Cinco anos é muito tempo - Plataforma Media

Cinco anos é muito tempo

“Não vamos ficar à espera”, explica o diretor do Hospital São Januário, Kuok Cheong U, reconhecendo que o sistema entrou em rutura e “muita coisa tem de mudar” antes de haver novo hospital na Taipa. Em 2019, na melhor das hipóteses. Entretanto, está em curso uma verdadeira revolução no São Januário: da extensão dos horários de atendimento – podem ir até às 02h00 – à criação de novas valências, como a geriatria. Nos próximos cinco anos serão contratadas 2.000 pessoas, entre médicos, enfermeiros e administrativos. A ideia é dobrar a capacidade do sistema, em regime de exceção, estando toda a gente a postos e preparada para ocupar o novo hospital, quando estiver pronto.

Plataforma – Durante a discussão das Linhas de Ação governativa, o secretário para a Saúde, Alexis Tam, anunciou a extensão de horários e a duplicação do pessoal no Hospital São Januário. A que ritmo e de que forma se vai processar essa revolução?

Kuok Cheong U – Quando falamos de saúde pública, não nos devemos focar em demasia nas mudanças. O valor mais importante é o da estabilidade. Antes de mais, temos de manter a qualidade dos serviços médicos; essa é a nossa grande prioridade. Obviamente, sabemos que a procura dos nossos serviços está a aumentar.

 

– Essa procura está contabilizada?

K.C.U. – Há uma série de estudos por detrás das considerações que foram tecidas por Alexis Tam durante a discussão o debate das Linhas de Ação Governativa para 2016. Sabemos que o número de pacientes que procuram este hospital tem aumentado; também sabemos que a população está a aumentar. Há dez anos seriam cerca de 400 mil residentes; hoje são mais de 600 mil. Por isso, para manter o padrão de qualidade que queremos, muita coisa tem de mudar. Não podemos continuar como se estivéssemos antes da transição de poderes. Este hospital, criado na década de 1980, tinha padrões de excelência, quer em termos de espaço, de equipamentos e qualidade clínica, tendo merecido elogios internacionais, sobretudo em relação aos cuidados primários. Mas isso foi há muito tempo…

 

– Mais recentemente multiplicaramse as críticas e os protestos contra a degradação da prestação dos cuidados de saúde, nomeadamente no São Januário…

K.C.U. – Sim; nos últimos cinco anos esgotou-se o debate e sabemos que é preciso um novo hospital. Tudo o que fizermos agora baseia-se nessa decisão. Contudo, a população precisa de mais cuidados de saúde e esperar cinco anos pelo complexo hospitalar da Taipa é muito tempo.

 

– Por que razão o atraso foi tão grande?

K.C.U. – Não somos engenheiros, não sabemos como construir. O nosso trabalho é fazer o planeamento e dar os desenhos às Obras Públicas. Esse trabalho está praticamente concluído, mas isso não esgota as nossas responsabilidades. Temos de apostar já nos recursos humanos e estar preparados para pôr o novo hospital a funcionar, assim que estiver pronto.

 

– Qual é o caderno de encargos para as Obras Públicas?

K.C.U. – Temos de preparar os desenhos finais do edifício que queremos que seja construído. Esses planos são da nossa responsabilidade; depois as Obras Públicas farão os ajustes finais. Não sei nada de engenharia, mas como somos nós os utilizadores, temos o direito de dizer de dizer se queremos as paredes brancas, luz natural, etc. Também temos de decidir como utilizar as instalações e tomar saber onde instalar os equipamentos. Isso é muito importante. Por exemplo, para nós é claro que os serviços de radiologia têm de ficar na cave, para isolar o perigo de radiações. É preciso muito cuidado com este tipo de decisões.

 

– O secretário para as Obras Públicas, Raimundo Rosário, está reticente em garantir o novo hospital para 2019… 

K.C.U. – Não vamos ficar à espera; temos muito trabalho pela frente. Primeiro, estamos a acabar a planificação do hospital que teremos, com base nos estudos que fizemos e no levantamento das necessidades futuras. Por exemplo, temos de perceber qual é a evolução do número de pacientes com câncer e decidir se continuamos a ministrar a quimioterapia no Kiang Wu e em Hong Kong. Em várias áreas, estamos a decidir se instalamos novas capacidades e adquirimos novos equipamentos, ou se continuamos a suportar os tratamentos onde eles têm mais qualidade e nos dão mais garantias.

