere.

Quanto aos fatores por detrás desta mudança de cenário, o analista afirma que nada tem a ver com motivos externos. “É porque se bateu no fundo. A partir daí, não é possível descer mais do que 2 mil milhões de dólares”, diz, acrescentando: “Nota-se que o decrescimento é cada vez mais pequeno. É difícil haver fatores piores do que os que já existem, a não ser que os ‘junkets’ [promotores de jogo] entrem em colapso total ou que as novas propriedades não amorteçam a queda.”

Para o economista Henry Lei Chun Kwok, é expectável que haja agora “uma estabilização” do setor do jogo, com o abrandamento da contração das receitas de dois para um dígito. “As anteriores bolhas desapareceram depois de dois anos de correção e o que sobra é, provavelmente, a procura real por serviços de jogo”, afirma.

Além disso, espera-se ainda que, se a taxa de crescimento da China se mantiver nos atuais 6,7 por cento, que os mercados imobiliários nas diferentes cidades “não enfrentem riscos de grandes ajustamentos”. Assim, não havendo novas políticas a ser lançadas, deverá esperar-se que o desempenho do setor do jogo estabilize, sem sinais de “mais contrações nos próximos meses”. 

Ainda assim, o economista duvida que, dada “a nova condição” da economia chinesa, se regressem aos anteriores crescimentos na ordem dos dois dígitos. “E isto é normal para o setor empresarial, alcançar um crescimento normal”, realça. 

Mais: a abertura de novas propriedades pode, até, trazer “um novo momento” ao setor, mas as melhorias irão apenas ocorrer no setor de massas.

Recorde-se que em 2015 o Governo anunciou a entrada em vigor de “medidas de austeridade”, depois de, em Agosto, os casinos terem registado receitas de 2,3 mil milhões de dólares, abaixo do limite fixado pelo Executivo. Em comunicado, o Governo anunciou que todos os serviços públicos e organismos especiais deveriam congelar cinco por cento das despesas orçamentadas para a aquisição de “artigos para o funcionamento diário dos serviços ou de bens consumíveis”, e 10 por cento do orçamento para investimento (sem incluir o Plano de Investimento e Despesas de Desenvolvimento da Administração, o chamado PIDDA). “O Governo tem a sua austeridade e ninguém percebe porquê”, diz Albano Martins, esclarecendo que, de qualquer maneira, a partir de agora, deixa de haver justificação para mantê-la.

Além disso, considerando a queda do PIB, Albano Martins afirma que o Governo não pode continuar a agir exatamente da mesma maneira. “Tem de tentar estancar, precisa de ter um comportamento positivo e esse reflete-se, até, em mais despesa pública, investimento”, realça.

Ainda assim, apesar das perspetivas mais otimistas, a agência Moody’s reduziu o ‘rating’ de Macau de Aa2 para Aa3, justificando a descida com o “acentuado enfraquecimento da economia, com o crescimento ainda altamente volátil”, aliado à “limitada resposta” governamental à queda das receitas do jogo.

Luciana Leitão

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