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BRICS VÃO LEVAR ECONOMIA MUNDIAL A CRESCER PERTO DOS 4%

 

A economia mundial vai fortalecer-se com a ascensão dos mercados emergentes, que irão alavancar um crescimento na ordem dos 4% ao longo da próxima década, defendeu Jim O’Neill, autor da sigla BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), em entrevista ao Plataforma Macau. Ao prever que a China se transforme na maior economia do mundo num máximo de 15 anos, o economista inglês considera que o novo banco dos BRICS será aproveitado por Pequim para explorar o papel que reclama de “maior responsabilidade global”.

 

PLATAFORMA MACAU – Qual a importância do acordo alcançado este verão pelos BRICS para a criação do chamado Novo Banco de Desenvolvimento ?

JIM O’NEILL – Nesta fase inicial, ainda é muito cedo para dizer. Vai depender da capacidade de chegarem a acordo para apoiarem empréstimos criativos e bem sucedidos que outras instituições não apoiariam. É um bom sinal que, apesar da existência de algumas diferenças entre eles, estes países tenham, de facto, conseguido chegar a acordo sobre a sua capitalização inicial, a sua localização e a sua liderança.

 

P.M. – O banco dos BRICS estará sediado em Xangai. Com que moeda deverá este banco trabalhar? 

J.O.N. – É muito interessante o facto de Xangai ter sido escolhida como sede. Isto sugere-me que a China esteja interessada em explorar o seu próprio papel reclamado de maior responsabilidade global, e é provavelmente menos arriscado fazê-lo através do banco dos BRICS como experiência, antes de decidir o que fazer sobre o papel mais relevante que poderá vir a ter no FMI e no Banco Mundial.

Quanto à moeda, seria obviamente muito bom se usassem as próprias moedas dos BRICS para empréstimos, pelo menos porque isso enviaria uma mensagem positiva sobre a sua confiança partilhada nestas moedas, em oposição ao dólar norte-americano.

 

P.M. – Está confiante no sucesso deste banco?

J.O.N. – Como já disse anteriormente, é ainda demasiado cedo para ter uma perspetiva. Vai depender de como os BRICS vão chegar a acordo e implementar projetos de sucesso.

 

P.M. – O banco dos BRICS poderá afirmar-se como uma alternativa ao Banco Mundial e ao Fundo Monetário Internacional (FMI)? 

J.O.N. – Não estou certo de que se deve, nesta fase, estar necessariamente a pensar no banco como concorrente do FMI e do Banco Mundial. Essas instituições vão continuar a fazer o que estão a fazer em termos de empréstimos. É verdade que é provavelmente a ausência de um acordo real sobre a reforma do sistema de quotas e de votação do FMI e do Banco Mundial que levou à criação do banco dos BRICS, e se os Estados Unidos continuarem a arrastar a situação, isto poderá fazer com que o banco dos BRICS comece gradualmente a assumir empréstimos multinacionais, pelo menos, entre os países que formam o grupo dos BRICS.

 

P.M. – Que papel terá o FMI e o Banco Mundial no futuro? Defende a sua reforma?

J.O.N. – Sim, claro que estas instituições necessitam de ser mais reformadas e, em particular, o Congresso dos Estados Unidos precisa de chegar a acordo sobre a proposta de distribuição de quotas e votos aprovada em 2010, mas que ainda não foi implementada, uma vez que está a ser bloqueada pelos Estados Unidos.

Se os Estados Unidos e outros não chegarem a acordo sobre uma reforma e uma estrutura mais reflexivas, que representem o crescente peso dos países BRICS, em particular da China, então o FMI e o Banco Mundial vão acabar por ser vistos como bancos puramente ocidentais e não como verdadeiramente globais.

 

P.M. – Desde que criou a sigla BRIC, como mudou este bloco?

J.O.N. – Bem, eu nunca incluí a África do Sul e ainda me questiono por que os outros acordaram a sua presença. Eu sei que as autoridades sul-africanas ficam irritadas com estes comentários, mas economicamente, o país é muito pequeno quando comparado com os outros países BRIC. A China cria outra África do Sul a cada quatro meses! Além disso, a Nigéria é nestes dias uma economia maior do que a da África do Sul e a perspetiva da África do Sul de que representa os países subsarianos não é verdade. Posto isto, admiro o sucesso da África do Sul em entrar para o clube dos BRICS!

