MATANÇA DE ELEFANTES EM MOÇAMBIQUE É “A MAIOR CATÁSTROFE ECOLÓGICA” - Plataforma Media

MATANÇA DE ELEFANTES EM MOÇAMBIQUE É “A MAIOR CATÁSTROFE ECOLÓGICA”

 

A pobreza e a falta de consciência ambiental estão a contribuir para a extinção dos elefantes em Moçambique, defendeu, em entrevista ao Plataforma Macau, o ambientalista moçambicano Carlos Serra.

 

Para Carlos Serra defende “a pobreza das populações locais e a falta de consciência ambiental nas lideranças superiores” são os principais aspetos que contribuem para o fenómeno da caça furtiva em Moçambique, num momento em que faz um balanço positivo da manifestação organizada a 04 de outubro, em, Maputo, contra o abate de rinocerontes e de elefantes no país.

De acordo com a organização norte-americana de proteção ambiental, Word Conservation Society, estima-se que em Moçambique sejam mortos, anualmente, entre 1500 a 1800 elefantes.

Só nos últimos anos, segundo o relatório de uma outra ONG estrangeira, a World Wide Fund for Nature, de 2006 a 2012, pelo menos cerca de 4.000 rinocerontes foram reportados como caçados ilegalmente em 11 países africanos. Cerca de 95% destes casos, informa o relatório, tiveram lugar na África do Sul e no Zimbábue, países que fazem fronteira com Moçambique, e são considerados como o epicentro da caça furtiva na África Austral.

Em declarações, em Maputo, ao Plataforma Macau o ambientalista moçambicano Carlos Serra disse que Moçambique assiste “à maior catástrofe ecológica que alguma vez aconteceu”, alertando para o facto das espécies caçadas, algumas já em extinção, serem de extrema importância para o equilíbrio do ecossistema.

“Em matéria de redução de espécie, há espécies que já foram declaradas extintas. Para muitos, isto não é relevante, no entanto, não nos esqueçamos que cada uma destas espécies tem o seu papel no equilíbrio ecológico e que cada uma destas espécies é também fonte de receitas para um país e para comunidades locais. Nós não podemos ficar impávidos para este fenómeno”, alertou Serra.

Nos últimos tempos, Moçambique tornou-se num “corredor” para o contrabando de chifres de rinocerontes com destino à Ásia, num negócio que, segundo organizações ambientais estrangeiras baseadas em Moçambique, é feito com a complacência das autoridades locais.

Já este ano, o Presidente norte-americano, Barack Obama, recebeu o apelo vindo de duas organizações ambientais que atuam em Moçambique, a Agência de Investigação Ambiental (EIA) e a Fundação Internacional do Rinoceronte (IFR), para que fossem aplicadas sanções económicas por causa do abate desenfreado de rinocerontes e elefantes no país.

 

UMA QUESTÃO DE “SOBERANIA”

Para o ambientalista, além de uma implementação rigorosa das leis de proteção ambiental e uma utilização da lei de branqueamento de capitais, atacando todos focos de enriquecimento ilícito a partir de crimes contra a conservação, é necessário uma maior atenção por parte das autoridades moçambicanas, com vista a desmantelar as redes de tráfico em Moçambique.

“Para o caso moçambicano é necessário uma execução rigorosa da lei de conservação, uma utilização da lei de branqueamento de capitais, combatendo o enriquecimento ilícito a partir destes crimes, forçando uma maior antecipação na detenção dos mandantes, intermediários e outros elementos envolvidos. É importante que haja um reforço na segurança, falo dos serviços de inteligência interligado com outras redes internacionais, a Interpol por exemplo”, disse.

Carlos Serra defende ainda que, neste momento, o combate contra a caça furtiva em Moçambique deve transcender a simples questão de cidadania, assumindo-se como uma questão de “soberania”, em defesa dos recursos faunísticos moçambicanos.

De acordo com o ambientalista moçambicano, vários aspetos estão a falhar na conservação ambiental em Moçambique, dos quais destacam-se a fragilidade na fiscalização pelas autoridades locais e o cumprimento obsoleto das leis de conservação dos produtos faunísticos existentes no país.

“Não tínhamos uma lei adequada, falando no que diz respeito às infrações e sanções. Não estávamos a olhar para questão do tráfico e da comercialização. Felizmente, hoje já temos uma lei nova, a mesma que está sendo usada para atacar as questões de tráfico no Limpopo e no Niassa que se registam ultimamente. A fiscalização possui muitas fragilidades, se pensarmos na grandeza do território nacional”, afirmou, alertando para o problema da falta de recursos para combater a caça furtiva em Moçambique.

Noutros casos, como no Parque Nacional do Limpopo, na província de Gaza, sul de Moçambique, a população local é pobre, pelo que, como meio de subsistência, envolve-se em acções de caça furtiva dentro e fora do país.

