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A REVOLUÇÃO, MODO DE USAR

 

Se o inimigo avança, abre-lhe o guarda-chuva; se recua, espalha protetor solar. 

 

Mao pode estar “vivo nos nossos corações” mas a sua retórica de guerrilha já não chega para incendiar as modernas e luxuosas avenidas por onde anda aos gritos a classe média de uma grande metrópole chinesa, como Hong Kong. Dentro das suas malas e mochilas de marca, os manifestantes trazem bebidas energéticas, garrafas largas para (os homens) urinarem, sprays contra a transpiração dos pés, e sombrinhas, não se vá dar o caso da polícia atirar-lhes com gás lacrimogéneo. E, frequentemente, desatam a limpar as ruas que ocupam.

“Sim, reciclamos”, diz Mat, 23 anos, enquanto, ao lado, passam ativistas com grandes sacos de lixo, e outros esfregam o alcatrão para limpar uma frase que alguém escreveu a giz. “Queremos derrubar o chefe do executivo (Leung Chun-ying) mas não vamos sujar as nossas ruas”, garante o estudante de design da HKU.

Na manhã do passado dia 01 de outubro, quando a China comemorava 65 anos de República Popular, Hong Kong era uma cidade anormalmente parada, com as pessoas a poderem fazer coisas de que já nem se lembram, como atravessar a passadeira com o sinal vermelho ou apanharem um táxi à primeira tentativa.

Desde há uma semana que as ruas da baixa da cidade estão ocupadas, primeiro por estudantes, a que se lhes juntaram milhares de pessoas, que exigem o direito de eleger, em 2017, o próximo chefe do executivo da Região Administrativa Especial de Hong Kong. A China, que nos anos 1980 inventou esta forma de autonomia para Hong Kong e Macau, territórios então geridos, respetivamente, pelo Reino Unido e Portugal, aceita o princípio de sufrágio universal, mas condiciona-o a uma lista de candidatos fabricada por Pequim.

A resposta da população tem sido inequívoca: mais de 45% dos residentes afirmam-se contrários às intenções chinesas, e as ruas enchem-se de gente que não aceita ficar excluída do processo de decisão. Nas manifestações está a história da cidade fundada por escoceses em 1841: pessoas das classes média e alta, orgulhosas da sua condição de chinesas, mas desconfiadas de Pequim, desmentem a habitual ideia de que, quando chega a hora, se pensa com a carteira, e desafiam nas ruas a estabilidade de um território que lhes ofereceu um conforto sem par no Extremo Oriente.

“Quero dizer ao governo que é genuíno o nosso desejo de sufrágio universal”, diz a freira Mo, da ordem das Filhas de Maria, enquanto tira selfies com um iphone e lamenta-se por ter um compromisso à sua espera. “Mas, depois, volto. Temos que mostrar a força da nossa decisão”, promete a religiosa católica, natural de Hong Kong.

O protesto é enquadrado por lojas de luxo de roupa e de relógios, por stands de automóveis italianos, com modelos como só se veem nos filmes, e pela silhueta elegante de uma cidade com edifícios de Norman Foster, I.M. Pei ou Cesar Pelli.  Os que protestam, fotografam com a mais recente tecnologia em telemóveis, e têm à mão o passe do metro para, como diz Patricia, estudante de 20 anos, cumprir “o plano de fuga caso a polícia ataque”.

Mas não se veem agentes nas redondezas.  Após escaramuças no início do movimento, a polícia de choque teve ordem de retirada e as ruas foram deixadas aos manifestantes. Muitos jovens dormem em esteiras estendidas no asfalto, debaixo de sombrinhas; surgiram tendas nos viadutos, onde nunca ninguém tinha andado a pé; e floresceram bancas que distribuem  gratuitamente água, pão, máscaras, luvas, óculos, pequenos guarda-chuvas e película aderente – a logística do protesto é uma arte que se reinventa todos os dias.

A voluntária Elva, 20 anos, com um penso na testa para combater o calor e arrefecer o corpo, calçada com sapatos de plástico e solas de borracha, “para não escorregar”, na mala uma garrafa da bebida energética japonesa Pocari Sweat, oferece a quem passa fatias de pão da Marks & Spencer, que alguém doou. “O mais difícil é ir à casa de banho. Ou vamos aos centros comerciais ou aos balneários públicos mas nem sempre ficam à mão”, queixa-se. Ao lado, um rapaz, ri-se e diz que vai “ao parque”.

No Landmark, o mais famoso ‘mall’ da cidade, mas agora às moscas, muitas das casas de banho estão fechadas ou têm cartazes a anunciar que se destinam exclusivamente aos clientes. Mais acima, na primeira metade da encosta, onde ficam as zonas de bares e restaurantes de Lan Kwai Fong e Hollywood Road, o único vestígio da ocupação de Central é a escassez de clientes.

Numa banca de quinquilharias, uma mulher desfolha alegados originais de posters maoístas e vai recitando os respetivos títulos: “Libertemos Taiwan”, “Fogo sobre o comité central”, “O Presidente Mao dá-nos uma vida feliz”… Mas, nos dias que correm, para citar o Grande Timoneiro, parece que o poder em Hong Kong está mais na ponta de uma sombrinha.

 

Luís Andrade de Sá 

 

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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