As Nações Unidas indicaram que Moçambique foi o único país da África austral onde situações de conflito continuaram a gerar necessidades humanitárias no segundo trimestre, numa altura em que a região procura recuperar de várias cheias.
No relatório regional divulgado hoje (16) pelo Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), Moçambique surge como exceção num período em que grande parte dos países da África austral transitou das operações de emergência causadas por cheias e ciclones para iniciativas de recuperação e reconstrução.
Enquanto os efeitos dos ciclones que atingiram Madagáscar e Moçambique e das inundações que afetaram mais de 2,6 milhões de pessoas na região diminuíram ao longo do segundo trimestre, o país continuou a enfrentar desafios humanitários associados à insegurança e deslocação de populações.
O documento destaca igualmente que a insegurança alimentar, os surtos de doenças, a malnutrição e as limitações de financiamento permanecem entre as principais preocupações humanitárias da África austral, afetando milhões de pessoas, incluindo em Moçambique.
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Embora o relatório não detalhe os focos de violência no país, as necessidades humanitárias continuam fortemente ligadas à situação de segurança na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, onde decorre uma insurgência armada desde outubro de 2017.
A província, rica em reservas de gás natural, permanece no centro das preocupações das autoridades moçambicanas e dos parceiros internacionais devido aos impactos do conflito sobre as populações locais.
Dados da organização Projeto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED, na sigla em Inglês) indicam que apenas nas duas primeiras semanas de junho foram registados 11 eventos violentos em Cabo Delgado, todos atribuídos a extremistas associados ao Estado Islâmico, provocando oito mortos.
O conflito já causou 6.632 mortos desde o início da insurgência e, dos 2.408 eventos violentos registados desde outubro de 2017, 2.224 envolveram alegados elementos do Estado Islâmico Moçambique, segundo a organização.
As consequências da violência têm sido particularmente visíveis ao nível dos deslocamentos populacionais, destruição de infraestruturas, interrupção de serviços básicos e dificuldades de acesso a meios de subsistência, fatores que continuam a alimentar necessidades de assistência humanitária em várias zonas do norte do país.
Além da insegurança, Moçambique enfrenta desafios ligados à saúde pública e à alimentação. O relatório regional da OCHA refere que a malnutrição aguda continua a ser uma preocupação significativa em vários países, incluindo Moçambique, refletindo os efeitos combinados da seca prolongada, insegurança alimentar e surtos de doenças.
A cólera continua igualmente a representar uma ameaça na região. Entre abril e junho, foram reportados mais de 17.000 casos e mais de 200 mortes por cólera em Angola, Maláui, Moçambique, Namíbia, Tanzânia e Zâmbia.
O OCHA refere que, apesar de uma ligeira melhoria da segurança alimentar regional, apoiada por precipitação acima da média e pelas colheitas sazonais, cerca de 13,3 milhões de pessoas continuavam em situação de crise ou pior devido aos impactos persistentes da seca de 2023/24, fracas colheitas e preços elevados dos alimentos. A organização alerta que as vulnerabilidades permanecem elevadas em vários países da região da África austral.
A maioria destes países avançou para uma fase de recuperação após as cheias registadas no início do ano, embora persistam inundações localizadas em Essuatíni, segundo o OCHA. O relatório destaca ainda que o número de refugiados e requerentes de asilo permaneceu globalmente estável, sem sinais de deterioração significativa dos movimentos populacionais na região durante o segundo trimestre.