A outra grande questão é que a China é ainda geralmente bem sucedida, apesar da sua economia ter abrandado um pouco, e hoje é 1,5 vezes maior do que os outros membros juntos, portanto, a China domina enormemente, pelo menos economicamente.

 

P.M. – Julga que este bloco poderá alargar-se? Se sim, que países poderão juntar-se? E nesse caso, a sigla BRICS continuará a fazer sentido?

J.O.N. – Não, é a resposta simples! É muito pouco provável que outra grande economia emergente possa chegar perto da dimensão dos quatro países BRIC. Se eu julgasse que fosse possível, eu mudaria a sigla.

Há anos que a minha definição de um potencial BRIC é que o país tem de ter, pelo menos, três por cento do PIB global, ou a capacidade para tal. Suponho que, em algumas circunstâncias, poderá acontecer que o México e a Indonésia possam vir a atingir tal dimensão, mas estes países precisariam de ver o seu PIB [Produto Interno Bruto] crescer a um ritmo muito rápido durante muito tempo.

Prefiro uma segunda sigla, os países “MINT” para descrever os quatro que estão na liga seguinte, depois dos BRIC: México, Indonésia, Nigéria e Turquia, todos os que têm potencial para representar um a três por cento do PIB global, se não representarem já.

 

P.M. – Que papel têm ou poderão ter os BRICS na nova ordem económica mundial?

J.O.N. – Se o seu peso económico continuar a subir, então terão um papel cada vez mais relevante em todos os aspetos da economia global, incluindo aumentar a tendência de crescimento da economia mundial, o que eu acho que irá acontecer. Nos próximos 10 a 15 anos poderemos ver o crescimento do PIB mundial aproximar-se dos 4% em vez dos 3,3% dos últimos 30 anos, tudo devido à ascensão dos países BRIC. O aumento dos seus consumidores é a única maior oportunidade de negócio global que existe.

 

P.M. – Quais as principais mudanças que espera que ocorram na economia mundial?

J.O.N. – Vai tornar-se mais forte, apesar de todos os problemas que existem, devido à ascensão da China e da Índia, em particular, e dos restantes países BRIC e MINT. Há também boas perspetivas para os Estados Unidos, mas prevejo que o Japão e a Europa continuem a lutar e se tornem relativamente menores.

 

P.M. – Como vê o papel dos países de língua portuguesa (como o Brasil e Angola) na economia mundial e as suas relações com a China?

J.O.N. – Como todos os outros, tentam trabalhar as suas verdadeiras vantagens. A China vai ser a maior economia do mundo em 15 anos, se não em menos tempo, por isso vai dominar o comércio mundial. Se queremos fazer parte disto, precisamos de ter uma vantagem (e não matérias-primas) que a China queira. Sinceramente, vejo melhores perspetivas para as economias que não são primariamente exportadoras de matérias-primas como o Brasil e Angola, uma vez que a “nova” China está menos focada na importação de matérias-primas.

 

P.M. – Quais os principais desafios que considera que a nova presidência brasileira terá de enfrentar?

J.O.N. – Simples, aumentar a tendência de crescimento, promover o investimento do setor privado, encorajar e apoiar incentivos para assumir riscos e parar de ter um governo que tenta dirigir centralmente a economia. Como eu costumo dizer na brincadeira aos políticos brasileiros, eles ainda estão a tentar “fazer uma China” quando até a China não quer mais isso.

 

P.M. – Como vê a atual situação política e económica na China?

J.O.N. – Estou realmente impressionado com a China. Apesar de todos os seus desafios consideráveis, as autoridades chinesas tentam enfrentá-los e não os deixam apodrecer. Quer se trate dos preços do imobiliário, dos requisitos de energia e do ambiente, os decisores políticos tentam lidar com os desafios. Relacionado com isto, descrevo o atual ambiente como uma “nova China”, na qual tudo tem a ver com a qualidade do crescimento em vez da quantidade e o início da ascensão do consumidor chinês além de apenas brilho e luxo. Tenho pensado desta forma há três anos e prevejo que o crescimento seja de 6,5 a 8% durante o resto desta década.

 

P.M. – Qual a análise que faz dos recentes protestos em Hong Kong e que efeitos considera que poderão ter na Região Administrativa Especial e na China?

J.O.N. – Penso que os residentes de Hong Kong têm o direito de protestar, mas a China manteve-se fiel à letra da Lei Básica e não fez nada em contradição a isso. Penso que não é sensato os políticos do Reino Unido – ou outros – oferecerem as suas opiniões sobre o que deve acontecer.

 

Patrícia Neves

 

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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