PEQUIM “TESTA OS LIMITES” DE TAIPÉ - Plataforma Media

PEQUIM “TESTA OS LIMITES” DE TAIPÉ

 

O Presidente da Associação Militar Internacional de Macau acredita que a abertura de quatro novas rotas aéreas por Pequim perto da Região de Informação de Voo de Taipé poderá vir a criar “tensão militar” entre os dois lados do estreito. Por enquanto, diz Antony Wong Dong, esta ainda é “uma espécie de guerra psicológica”, em que Pequim “testa os limites” de Taipé. “São ações que têm certamente considerações estratégicas”, nota o analista em assuntos políticos e militares.

 

PLATAFORMA MACAU – Pequim anunciou recentemente novas rotas aéreas no Estreito de Taiwan perto da Região de Informação de Voo de Taipé, o que causou mau estar em Taiwan. Na sua opinião, há razões para Taiwan estar preocupado?

ANTONY WONG DONG – As novas cinco novas já foram aprovadas pela Organização da Aviação Civil Internacional, uma vez que a China tem uma influência relativamente grande nesta organização. Mas, o facto de serem aprovadas não deverá afetar a estabilidade e a segurança dos dois lados do estreito e da região.

O problema aqui prende-se com o facto de Pequim não ter consultado a Administração Aeronáutica Civil de Taipé. Fez apenas um comunicado unilateral, conduta que não ajuda à manutenção das relações pacíficas com Taiwan. Além disso, este tipo de procedimentos também constitui alguns perigos militares para Taipé.

 

P.M. – Que perigos?

A.W.D. – Estas novas cinco rotas encontram-se muito próximas da linha central do estreito de Taiwan, que foi delineada pelos americanos nos anos 1950. Ao longo de décadas de história, esta linha central foi essencial para a paz entre os dois lados. Durante os períodos em que as relações bilaterais eram relativamente estáveis, a China continental não efetuou quaisquer provocações abertas nem ultrapassou ou aproximou-se deliberadamente desta linha. É claro que nos anos 1990, quando Chen Shui-bian estava no poder, por vezes esta fronteira foi transposta.

Este foi sempre um fator indicativo do estado das relações entre Taiwan e a China continental. Mas, na maioria das vezes – digamos que em 90% dos casos – todos respeitaram esta linha. Por isso, este tipo de planos [abertura das rotas aéreas] deveria ter em conta a opinião de ambas as partes.

Por outro lado, tanto a China como Taiwan têm Zonas de Identificação de Defesa Aérea – o que não é o mesmo que a Região de Informação de Voo.

Se vários aviões sobrevoarem esta área da linha central durante muito tempo, o que vai acontecer é que os radares e as forças de defesa aérea poderão perder a sensibilidade. Se a China tiver a possibilidade de voar perto desta linha, num caso emergente chegará num curto espaço de tempo a Taiwan.

No âmbito militar há ainda outra possibilidade: as aeronaves civis são muito maiores do que as militares e a China poderá disfarçar as suas aeronaves militares, tal como fez Israel, de forma a que, aos olhos dos radares estas pareçam aeronaves civis. Pode também fazer a cobertura de aviões militares por civis de grande dimensão e, na proximidade da linha central, atacar subitamente. Taiwan terá muita dificuldade em fazer a distinção destas aeronaves e isto constitui uma grande ameaça.

 

P.M. – Então é legítima a reação de Taiwan?

A.W.D. – A atual reação de Taiwan é compreensível. Se Taiwan tomasse medidas semelhantes, acredito que Pequim teria uma reação de igual intensidade. Por isso, acho que a abertura destas rotas é muito problemática. As circunstâncias da decisão de Pequim, que fez um comunicado de véspera, são intoleráveis para Taiwan. E isto também poderá vir a criar uma maior tensão militar no futuro.

De uma perspetiva de paz bilateral, julgo que a forma como a China continental lidou com esta questão foi problemática. Esta não é apenas uma simples matéria de aviação civil, mas são ações que têm certamente considerações estratégicas.

Como se sabe, o ataque a aeronaves civis constitui uma violação das leis internacionais. No caso de guerra, é muito provável que isso aconteça. E, com uma maior intensidade do tráfego aéreo entre a China e Taiwan, a possibilidade de Taipé atacar um avião civil erradamente é elevada. É impossível distinguir num curto espaço de tempo se este é um avião civil ou militar. Podem ser cometidos erros, que podem ferir ou tirar a vida de pessoas inocentes. O incidente do voo MH11 da Malaysia Airlines na Ucrânia no ano passado é um bom exemplo disso. Imagine que duas partes entram em guerra. O transporte civil aéreo ainda precisa de se manter em funcionamento. Neste caso o que é que se deve fazer?

Se esta situação atingir um estado crítico, poderá até ser considerado um conflito militar, mas é algo que não vai acontecer agora. Quando isso acontecer, o estado de espírito das duas partes estará sob grande tensão.