 

– Qual é o critério dessa decisão? Porque essa é uma das críticas mais correntes: serviços e especialidade que não existem no hospital público…

K.C.U. – Não faz sentido comprar equipamentos se não tivermos clientes que justifiquem o seu preço de aquisição e de manutenção. Estamos a analisar e, nos casos em que a curva das procura
nos diz que, daqui a cinco anos, haverá pacientes que justificam a aquisição de determinado equipamento, podemos adquiri-lo. Não estamos a decidir a cor das paredes do novo hospital, mas sim que serviços teremos, com que equipamento e quantos profissionais serão precisos.

 

– Quais são as novas prioridades?

 K.C.U. – Se for explicar isso passamos aqui o dia. Mas tenho de frisar que um hospital não depende apenas de médicos e de enfermeiros. Temos de ver prever também com cuidado o pessoal administrativo e logístico. Posso garantir que no novo hospital terá o equipamento tecnologicamente mais avançado. Neste momento estamos muito focados em perceber qual é o pessoal de que necessitaremos.

 

– É por isso que vai dobrar o pessoal no São Januário?

K.C.U. – Tal como o secretário Alexis Tam disse publicamente, temos de começar a usar este hospital como se já tivéssemos dois. Isso significa é que, passo a passo, vamos duplicar os recursos humanos. Já começámos a desviar pacientes dos serviços de urgência para outras áreas e locais; depois concentrámo-nos na redução das listas de espera para as consultas de especialidade, sobretudo nas áreas mais pressionadas pela procura; e já prolongamos os horários dos centros de saúde.

 

– Em quanto tempo pretende duplicar o pessoal no São Januário? 

K.C.U. – Não podemos simplesmente duplicar o número de trabalhadores, como isto fosse o 7-Eleven. Primeiro fizemos um inquérito para perceber se os utentes aderiam a novos horários para as consultas. Não vamos ter aqui médicos à noite se ninguém cá vier. A segunda questão era perceber se o prolongamento dos horários de facto diminui o tempo de espera para as consultas da especialidade. Por último, temos de ir testando a pressão que a extensão dos horários causa sobre os médicos e os enfermeiros, para além do pessoal administrativo e da logística.

 

– Quais são os resultados desse inquérito?

K.C.U. – O que nos mostrou o inquérito é que temos de prolongar os horários de atendimento. Chegámos também à conclusão de que isso vai mesmo aliviar as listas de espera. Como é óbvio, para
isso temos de aumentar o pessoal. E é isso que já estamos a fazer, passo a passo, de acordo com as necessidades que vamos detetando. Todos os anos, cada um dos serviços será reforçado com médicos, enfermeiros e colaboradores, até que o número total cumpra não só as necessidades deste hospital, mas também do próximo. Esse é o plano para os próximos cinco anos.

 

– O São Januário vai abrir até que horas?

K.C.U. – Ninguém pode saber ao certo. O que vamos fazer é começar com quatro áreas de especialidade e, de acordo com a evolução das listas de espera, e das queixas que ouvirmos e considerarmos razoáveis, outras áreas verão estendidos os horários de atendimento. Deixe-me dar-lhe um exemplo: a oncologia é um dos serviços que pretendemos estender, numa segunda fase. Mas estes pacientes precisam de quimioterapia, que é ministrada noutro local, durante o dia. Durante esse tratamento, precisam de acompanhamento médico e deenfermagem; mas têm de descansar e dormir à noite. Em princípio não fará sentido marcar consultas para a noite, mas podemos fazê-lo, por exemplo, aos fins de semana. É esse tipo de adaptações que temos estado a estudar, caso a caso. À medida que formos tomando decisões, entram as novas equipas. Toda a gente está de acordo com o objetivo de diminuir as listas de espera, mas ninguém pode trabalhar mais do que o normal, em prejuízo das suas vidas pessoais. Por outro lado, não queremos que este regime de exceção se prolongue demasiado tempo. Esperamos que o novo hospital esteja pronto, o mais breve possível, para depois distribuir estas equipas que agora vamos reforçar pelas duas estruturas.