“A pobreza, a falta de consciência ambiental, por vezes até nas próprias lideranças intermédias e superiores, contribuem para o agravamento do problema da caça furtiva em Moçambique”, disse Carlos Serra.

Apesar dos problemas levantados, o ambientalista felicita os esforços já empreendidos pelas autoridades e pelas ONG em Moçambique com vista a combater este fenómeno.

“Agora, não quer dizer que não se esteja a fazer nada, é importante louvar os esforços que foram sendo empreendidos pelas autoridades policiais, pelas ONG e de algumas comunidades para fazer face ao problema”, disse Serra, advertindo a ameaça que “é colossal”, não apenas em Moçambique mas por toda África e Ásia.

 

MARCHA EM DEFESA DOS ELEFANTES FOI “POSITIVA”

O ambientalista moçambicano fez um balanço positivo da marcha realizada a 04 de outubro na capital moçambicana, que envolveu mais de 2500 pessoas e cerca de 22 organizações públicas e privadas.

“O balanço da marcha foi positivo. Muito interessante foi conseguir, em muito pouco tempo, o apoio de todas as organizações não governamentais que trabalham nestas componentes do ambiente. Para nós, os organizadores, a marcha foi um sucesso grande. A adesão foi espetacular, tanto que será feita uma reedição no próximo ano”, disse.

Como consequência da marcha, segundo afirma Carlos Serra, serão levadas a cabo uma série de estratégias para a mobilização consciente da população, visando sensibilizar e educar os cidadãos moçambicanos sobre a importância da conservação ambiental.

“Percebemos que há ali um potencial muito grande que, se for bem usado, nós poderemos fazer algo muito bonito. Este tipo de iniciativa pode ficar uma referência para Maputo. Os elementos que foram introduzidos, decoração  das triciclos Bajaj (transformadas em elefantes e rinocerontes) ficaram tão bem enquadradas que a comissão trabalhadora decidiu continuar a trabalhar para que no próximo ano sejam mobilizadas as instituições do ensino para a manifestação”, afirmou.

Apesar do problema da caça furtiva em Moçambique estar num estado alarmante, Carlos Serra observa que a consciência dos moçambicanos começa a despertar, pelo que é notável o surgimento de movimentos que exigem proteção dos recursos faunísticos moçambicanos.

“É importante percebermos que alguma coisa está mudar, consciência das pessoas começa despertar, nunca foi vista tanta gente na rua para conservação ambiental em Moçambique. É um marco histórico”, assegurou.

 

PETIÇÃO PARA O PRÓXIMO PRESIDENTE

Carlos Serra anunciou que o movimento vai publicar uma petição dirigida ao candidato vencedor das eleições presidenciais de 15 de outubro e ao seu respetivo partido político, apelando para que a sua governação coloque na agenda política a questão ambiental.

“Nós vamos publicar dentro de alguns dias uma espécie de petição dirigida ao candidato e partido que vencerem na votação do dia 15. A petição é um simples apelo para que o partido e candidato vencedores coloquem na agenda política a questão ambiental, como prioritária, observando questões como a conservação, especialmente. Estas temáticas não podem ser só decorativas mas sim determinantes”, alertou Serra, lembrando que “ uma coisa é integrar estes aspetos nas políticas e outra, bem diferente, é tomar decisões práticas que privilegiem questões ambientais”.

Segundo disse, um outro aspeto que constará da petição está ligado à educação ambiental. É importante, defende Serra, elevar o patamar da educação ambiental, principalmente nas instituições de ensino em Moçambique.

“É necessário que se coloque a educação ambiental num patamar elevado, sendo feita de forma sistemática e permanente, com especial atenção nas escolas. Assim, teríamos iniciativas mais sistematizadas”, disse.

Com a iniciativa, o movimento liderado pelo ambientalista pretende também repensar nas estratégias de combate à pobreza nas áreas ricas em recursos faunístico, como forma de evitar que as populações locais optem pela caça furtiva para sobrevivência.

“Vamos buscar concretizar estes aspetos até à próxima marcha no próximo ano, que vai olhar com mais atenção para a participação das instituições de ensino, organizando uma espécie de carnaval de conservação da ambiental. Mas todo este trabalho envolverá voluntários”, alertou Serra.

O ambientalista diz ainda ser pretensão do movimento “transmitir uma mensagem diferente de Moçambique para o estrangeiro”, demonstrando que há pessoas preocupadas com o fenómeno da caça furtiva no país .

“Sabemos que a imagem de Moçambique está manchada com a esta associação que feita do país à caça furtiva. O exterior tem uma imagem de Moçambique como o lugar da caça furtiva, aliás, essa é a imagem que o exterior tem de toda África. Queríamos dizer exatamente que Moçambique não só isso, há muita gente comprometida com causa”, afirmou.

 

Estêvão Azarias Chavisso, em Maputo

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