Os exercícios militares levados a cabo pelos dois lados não preparam ninguém para este estado de guerra, apenas para a defesa. Por isso, a probabilidade de cometer erros como abater outros aviões é muito grande.

 

P.M. – Por enquanto mantém-se ao nível de uma espécie de guerra psicológica?

A.W.D. – Pode dizer-se que sim. Uma das partes testa os limites da outra, é uma espécie de guerra psicológica para ver como é que o outro reage. Mas, fundamentalmente, é uma situação temporária.

Se, num erro de cálculo um avião civil for abatido, Taiwan terá violado a lei internacional. Se não o abater, este avião circulará em espaço aéreo de Taiwan. E aí Taiwan vai acabar por perder força na defesa aérea. Isto coloca Taipé num grande dilema.

 

P.M. – E vai afetar as relações bilaterais.

A.W.D. – Pode não afetar a curto prazo, mas temos de pensar na situação a longo prazo. Para o ano, Taiwan terá eleições presidenciais e a probabilidade do Partido Democrático Progressista subir ao poder é muito grande. Se isso acontecer é claro que o impacto será muito grande. A superioridade [militar] da China virá rapidamente ao de cima. Porque, como podemos verificar, no próximo ano, a força aérea chinesa será certamente mais poderosa do que este ano e Taiwan não tem capacidade de produção de aviões civis ou militares. A quantidade de mísseis antiaéreos também é limitada, por isso a capacidade de defesa será cada vez menor.

 

P.M. – Mas os confrontos militares são uma possibilidade?

A.W.D. – Por enquanto é ainda difícil de dizer, existem vários fatores a considerar. Por exemplo, a parada militar no próximo 3 de setembro em Pequim é uma boa altura para perceber o estado das coisas. A presença de membros do governo de Taiwan ou sua ausência no evento pode ser duplamente muito embaraçoso.

Durante esta parada precisamos de ver que figuras da Coligação Pan-Azul [Kuomintang, pró-China] Taiwan irá enviar, incluindo generais, ex-políticos ou até empresários influentes. Outro fator a observar na parada é o armamento que a China poderá destinar a Taiwan.

Por exemplo, em 2009, a maior parte do material bélico foi concebido a pensar em Taiwan. E este ano é preciso ter em atenção a quantidade de novo armamento concebido para poder ser usado contra Taiwan.

Outro fator a observar é a mudança da situação política depois das eleições gerais em Taiwan e também a reação que vai ter em Pequim o Gabinete para os Assuntos de Taiwan. Terá de se analisar quais as mudanças no discurso deste gabinete.

Também no que diz respeito ao Exército de Libertação Popular, teremos de ver quantos exercícios vão estar direcionados para Taiwan. Atualmente é possível verificar que a maioria estão relacionados com o Japão, portanto temos de ver se este ano ocorre alguma mudança. Resumindo, hoje, o futuro do desenvolvimento das relações entre a China e Taiwan não parece muito auspicioso. Os dois estão ainda numa fase de observação mútua.

 

P.M. – Lidera a Associação Militar Internacional em Macau. Que tipo de atividades é que esta associação leva a cabo?

A.W.D. – Neste momento, não temos atividades quase nenhumas, em parte devido à falta de fundos. Outra das razões é que os nossos membros estão muito ocupados. Esta associação está gradualmente a orientar-se para a investigação, nomeadamente a pesquisa sobre algumas questões históricas. Não temos atividades a nível interno.

 

P.M. – Qual era o objetivo quando foi criada?

A.W.D. – Na altura o objetivo era sobretudo promover a cultura militar. Queríamos fazer a divulgação ao maior número de pessoas possível para que tivessem um conhecimento sobre os assuntos militares e prevenir equívocos sobre determinadas questões.

Hoje em dia, muito do que é escrito sobre assuntos militares nas notícias é pouco preciso. Isto acontece porque alguns jornalistas ou comentadores não têm um conhecimento profundo sobre estes assuntos, o que dá origem a mal-entendidos por parte dos leitores ou espetadores. O objetivo principal da organização passava por explicar estes assuntos às pessoas.

 

P.M. – E de onde vem o financiamento?

A.W.D. – Dos membros desta associação.

 

P.M. – Ao nível da segurança há alguma questão que deva preocupar Macau?

A.W.D. – Nenhuma questão em particular. Mas, talvez se deva falar sobre o o combate ao terrorismo. Nos últimos tempos o investimento estrangeiro [no setor empresarial] tem crescido, principalmente com origem nos Estados Unidos, e penso que isto possa vir a atrair a atenção de atividades terroristas. Além disso, as forças policiais de Macau têm um nível relativamente fraco. Se isto poderá ou não dar origem ao pânico ou a ataques, neste momento ainda não lhe sei dizer.

Catarina Domingues/Wendy Wu

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