 

– Quais são as suas prioridades, do ponto de vista clínico?

K.C.U. – A primeira coisa que fiz quando tomei posse foi dar a volta a todos os departamentos para verificar pessoalmente porque havia tantas queixas por parte do público, sabendo eu que havia um grande esforço por parte de todo o pessoal para garantir serviços a toda a gente; incluindo no serviço onde eu estava: na radiologia. Um dos casos que mais me interessou foi o dos serviços de urgência, aquele onde mais se investiu no passado recente. A nova ala criou-nos um problema, porque é muito grande e tem muitas camas, o que provocou um congestionamento que entendi ser urgente resolver. Comecei então a fazer a minha própria investigação.

 

– O que é que descobriu?

K.C.U. – Durante cerca de um mês de observação, percebi que grande parte dos pacientes nos serviços de urgências eram idosos. Aliás, muitos deles eram trazidos pelas mais diversas instituições de apoio à terceira idade. A geriatria é muito popular em todo o mundo, desde as décadas de 1960/70; mas em Macau não temos essa especialidade. Já decidi criar essa nova especialidade, que vai aliviar muito os serviços de urgência. Por outro lado, neste hospital já não podemos construir para baixo, ou para cima, nem para os lados. Temos de viver com o que temos. Mas os Serviços de Saúde alugaram mais 100 camas no Hospital da Faculdade de Ciências e Tecnologia, onde também há serviços de urgência. Como esse espaço está subaproveitado, vamos dividir os serviços: aqui, no São Januário, ficam as urgências clássicas, os traumas mais urgentes; para a Taipa vai a geriatria.

 

– Quando é que consegue implementar essa ideia?

K.C.U. – Num futuro muito próximo. Com o tempo, criaremos outras especialidades, de acordo com as necessidades que formos detetando.

 

– Assume, contudo, que Macau nunca terá autonomia em várias especialidades clínicas…

K.C.U. – Macau é uma cidade pequena; não nos podemos comparar com Hong Kong, muito menos com a China. As estatísticas demonstram que em certas doenças aparece um caso a cada milhão de pessoas. Devemos estar aqui preparados aqui para o assistir; ou fará mais sentido enviá-lo para um grande centro na região, onde temos garantias de que será bem tratado? Veja que ao enviar os nossos pacientes estamos também a contribuir para que esse centro hospitalar tenha mais pacientes, dandolhe a oportunidade de evoluir. Noutras especialidades, estamos a fazer um grande trabalho, mesmo comparando com Hong Kong ou com a China.

 

– Por exemplo?

K.C.U. – As pessoas com hipertensão podem sofrer de problemas associados, tais como aneurisma e ruptura da aorta. De acordo com as estatísticas, em todo o mundo, 70 por cento destes casos acaba por provocar a morte. Contudo, no ano passado, tivemos cinco casos em Macau e tratámos quatro com sucesso. É uma performance muito boa, desde o transporte em ambulância, aos cuidados de emergência, diagnóstico, cirurgia, cuidados intensivos e tratamento. O público tem de entender que em muitos campos estamos a fazer um grande trabalho, quer nos cuidados primários, quer no tratamento especializado. Mas não vamos assumir todos os tratamentos, porque isso economicamente não faz sentido. O que é preciso é garantir que as pessoas tenham acesso ao melhor tratamento possível, em Macau ou no exterior.

Screen Shot 2015-12-23 at 10.37.51

Mais duas mil pessoas

– Já contrataram este ano 529 pessoas, entre médicos, enfermeiros e pessoal administrativo. Vai contratar mais gente? A que ritmo? 

K.C.U. – Vamos continuar a contratar pessoas, nos próximos cinco anos, até que tenhamos o pessoal necessário aos dois hospitais.

 

– Ao fim de cinco anos, quantas pessoas serão necessárias?

