AS VOLTAS QUE UMA AÇORDA DEU - Plataforma Media

AS VOLTAS QUE UMA AÇORDA DEU

A açorda portuguesa estará na origem de pratos típicos de outros continentes, como o vatapá (Brasil), kalulu (São Tomé e Príncipe) e a matapa, de Moçambique, revela um livro que saiu agora no Brasil.

Uma pesquisa brasileira, do designer Renato Imbroisi e da jornalista Maria Emilia Kubrusly, incidindo no artesanato e na gastronomia em países africanos de expressão portuguesa e no Brasil, concluiu pela existência de movimentos recíprocos nesses intercâmbios.

“Lá e Cá, trocas culturais entre o Brasil e países africanos de língua portuguesa”, um livro lançado este ano, foi o resultado dessa investigação que, em entrevista ao Plataforma Macau, Maria Emilia Kubrusly diz ser para prosseguir.

 

PLATAFORMA MACAU – O que motivou os autores a escreverem sobre este tema?

MARIA EMILIA KUBRUSLY – A constatação de que há semelhanças em algumas formas de artesanato feito no Brasil e em alguns países africanos. Renato Imbroisi é um dos pioneiros do design de artesanato no Brasil e, a partir de 2003, começou a trabalhar também em Moçambique. A primeira vez que se deu conta desta semelhança foi em oficinas de cestaria que realizou na Costa do Sauípe, no norte do Estado da Bahia, Brasil, e em Palma, no norte da Província de Cabo Delgado, Moçambique: a fibra usada aqui e lá, a piaçava, é da mesma espécie, e o desenho, que lembra as escamas da pele da cobra, também é parecido, assim como o uso de cores vivas. A partir daí, passámos a observar e pesquisar estes encontros de forma, estilo, conteúdo, cultura, principalmente na área do artesanato. Ao se iniciarem os trabalhos especificamente para o livro propriamente dito, ampliei a pesquisa para a culinária e as lendas populares.

 

P.M. – Que conclusões encontraram?

M.E.K. – Conforme dizemos na apresentação, não foi nossa intenção fazer análises teóricas antropológicas, históricas ou de outro aspeto académico, mas apenas revelar estas semelhanças que encontrámos (por acaso ou em pesquisas voltadas ao tema), que nos encantaram e surpreenderam, e atribuímos em grande parte ao colonizador comum, Portugal, assim como às idas e vindas de brasileiros e luso-africanos daqui para lá, de lá para cá – como no exemplo real do doce de caju de Mecúfi.

 

P.M. – Houve alguma surpresa? Isto é, chegaram a alguma conclusão de que não estavam à espera?

M.E.K. – Sim, houve, aliás, a ideia partiu da surpresa de constatar a semelhança entre a cestaria da Bahia e de Cabo. Outras aconteceram ao longo da pesquisa. Por exemplo: aqui no Brasil, crescemos ouvindo dizer que o vatapá, prato típico da culinária baiana, tem origem africana; nas pesquisas, porém, constatámos que tem influência da açorda, prato da culinária portuguesa, que também influencia a cozinha africana em iguarias típicas como a matapa moçambicana e o kalulu são-tomense, que estaria relacionado ao caruru baiano, que tem influência indígena…

 

P.M. – Até há pouco tempo, um estudo destes era difícil de encontrar no Brasil, mas agora parece haver um maior interesse brasileiro pela realidade dos países africanos de língua portuguesa. O que mudou?

M.E.K. – Talvez esta pergunta possa ser parcialmente respondida também por um representante da editora Senac ou outro segmento do mercado editorial brasileiro. De nossa parte, como autores, sempre houve interesse pela cultura africana, principalmente após o início de nossa participação em projetos culturais ligados ao artesanato em Moçambique e São Tomé e Príncipe. Mas acredito que este “maior interesse brasileiro pela realidade dos países africanos de língua portuguesa” a que se refere o autor da pergunta esteja relacionado também ao fato de ter sido sancionada uma lei em 2003 que estabelece a obrigatoriedade de ensino da história e da cultura africanas e indígenas nas escolas brasileiras, tornando necessários livros e outras referências pedagógicas sobre o assunto.

 

P.M. – Vai haver uma segunda parte deste estudo?

M.E.K. – Esperamos que sim. Ainda não temos nada de concreto (nenhum acerto oficial com editora ou outra instituição), mas há a possibilidade de participar de projeto de artesanato em Cabo Verde; e temos muita vontade de fazê-lo também em Angola e Guiné Bissau, além, é claro, de conhecer Macau e Goa. Sem dúvida, se conseguirmos fazer estes trabalhos e estas visitas a estes países, nossa pesquisa terá continuidade, sim.

 

Luís Andrade de Sá

 

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