K.C.U. – O novo hospital terá mais ou menos do tamanho deste, onde trabalham pouco mais de 1.900 pessoas. Logo, vamos precisar de mais 2.000 pessoas.

 

– Aonde é que os vai contratar? China e Portugal?

– K.C.U. – Isso não importa. Somos profissionais. Temos que entender que cada local tem a sua cultura e os seus regulamentos. Estamos em Macau, temos as nossas regras e os nossos padrões de exigência. Logo, quando os médicos veem da China, de Portugal ou de outras origens, têm um período de tempo em que se adaptam a nós. Não nos importamos de mudar; temos de aprender com toda a gente, melhorar os nossos serviços e impor os nossos padrões.

 

– Alexis Tam anunciou que o hospital abriria em breve até às 02h00. Afinal, não será bem assim…

K.C.U. – Deixe-me explicar-lhe uma coisa: Alexis Tam não é médico; eu é que sou. É por isso que ele precisa de mim para decidir isso.

 

– Passo a passo, de acordo com a procura?

K.C.U. – Não excluo a possibilidade de estar aberto às 02h00. Aliás, este hospital nunca para; trabalha-se aqui 24 horas por dia. O que temos é que aumentar os fluxos, à medida que integramos mais recursos humanos. Como fazê-lo, exatamente, vou decidindo isso, porque
sou eu o diretor do hospital.

 

– A perceção pública é de que os serviços públicos de saúde degradaram-se muito nos últimos anos. Contudo, estudos encomendados pelo governo dizem que a saúde já não era a principal preocupação para a discussão das Linhas de Ação Governativa. O que mudou tão depressa? E o que é que correu tão mal no passado?

K.C.U. – As pessoas percebem a energia que está a ser posta no setor da Saúde e sentem as melhoraras. No passado, as equipas que lideravam o hospital trabalharam muito, mas não seguiam esta nova linha. Sentimos, muito claramente, que Alexis Tam está a forçar muito as melhorias do sistema de saúde.

 

– E a aumentar orçamentos… 

K.C.U. – Se o Paulo tiver 100 patacas e eu lhe oferecer mais 100, já fica contente. Mas se eu lhe oferecer mais 500, é muito melhor. É isso que que temos agora: uma força motriz muito forte a puxar por nós, que assim podemos conduzir um projeto muito mais ambicioso. É hoje claro que a Saúde tornou-se uma prioridade deste governo. Já tivemos um hospital de ponta e vamos voltar a crescer.

 

– Os centros de saúde acompanham este movimento?

K.C.U. – Alguns centros de saúde têm uma grande dimensão e prestam cuidados de saúde, de forma gratuita, a toda a população. Já estendemos os horários nos centros de saúde e agora vamos instalar 30 camas em dois dos maiores- Areia Preta e Nossa Senhora do Carmo – para a recuperar pacientes de geriatria; ou fisioterapia, que ainda precisem de assistência mas que já podem ter alta do hospital. Já agora posso anunciar outro mecanismo novo que vamos lançar: depois do paciente voltar a casa, haverá uma equipa que regularmente lhe vai telefonar para verificar se está tudo bem, se está a cumprir o tratamento, como está a evoluir o quadro clínico. Se houver necessidade, mandaremos uma ambulância, com carta verde para conduzi-lo ao centro de saúde ou ao hospital.

 

– Um serviço de follow-up…

K.C.U. – Que é muito importante, por exemplo, no caso das doenças crónicas. De acordo com as indicações do governo, damos agora especial prioridade à prevenção é das doenças. Contudo, se já estiver doente, daremos o acompanhamento médico em toda a linha.

 

– É um plano muito ambicioso..
K.C.U. – É o meu trabalho. E estou muito confiante neste plano.

18 de Dezembro 2015

Este artigo está disponível em: 繁體中文

Related posts
EconomiaLusofonia

Conteúdo Patrocinado - Macau oferece serviços que acrescentam valor às empresas

EconomiaMacau

Banca preparada para alargar serviços em renminbi

Uncategorized

A nova economia de Jack Ma

Uncategorized

O antagonismo de duas Revoluções

Assine nossa Newsletter